quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VOLTO NA PRÓXIMA VIAGEM

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

DIAS BUENOS

Aqui em Buenos Aires confirmo todos los dias o que descobri em Firenze: viajar para uma cidade ou morar nela são duas coisas completamente diferentes. Por mais que eu tente fazer turismo aqui, não consigo. Não sou turista em Buenos Aires, mesmo querendo, mesmo tentando. Mesmo quase tendo perdido meu castellano fluente.

Não sou turista porque, ainda que eu não viva aqui sempre, tenho uma casa, uma vida com rotina de levar criança na escola e pôr pra dormir, fazer almoço, jantar, supermercado... então moro. E aí, quem consegue ter os olhos que eu tive para Londres, Viena ou Praga? Quem é que sai de casa e vai passear o dia inteiro pelas calles portenhas? Quem consegue ir visitar o túmulo ou o museu da Evita, a feirinha de San Telmo (meu lugar favorito), o estádio do Boca Juniors, o zooloógico, o Caminito, o Puerto Madero ou a casa do Gardel? Quem consegue? Eu não...

Em compensação, há dias de sol, festinhas de aniversário, pique-niques com a Sofia e longas conversas malucas com histórias inventadas madrugada adentro. E isso é tão bom quanto fazer turismo em Buenos Aires. É até melhor, eu acho.

PS. Para constar: esta cidade está mais cara do que nunca!

domingo, 19 de outubro de 2008

DEZ HORAS DE SEPARAÇÃO

Voar de São Paulo a Buenos Aires não costuma ser uma tarefa difícil, complicada ou demorada. Mas desta vez fui sorteada.

Da minha chegada para o check-in no aeroporto de Guarulhos, em SP, às 8h30 do primeiro domingo com horário de verão, até eu ganhar o abraço delicioso da Sofia às 18h30 no Ezeiza, em Buenos Aires, foram dez horas de tédio, sono, fome e exercício de paciência com o chá de poltrona que a TAM deu nos passageiros do vôo 8010. E ouvi comentários não muito animadores enquanto esperávamos. Embora a tripulação tenha sido muito gentil e prestativa, parece que não vai ser surpresa se a companhia estiver andando mal. Espero que não, já que tenho "orgulho de ser brasileira".

Foi uma soma de atrasos sabe-se-lá-por-quê e problemas no computador da caixa preta: quase duas horas esperando para embarcar, depois mais duas dentro do avião, e mais uma e pouco até sairmos de uma aeronave e nos re-acomodarmos em outra. Para, enfim, decolar. Nada disso importava quando eu sabia que estava indo ver minha irmã e minha sobrinha - com esse sorriso que me arrasa -, mas pode importar para os "anais jornalísticos"... rs. Registremos, então, duas observações, já que aqui se deve escrever.

Pois, veja, em cinco meses lá no outro contninente, não aconteceu nada parecido. Salvo um atraso de duas horas na chegada do trem que me levaria de Budapeste a Praga, todas as outras viagens, por terra ou por ar, foram bem pontuais. Até na Itália caótica. Então por que a gente não consegue?

Por outro lado, como é gostoso ser brasileiro. Mesmo com todo esse transtorno, estávamos lá (quase) todos os passageiros de bom-humor, falando alto, rindo, descobrindo as histórias uns dos outros, correndo atrás do cachorro-rato que viajava com a gente dentro do avião, e tentando achar saídas divertidas para os coitados que iam perder a conexão para outros lugares.

Portanto dez horas não são nada perto do tempo e do espaço que nos separam das gentes dos outros continentes. Somos muito mais legais.

COCÔ XIXI PUM
Enfim, desembarco no Ezeiza meio zumbi e não vejo ninguém. Mas como? Minha irmã e a Sofia disseram que estavam aqui! Dou uma voltinha ao redor de mim mesma, ansiosa, mas antes de eu ter tempo de pensar no que fazer, sou agarrada de amor! Um micro-ser de cabelos cacheados e uma flor bem no alto da cabeça me abraça por trás com força e com o maior sorriso da argentina, e me diz assim: Tchia Chuuuuli, disculpa qui a chênti não táfa aqui quanto cê saiu, é que éu fui no bánhêlu facê cocôôôô!!!!!!!!

Buenos aires nos esperam.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

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daqui para baixo:
EUROPA
(abril a setembro de 2008)

depois, mais pra baixo
CIDADES MINEIRAS (janeiro de 2008)
TURNÊ COM A GOTA D'ÁGUA PELO BRASIL (set a nov de 2007)

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

È FINITO.


Acordei com os cachorros latindo, tive que pegar o carro para ir até a padaria e descobri que o sonho acabou. Tem pão-de-queijo, tem brigadeiro, tem guaraná, tem leite-moça, mas o sonho... acabou. È finito. Estou no Brasil. De volta. Cinco meses depois, sono tornata a casa.

Já parece que eu nunca saí daqui.

Mas eu sei que saí, sei onde fui, sei o que vi, sei o que senti, sei como voltei, e por quê
. Si, io lo so. Lo so. Case, libri, auto, viaggi, fogli di giornale... Che anche se non valgo niente perlomeno a te, ti permetto di sognare. E se hai voglia, di lasciarti camminare. Scusa, sai, non ti vorrei mai disturbare...

...até a próxima viagem.
Presto. Prestíssimo.
Magari!
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

NON ME LO SO SPIEGARE


Scusa, sai, non ti vorrei mai disturbare

Ma vuoi dirmi come questo può finire?
Non me lo so spiegare
Io non me lo so spiegare


Tiziano Ferro e Laura Pausini
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

VI PARIS AMANHECER DA JANELA DO AVIÃO


Foi assim minha última manhã na Europa, vendo Paris amanhecer pela janela do avião parado.

A viagem foi longuíssima. Trem, avião, avião, avião. Mas foi boa. Me deu bastante tempo pra pensar em tudo. Em cada dia, em cada cidade, em cada país, em cada pessoa, em cada momento especial dessa viagem indimenticable. Absolutamente inesquecível. Se um dia eu sonhei com tudo isso, a realidade foi muito melhor do que o meu sonho.

ANDIAMO
16h57 (24.09) - Peguei o trem de Firenze para Pisa. Uma hora e pouco de viagem. A Shinobu - melhor amiga que alguém pode ter - foi comigo, pra me fazer companhia e me ajudar com as malas. Ela viajou de trem comigo de Firenze até Pisa, e depois voltou sozinha, só pra me ajudar. E ainda foi assaltada na saída do trem. Uma cigana desgraçada, com um bebê no colo, abriu o zíper da mochila dela e pegou a carteira. Foi uma situação estranha, mas só nos demos conta do que tinha acontecido quando a Shinobu sentiu falta da carteira. Tadinha.

E então eu cancelei o cartão de crédito dela pelo telefone em espanhol, passando informações como nome do banco e endereço soletrando japonês, enquanto tentava fazer meu check-in em italiano. O samba do criolo doido. Juro. Quando a mocinha do check-in quis me cobrar, em italiano, um excesso de peso estratosférico - enquanto eu ainda falava ao telefone em espanhol e soletrava em japonês -, comecei a chorar desesperadamente (em português). Metade era nervoso por causa da Shinobu roubada e do valor do excesso de peso, metade era teatro pra tentar não pagar nada.

No fim, consegui cancelar o cartão e encontrei dois santos e gentis italianos que despacharam as malas comigo para aliviar meu excesso. Eles eram gays por isso eram gentis. Porque italiano homem é de uma grosseria só.

21h00 - Embarquei em Pisa.
22h30 - Cheguei a Paris, no Orly. Deserto. A não ser as pessoas do meu vôo, que foram se dispersando num piscar de olhos, nada, ninguém. Aeroporto fantasma. Mas, tá, eu pensei, esse é o aeroporto pequeno. Lá no Charles de Gaule vai ter mais movimento, um restaurante, um café, algumas coisas abertas. Sim, porque eu ia esperar lá até as 4h pra fazer meu check-in. Taxi, motorista chinês que fazia questão de falar francês comigo. Que saco. Caminhos de Paris fechados. C'est fermè! C'est toute fermè! Tá, eu já entendi. Ele queria dizer que ia sair mais caro porque teria de fazer o caminho mais longo. Já entendi, china! Pára de gritar. Parou.

Meia-noite - Desço do taxi no Charles de Gaule e tenho a certeza de que a gente no Brasil é louca. Ou eles é que são muito estranhos. Porque estava TUDO fechado. À meia-noite não tinha uma alma no maior aeroporto de Paris, nem um pícolo café aberto. Nada. Fiquei chocada. Tinha um ragazzo com a mala sob os pés tirando um cochilo numa cadeira e só. E eu.

4h (25.09) - Começou a chegar gente. Um monte de brasieliros. Tinha um bigode que não parava de perguntar coisa pra todos que apareciam na frente. E ele falava português, assim, naturalmente, e achava mesmo que os franceses estavam entendendo... E quando eles faziam cara de "o quê", ele repetia a pergunta falando beeeem devagar. Ah, agora sim.

Bom, fiz o meu check-in para Lisboa, quase tive que tirar a roupa na PF porque eu não parava de apitar, e precisei guardar o meu vidro de esmalte do tamanho de um dedal lacrado num plástico super-ultra-protetor. Ridiculô. Comprei minha última Evian e embarquei, às 6h30. O avião deveria sair às 6h50. Mas atrasou uma hora e meia. Foi por isso que vi Paris amanhecer da janela do avião parado. A espera foi o tempo exato para cidade luz clarear. Junto com os meus pensamentos de partida. E enquanto decolávamos e Paris amanhecida ganhava o sol, eu agradecia, mais uma vez, por tudo.

9h00 - Depois de sobrevoar o Tejo, pousamos em Lisboa. No horário da Itália seriam 10h e eu teria perdido a conexão. Mas como Portugal é uma hora mais cedo, deu tempo. Rs. No aeroporto de Lisboa, muitos, mas muitos, mas muitos brasileiros. Quase no mesmo horário saía o meu vôo pra São Paulo, mais um pro Rio e outro pra Recife. E a brasileirada estava toda perdida porque todos os vôos que vinham para essas conexões estavam atrasados e então chegou todo mundo junto em cima da hora. Mas como brasileiro é desesperado, e como fala alto, e como exagera na pressa e no drama... Mas, ai, que bom me sentir em casa!

9h30 - Embarquei junto com os outros retardatários e decolamos em seguida para longas 10 horas de viagem. Comi tudo que me ofereceram. Vi todos os filmes. Li todas as revistas. E foi em uma dessas revistas que li um texto cujo título é a frase inspiradora da volta pra casa.

"OS NOMES DAS COISAS"
Pois qual é o nome dessa coisa que a gente sente nesses momentos de sensações misturadas? De partidas querendo ir e ficar ao mesmo tempo. E depois de tanta beleza, tanta emoção, tanta intensidade em todos os dias, durante meses. Qual é o nome dessa coisa? Eu não sei. Não sei o nome em português, nem em italiano, nem em esperanto. Não sei o nome dessa coisa. Mas é qualquer coisa bem parecida com felicidade, misturada com nostalgia, com um pouco de ansiedade e uma pitada de expectativa. Mas tem também uma alegria, uma satisfação. E algum pequeno lamento por qualquer desencontro. Poderíamos chamar, então, essa coisa, de um nome que ainda não existe: feliztalgiadadeativasalento. Mas isso tiraria toda a beleza do sentimento sem nome. Dessa coisa que eu sinto. Portanto, nem todas as coisas tem nome. E eu volto assim, com essa COISA no peito...

IN BOCCA AL LUPO
Foi na mesma revista que achei uma crônica do Lobo Antunes, um escritor português incrível a quem fui apresentada no ano passado. A coisa se chama "Eu, em agosto". Imagina para onde me levou, para eu em agosto. Mas agora quem me leva é o avião. E pra casa. Das coisas que deixo, espero me lembrar sempre. Já de mim nas coisas, nos lugares, e com as pessoas, talvez esqueça. Ou porque me esqueci lá. Ou porque seja outra, então. Se calhar já sou. Se calhar já era.

"(...) Parece que voltei à minha infância. Não me lembro se era feliz nessa época. Se calhar era. Esqueci. Quer dizer não esqueci as casas nem as travessas: esqueci-me a mim, ou era outro então."

PS: In bocca al lupo significa BOA SORTE.
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

PORQUE EU TÔ VOLTANDO...

Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente.
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre, sem saber
Que o pra sempre, sempre acaba
...
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir nem tentar agora tanto faz...
Estamos indo de volta pra casa

Cassia Eller

terça-feira, 23 de setembro de 2008

ANTIPASTO PRIMO SECONDO DOLCI

Antes de ir embora, eu PRECISO, è bisogno, falar do assunto principal na Itália: comida!

Veramente não falei até agora sobre as pizzas, os prosciuttos, as mozzarelas, as bruschettas, os nhoques, os raviolis, os pennes, os spaghettis e os polpettones porque, surpreendentemente, pra mim a comida na Itália não teve essa importância toda. Meu paladar não ama massa e eu quase só comi salada todos os dias. Podem me matar, amantes da culinária italiana – e Toscana! -, mas é vero: o que eu mais comi na Itália foi salada (além de um risotto de gorgonzola com radicchio e noci, de matar!).

Fui realmente uma exceção, um acidente – accidenti! - porque realmente na Itália só se fala em comida e si mangia troppo! Portanto o assunto merece umas linhas antes de irmos comer salada no Brasil.

TUTTO INSIEME NOOOO!
A refeição na Itália tem todo um esquema. É muito diferente do nosso jeito brasileiro de comer, e a forma é muito, mas muito respeitada pelos italianos: antipasti, primi piati, secondi piati, dolci. É assim. Tudo separado. Não existe um prato de arroz, feijão, bife e batata. Ou macarrão com frango. Ou risotto com torta (alias, torta aqui NUNCA vi!) Não existe colocar as coisas juntas no prato. Não. Non c’è. Jamais. Sogetto inezistente! Tutto insieme no! É separado, uma coisa de cada vez. E o certo é pedir todos os quarto pratos, e ir até trocando de vinho se for o caso. Até a sobremesa tem seu vinho específico, o vinsanto. Má nàggia!

Então é assim: primeiro o antipasto - uns frios, uns queijos, uma mozzarella, crostinis com cogumelos, pomodori e fromaggio, pate de fígado (éca!) e beringela (èèèècaaaa!!). E pão, sempre. Pão sem sal.

Depois vem o primeiro prato, normalmente um risotto ou uma massa bem cheia de molho, bem temperada, bem encorpada. E no prato vem só o rizzo ou só a massa. Sem mais nada. Magari vocé usa o paozinho pra chuchar no molho. Mas nada de acompanhamentos.

E então vem o segundo prato, a carne. Tem carne de porco, tem bisteca fiorentina, frango, peixe, coelho… Ou pode ser também um outro prato de massa! Sem constrangimento. O feio é não pedir.

E, depois de tudo isso, a sobremesa: dolce, gelato, biscotto com vinsanto… Frutta? Non c’è. Muito raro. É sempre tiramisu, cheesecake, torta della nonna, torta de chocolate ou de maçã, gelato, tartufo, essas coisas leves.

E depois de tudo isso você vai rolando pra casa. Rolando literalmente, caindo no chão, porque a comilança toda é acompanhada MESMO de vinho, então já viu como se termina o jantar (e o almoço também!).

E, olha, é incrível, mas a maioria das pessoas come de fato todos os pratos. Não é lenda. Não é. Os cardápios dos restaurantes são assim mesmo: antipasti, primi, secondi, dolci… E prepare-se para as caras feias se você sair da regra. Eles não te obrigam a pedir do jeito certo, mas te olham como se você fosse uma aberração, que não sabe comer direito.

E tem o café. Um dedinho mindinho de xícara. Não pense que veio errado. É assim o spresso italiano – segundo eles o melhor do mundo, incomparável, único.

Ah, e tem o Limoncelo! Madonna! Não se pode esquecer do Limoncelo depois ainda de todos os depois – que é pra dar aquela assentada final. (os japas também tomam grappa!)

CENA A CASA
Não é teatro, é jantar. E não, não é só no restaurante a comilança separadinha. Juro que pensei que fosse (juro, Aline). Mas fui convidada para jantar na casa de um italiano - e de um brasileiro que já italianou - e vi que é assim mesmo também nas casas italianas… Primo, secondo… tudo separadinho, um por vez.

E italiano não tem cozinheira, então é uma delícia porque o jantar já começa com todo mundo na cozinha desde a hora que chega, enquanto o dono da casa vai preparando o cibo.

No jantar que o Fábio e o Aluizio fizeram pra mim, teve penne con zucchini e gamberi di primo, e porpettone recheado com espinafre di secondo. Tudo delicioso. E não, não podia comer junto. Na Itália é assim.

E, olha, a gente se acostuma. É bonito. E passa a fazer muito sentido essa coisa de não misturar os sabores e os setores. Dai!

PANNE E TULIPANNE
E quem pensa que foi a mamma que ensinou a passar o pão italiano no pratinho de azeite e sal enquanto a comida não vem, faça penitência. Para os italianos clássicos isso é o fim da picada. Coisa de americano que não sabe comer. Um sacrilégio porque atrapalha seu paladar para o que vem, separadinho, na seqüência.

E para os italianos também não existe pedir ou abrir um vinho assim só pra beber, como a gente faz. Pra beber vinho PRECISA ter uma comidinha pra acompanhar.

DE COMIDAS E VIAGENS

E então, depois de tudo isso, me dou conta de que a minha viagem foi como uma refeição italiana.

O antipasto fiz em maio, com a Daysi, passando rapidinho em mais de 20 cidades no mês – com direito a porções maiores das entradinhas preferidas, digo, dias a mais nos lugares mais legais.

O primo piato, eu sozinha por aí, degustando com calma e prazer lugares lindos, inacreditáveis, saborosíssimos e cheios de identidade – como as massas toscanas.

O secondo piato foi Firenze, estudando italiano, a proteína, a consistência, o pé no chão em algum lugar.

E, por fim, o dolce, o tempo a mais que me permiti, entre aulas e gelatos.

Enfim, agora pedi o café (italianíssimo, corto!) e já estou pagando a conta para ir embora. Triste. Não de tanto comer. Mas de tanto viver. Digo, feliz. É um sentimento doppio de alguma maneira. Mas, claro que vou embora feliz, como me senti depois de toda refeição italiana (ainda que salada!).
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

OI BONITTONNA!


Dependendo do ângulo por onde você olha, o centro de Firenze é a 25 de março. Só tem brasileiro. Comprando e vendendo. É inacreditável. Se me contassem eu não acreditaria que é como é. Se contar ninguém acredita. Mesmo assim estou contando. Porque isso eu também PRECISO registrar. E basta. Às vezes é chato, de tanto brasileiro.

Bobeou, o Ciao Bella vira “Oi Bonittonna”!
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AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Drummond, dopo di mesi soltanto con me stessa


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O TEMPO

Foi como num passe de mágica. De um dia para o outro. Sábado começa o outono, disseram. E começou MESMO. Depois de dois meses de absoluto calor e sol, sol, sol, todo dia, todo dia, todo dia, há uma semana faz frio e, dia-sim-dia-não, chove em Firenze. Foi assim, juro. De um dia para o outro a temperatura caiu 10 graus e a cidade mudou. Começou o outono.

Para mim é chato. Porque para mim Firenze é cidade de sol e calor. Eu conheci esse lugar assim e fui feliz todo dia aqui assim. Apesar do calor in-su-por-tá-vel. Era feliz demais acordar todos os dias com aquele sol, aquele céu azul, e fazer tanta coisa naqueles dias longos que só escureciam depois das dez da noite, e ver aquele pôr-do-sol lindíssimo todo fim de tarde na Ponte Vecchio. Todo dia. Como era feliz sair sem casaco na cintura, sem guarda-chuva, sem preocupação e com o coração quente. E estudar na praça, e tomar sol de bici, e almoçar, jantar, viver ao ar livre... Como era feliz!

Certamente a mudança do tempo me faz ter uma estranha, mas tranqüila, sensação de que este é o tempo certo. O meu tempo certo de ir embora. O tempo certo para o fim do último tempo desta viagem - que já teve uma bela de uma prorrogação. É tempo de voltar pra casa.

CALÇADAS QUEBRADAS
Acho que o céu era sempre tão azul e o sol era sempre tão brilhante e quente que eu não olhava muito para baixo. Mas estes dias tenho olhado, já que, com chuva, ando menos de bici e mais de sapato (alto). E estou desesperada com as calçadas de Firenze. São insuportavelmente apertadas, quebradas, sujas e "inandáveis".

É verdade que eu já tinha tropeçado algumas vezes e quase caído mais de mil, mas nunca tinha, de fato, me incomodado ou parado pra achar ruim. Porém agora, além de tudo, os buracos nas calçadas ficam cheios de água da chuva e você vive metendo o pé em poça d'água porque não dá pra desviar de todas. Fora que tudo aqui vive em obra e as obras comem as calçadas.

CLIMA PODEROSO
Mas não importa. A calçada era um adendo para registrar o poder do tempo. Do tempo que passa, do tempo que muda e do tempo que determina humores e comportamentos.

A gente que não tem isso no Brasil, às vezes não imagina a diferença brutal entre tudo e todos numa cidade que tem verão quentíssimo, outuno chuvoso, inverno freddo freddo e depois a primevara cheia de esperança... Firenze é assim. Acaba o verão e as pessoas começam a ficar tristes.

(Dizem que não é SEMPRE brusca desse jeito a mudança do tempo, mas este ano foi e foi isso que eu vi.)

Se chove, chove dentro e fora.
E aqui, agora, chove.
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domingo, 14 de setembro de 2008

SORELLE FRATELLI FAMIGLIA

No fim de semana em que meu irmão - querido, especial e TRANQÜILO - veio me visitar, minha irmã japonesa, a Shinobu, teve pela primeira vez um irmão mais velho, as sorelle Fernanda e Stephanie passaram um dia inteiro com a gente falando sobre família, e conhecemos quatro irmãs americanas muito interessantes, com uma história diferente de tudo que eu já tinha ouvido nos meus 34 anos de vida. Ele e elas ilustram uma certeza deliciosa (que poderia ser assinatura de cartão de crédito): ter irmãos próximos e amigos não tem preço.

TÔ TRANQÜILO
Essa é a frase que mais sai da boca do Dudu, meu irmão. É a resposta dele para tudo. E não tem uma pessoa que não sorria quando ele diz "eu tô tranqüilo". E também não tem ninguém que não responda "ah, então eu também tô tranqüilo". E então é uma epidemia de gente tranqüila que faz com que toda a rua fique tranqüila, e todo o quarteirão fica tranqüilo, e a cidade inteira fica tranqüila, e toda a região, e até o país fica tranqüilo. Então não tem tempo ruim, não tem programa chato, não tem preocupação possível, não tem tensão, não tem nada de desagradável ou inconveniente. Ficamos todos tranqüilíssimos e os dias passam felizes e leves.

E depois que o Dudu vai embora, o "tô tranqüilo" dele permanece, na boca de todo mundo que conviveu com ele, e se propaga... pela classe, pela escola, pelo restaurante, pelas casas das pessoas. E, enfim, surpreendentemente no meio do caos fiorentino e italiano, tá todo mundo tranqüilo. E feliz.

Grazie.

ÔNIDJÔ
A Shinobu fez questão de conhecer o meu irmão. E, mesmo antes de ele chegar, já o chamava de ônidjô - irmão mais velho em japonês. Porque ela é minha onidjá, irmà mais velha. E eu sou imôto dos dois - irmã mais nova. Mas, enfim, Shinobu foi encontrar a gente à tarde e não nos largou mais até de madrugada. Ela estava feliz como eu jamais havia visto e não parava de repetir ônidjô, ônidjô, entre dentes que sorriam um sorriso gentil e grato. Mil vezes grato. Grazie, grazie, grazie, ela dizia incansavelmente a cada gentileza que o Dudu fazia. A cada taça de vinho servida, a cada comida ordinada, a cada sugestão, a cada palavra, a cada cuidado. Foi realmente bonita a feliciade dela - além de loucamente engraçado, porque ela é MUITO engraçada.

Mas a melhor parte veio na segunda-feira, depois que o nosso irmão já tinha ido embora. No intervalo da aula, a Shinobu veio sorrindo e me deu um abraço muito forte (japoneses não costumam abraçar, muito menos forte) e disse que tinha tido uma experiência muito muito especial. Disse que queria me agradece demais - e ao Dudu - porque ela nunca tinha sentido isso que a gente sente quando tem um irmão mais velho, alguém que se preocupa com a gente dessa maneira, que cuida, que acompanha. E, quase entre lágrimas, tentando se explicar em italiano, mexendo as mãozinhas japonesas, ela disse: porque sempre sou eu a ônedjá. Aqui em Firenze, principalmente, sou sempre eu a irmã mais velha. Sempre eu me preocupo com os outros, sempre eu cuido, sempre eu acompanho. Então me senti muito, muito feliz e especial quando seu ônidjô foi meu ônidjô também. Ela disse bem assim, emocionada: jamais vou me esquecer dele carregando a minha mochila!! Nunca ninguém faz isso pra mim. E finalizou: tô t-lãnquila.


OS QUINZE IRMÃOS
Sarah, Alisa, Nina e Maria. 16, 18, 25 e 20 anos. Irmãs. Americanas. Lindas. Meio loucas. Filhas da mesma mãe (louca também, segundo elas). Nina tem um pai diferente. Além das quatro, mais onze irmãos. Na verdade são dez da mesma mãe com cinco ou seis pais diferentes (as meninas não têm certeza), e mais cinco filhos que o pai das últimas três já tinha. Então a mãe tinha sete, o pai tinha cinco e os dois juntos tiveram mais três: exatamente elas, Sarah, Alisa e Maria. Agora são catorze porque um dos irmãos morreu (não sei em que circunstâncias, mas ainda vou perguntar porque não me agüento de curiosidade - profissional, sempre).

O irmão mais velho tem 35 anos e se chama Josh. A mais nova é a Sarah, de 16. A mãe é hippie e agora mora em Dallas, no Texas, com o pai das três. Elas viveram um tempo com eles, mas se encheram e mudaram pra New York. Foram morar com alguns dos outros irmãos. Nina morava lá também, em NY, mas nunca gostou e resolveu se mandar pra sempre e ficar na Europa. Chegou há alguns meses. E não deu notícias de onde estava. Mas Maria, Alisa e Sarah procuraram a irmã até achar e, assim que acharam, vieram visitar e passar um mês com ela. Chegaram no começo de setembro. Estão hospedadas no quarto da Nina - que é simplesmente um quarto comum, num apartamento comum de Firenze, cioè, pequeno.

Nina começou a dar aulas de inglês, mas não sabe como vai fazer pra ficar morando na Europa. Pensou em se casar com um amigo gay londrino, assim ela teria cidadania inglesa e ele teria o green card, mas acho que ela já está desistindo da idéia porque a coisa não é assim tão simples. Mas para os Estados Unidos ela, definitivamente, não quer voltar. A Nina não curte muito a mãe. Não estou segura mas alguém disse que ela não conheceu o pai e que a tal mãe hippie e maluca foi embora quando ela ainda era bem pequena. Quando a gente pergunta se ela se parece com a mãe, ela faz cara de "não tenho a menor idéia" e olha para as irmãs com uma interrogação na testa. As meninas dizem yessssss, sorrindo.

As quatro sorriem o tempo inteiro, sem disfarçar a alegria de estarem juntas. Durante o dia, enquanto a Nina vai para a escola de italiano e depois dá aulas de inglês, as três ficam no apartamento... Não fazem nada o dia inteiro. Não passeiam, não se importam. Só vieram mesmo para estar com a irmã mais velha - então quando ela não está, esperam. À noite bebem, bebem, bebem e tiram quinhentas fotos fazendo careta. Estão sempre grudadas, se abraçando, se enroscando, se pegando, muito, muito juntas. Elas são meio caladas, meio misteriosas, muito simpáticas. Parecem as Virgens Suicidas e têm o "ar" da Julianne Moore em As Horas - se bem que elas sorriem e a Julianne não. Difícil achar boas comparações. São four of a kind.

Maria namora um brasileiro de Floripa que mora em NY. Alisa quase não fala, só faz pose pras fotos. Sarah é a mais bonita das quatro, não dá pra acreditar que tem 16 anos, e tem um sorriso de arrasar o quarteirão. Nina tem os olhos mais lindos.

Além de todos os irmãos, elas já têm um monte de sobrinhos. Acho que 11, ou 13, ou 17!! Me prometeram que antes de 2010 me mandam uma foto de todos juntos. A Nina me prometeu também que vai me dar o telefone da mãe, pra eu fazer uma entrevista. Mas disse pra eu me preparar porque ela vai falar duas horas sem parar e pode ser que eu não suporte ouvir. A Nina é cítrica, embora doce. E certamente eu vou adorar ouvir a mãe dela falar.

No final eu as convidei para irem ao Brasil e disse que minha casa está aberta para hospedá-las - elas, os irmãos e os sobrinhos. Disse que meu pai iria adorar recebê-las (hm?). Elas se animaram e disseram que assim que tiverem dinheiro vão. Se aparecerem, juro, vou fazer uma festona: the brothers and sister's party. Já prepare os seus.

E quanto mais irmãos, melhor. Afinal, são eles (ou nós) que estarão lá, no fim de tudo, lembrando e contando as histórias da sua vida, da sua família, dos seus pais, de todos os dias da sua vida.

SORRY
Se você é filho único, não fique triste. Pelo menos ninguém pega as suas coisas, nem quebra os seus brinquedos, nem divide seus pais, nem te bate, nem te enche, nem te controla, nem te deda, nem te... Ah, tá bom, pode ficar triste. Scusa, mas ter irmãos é o máximo!

Grazie.
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sábado, 13 de setembro de 2008

MIO AMATO MOTORINO

Uma das coisas de que mais vou sentir falta quando não estiver mais na Itália, e em Firenze, são os motorinos e suas donas. O desfile, o show, o espetáculo, os sons, a festa dos motorinos e suas "pilotas" pelas ruelas da cidade! É muito divertido. E eu amo essas motocas que preenchem Firenze de alegria!!

Eu optei pela bici porque ia ficar aqui pouco tempo, mas vou por aí todos os dias NAMORANDO COMO PAZZA os motorinos... todos os oitocentos e vinte sete tipos de vespa que a gente vê estacionadas em todos os lugares ou voando nas mãos de meninas, mulheres e senhorinhas italianas de todos os tipos, cores, credos e bolsos. As amigas se encontram, se despedem, andam em bando, em duplas, em trios, sempre em seus motorinos. Se eu morasse aqui - mas isso é certo! - eu teria uma vespinha!

A coisa é incrível: a chance de você ver duas motinhos iguais é tão tão tão pequena que em três meses eu nunca vi. Juro. Eu não vi dois motorinos iguais. Às vezes são bem parecidos, mas não são iguais. Fora que as mulheres sempre dão uma decoradinha, um toque pessoal. Tem mais velho, mais novo, caindo as pedaços, bem cuidado, azul, branco, rosa, roxo, com ou sem adesivos, fitas, enfeites, com muitas ou poucas histórias, mas cada mulher tem o SEU motorino - e o seu capacete -, todo particular. E todo interessante.

É tão incrível, que não me custa muito andar por mais de uma hora só olhando os detalhes das vespinhas estacionadas. É diversão na certa. Mais ainda quando as donas das motocas chegam e se preparam para partir... se sentam, telefonam, colocam seus capacetes, e se ajeitam com bolsas, sacolas, saias, sapatos e celulares. Ou então quando chegam, e tiram o capacete, desamassam o cabelo, arrumam a roupa, se olham no espelhinho, retocam a maquiagem, ligam para alguém enquanto giram a chave para fechar o cadeado. Tudo ao mesmo tempo. Mulher de motorino é mais multi-funcional do que nunca! (minha amiga Elisa tem uma técnica incrível de prender o celular no capacete para ir fofocando enquanto pilota, olha na foto! Parece o Pontcherello do Chips).

Mas é ainda mais interessante do que só o visual. O fato de dirigir uma motinho pra lá e pra cá dá a todas essas mulheres e meninas uma força italiana, uma autonomia que só vejo nas mulheres que andam de motorino. Uma classe diferente, um charme misterioso.

Até a minha professora de italiano anda de motoca. Eu nunca vi. Mas é uma festa imaginar essa mulher baixote de 50 anos pilotando a sua vespinha.

E são tantas e tantas pelas ruas. De todos os tamanhos e todas as idades. As mais inusitadas. Em todos os lugares. Mulher aqui só anda de motorino! E se você acha que não é legal, problema seu, porque ELAS NÃO ESTÃO NEM AÍ!
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

SUGÓI IÔSHÍ!


Eles chegam de mansinho e pimba!, te dão um presentinho. E é sempre tão significativo ganhar um presentinho japonês que eu me emociono todas as vezes. Porque não é que eles sejam como a gente, que sai abraçando e beijando, ou que façam uma festa pra te dar alguma coisa em alguma data especial. Não. Mas quando têm um carinho especial por você, eles simplesmente vêm quietinhos do seu lado, sorriem, não dizem nada, e te dão uma coisinha, segurando assim com as duas mãos e oferecendo o presente na sua direção. É quase uma cena de filme publicitário em câmera lenta. É como se eles segurassem nas mãos toda a porcelana do mundo. É delicado e silencioso. E você, também em câmera lenta, recebe aquilo - também com as duas mãos - com uma leveza repentina que às vezes você nem sabia que pudesse ter. E o presentinho japonês pousa nas suas mãos abertas como uma relíquia, como um cristal, como um coração batendo.



Esta semana ganhei duas coisinhas de comer. E que me foram dadas exatamente como todos os outros presentinhos japoneses. Há sempre a delicadeza, o silêncio, o sorriso e as duas mãos estendidas, de coração para coração. Um amor oriental. Na terça, Mina me deu um pacotinho de biscoitos de arroz com shoyu. Na quinta, Yuya me sorriu com um saquinho de salgadinhos inacreditavelmente interessantes (ou interessantinhos). Seria comum, não fosse japonês, não fosse dado como é, com todo o ritual nô, em uma sala de aula italiana, entre croatas, colombianos, venezuelanos, coreanos, brasileiros, israelenses e turcos. No meio do caos italiano, os presentinhos japoneses silenciosos parecem um sopro de Deus sobre os meus pensamentos cansados de tanta gritaria, tanta grosseria, e tanta comida pesada!

E se você nunca comeu nenhuma dessas duas "porcelanas" japonesas, vá até a liberdade e compre pra experimentar. Deve ter. O biscoitinho de arroz e shoyu (na foto lá em cima) se chama qualquer coisa como OSÊNBÊI. O salgadinho vem nesse saquinho aí, não sei o nome, mas é um mix de 11 tipos. Vale a pena. E é mais saboroso ainda se for dado por um amigo japonês, em silêncio e entre os olhinhos que sorriem tranquilos e verdadeiros.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

È TUTTO LA STESSA COSA

Sim, é tudo a mesma coisa. Muda a cultura, mudam alguns costumes, muda o nível de calor ou frio do tempo e principalmente das pessoas, mas é tudo a mesma coisa. Todas as cidades, em todos os países... uguale. Aqui eles tém uma expressão para isso: "tutto il mondo è paese".

Na Itália, por exemplo, Roma é o Rio de Janeiro ou as cidades grandes do nordeste, e Milão é São Paulo. Na Croácia, Zagreb é SP ou Milão, e toda a costa croata é o Rio e o norte do Brasil. Até no Japão é igual: Tóquio e Osaka. Nessa ordem, respectivamente. Falamos sobre isso hoje na aula e eu nunca tinha me dado conta do quanto é exata a comparação.

E Firenze é uma píccola Roma.

Roma e Firenze são caóticas, e isso eu já falei. Mas é demais, demais, demasiadamente desorganizado. Tudo desorganizado. E as pessoas demoram demais, demais, demais pra te atender, pra te entender, pra fazer qualquer coisa. Só são rápidos na grosseira e na gritaria. E a inteligência é curta, curtíssima. Já Milão, não. Milão é organizada. É eficiente. É tudo pra ontem. É tudo execelente. Mas é tudo estressante. (E é por isso também que eu estou em Firenze e não em Milão).

Firenze foi construída ao redor do Duomo, por isso é toda irregular. Foram cosntruindo as ruas de qualquer jeito. Nada é reto, nada é lógico, nada é minimamente ordenado. E como eu já tinha dito: ninguém tá nem aí. Roma é a mesma coisa.

Firenze não tem gelo. Não tem gelo pra comprar em lugar nenhum. Simplesmente isso não existe aqui. Nos restaurantes, às vezes, com sorte, te dão um pouquinho se você insistir. Nos bares, só para quando a bebida REALMENTE demanda. Nas casas dos italianos, raríssimo, raríssimo!!

Em Firenze, o pessoal trabalha de manhå, vai pra casa almoçar, descansa umas duas horas. Volta às 15h30, trabalha mais um pouquinho - e bate papo bastante - e depois vai pra casa descansar de novo. Sexta à tarde, muitos nem trabalham, já começam o findi venerdi-mezzo-giorno.

Em agosto tudo fecha porque eles vão de férias. Tem até hotel que fecha, juro!

E se alguém de Milão vai viver em Roma ou em Firenze, no começo é aquela tortura. E tem que se acostumar. Tem que reduzir a velocidade, tem que se conformar em diminuir a qualidade do trabalho - sim, porque o trabalho em Roma è "cosi". Bem assim. Bem mais ou menos. Sem grandes esforços ou grande preocupação em fazer a coisa bem feita. Nada. Pra quê? O que importa é fazer de um jeito que funcione meia-boca e ir logo pra casa ou pro restaurante ou pro bar (que fecham, alguns às 11h, alguns à miea-noite, no máximo às 2h.). Então é a velha e boa questão do "se acostumar" a mudar o ritmo entre Milão e Roma, São Paulo e Rio. Tóquio e Osaka... E em qualquer lugar do mundo.

E qualquer um para fazer essa mudança de ritmo precisa receber de Deus uma parcela a mais de paciência. Portanto as pessoas também são tutto la stessa cosa.

E eu nem sei por que escrevi tudo isso. Eu só queria dizer que Roma é o Rio e Milão é São Paulo. E Firenze, eu diria, é Recife. Com direito a Olinda ao redor da Santa Croce (isso quem disse foi meu irmão e achei que ele tem toda a razão. Eu nem tinha me dado conta, mas as ruas de paralelepípedos e cheirando a xixi só faltam ser ladeiras para transportar Firenze a Pernambuco).
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domingo, 7 de setembro de 2008

PEQUENOS MILAGRES

Primeiro foi a Ivandra, minha mestra - a melhor editora do mundo -, que veio a Firenze quando eu já estava aqui. E reservou, sem saber, exatamente o hotel onde eu ia morar. Sem saber. Juro. Com mais - muito mais - de mil opções em Firenze, ela reservou e-xa-ta-men-te o mesmo hotel. E era um hotel qualquer. Enfim. Dois milagres, de cara: minha mestra vir e escolher o mesmo hotel. Sur-re-al.

Agora, a Fafá. E só vou escrever mais quando eles forem embora. Porque Fafá e Nandão estão aqui neste fim de semana. Fazendo uma viagem para comemorar dez anos de casamento, 22 de abril de 2008, e 15 de namoro. E eles foram os meus primeiros afilhados de casamento. O presente quem ganhou fui eu. E, se você não acreditava em milagres repetidos, eles estão hospedados na mesma rua que eu. E a rua é micro. São meus vizinhos de muro. Sem saber. Juro.




sexta-feira, 5 de setembro de 2008

PESSOAS II

Muitas pessoas passam por mim em Firenze. Algumas vão sem quase serem notadas. Outras, agarro pra mim. Sobre algumas eu já falei. Sobre outras, falarei agora. Algumas já passaram e já foram embora. Outras ainda estão aqui. E todas valem a pena por alguma razão. Gente sempre vale a pena por uma ou outra razão.

ALUIZIO
Um dia cheguei no albergo onde eu morava e o italiano grosso que vem a ser o dono do lugar - e que eu pensei que fosse uma exceção entre todos esses italianos loucos e grosseiros - resolveu que eu deveria pagar o dobro do que pagava nos primeiros dois meses. Desse jeito. Do nada, out of the blue, subito. Porque setembro é assim, ele disse. Não importava se eu morava lá fazia dois meses, se já tinha levado um monte de amigos e até desconhecidos a se hospedarem lá, se eu tinha sido sempre simpática e educada e se tinha até dado presentinhos pros filhos dele. Nada importava nem para me dar a chance do diálogo. Ele resolveu que era aquilo e me comunicou. Pois eu resolvi que me mudaria de lá imediatamente e me mudei. No mesmo dia. Atravessei a rua e achei lugar no Desire. Nada podia ter sido melhor. Meu hotelzinho novo é muito mais charmoso e aconchegante, ganhei um frigobar incrível para gelar minha água nesse calor do cão, e, de quebra, ganhei o Aluizio, o amigo mais legal - e leal - da cidade. "Diz-que" ele é de Recife, mora aqui em Firenze há 13 anos, trabalha neste hotel há 10, tem me ajudado com o italiano e me faz rir todo dia - o que faz um bem danado, principalmente nos dias de saudade! Em uma semana, o Aluizio já disse algumas das expressões mais engraçadas que ouvi na vida: 1-"Baixou a piniqueira" (de penico mesmo), para quando você faz aquela faxina CAPRICHADA, passa o dia limpando a casa, o quarto, as coisas todas, faz compras no super, arruma tudo bem arrumadinho, do jeito que meu pai gosta. 2-"Vai dar a Elza", ou algo do tipo: essa ele disse quando duas meninas iam levando os copos de um bar embora, andando pela rua, como se nada estivesse acontecendo. Parece que ele conhecia uma Elza que nunca saía de casa para lugar nenhum, mas sempre pedia pros amigos levarem coisas pra ela. E o povo levava. Então "dar a Elza" é quando você sai dos lugares levando as coisas... também vale pra docinho em festa de criança e pra bem-casado: "vou levar pra Elza" (eu sempre dizia que era pra minha vó!). Mega golpe. 3-Uma das melhores, até pra mim que amo criancinhas: "meu momento Herodes", quando ele contou que não estava mais su-por-tan-do os filhos de uns amigos correndo e gritando pra lá e pra cá durante o jantar. Ele é MUITO engraçado. Simpático e gentil SEMPRE. Ainda mantém um sotaquezinho bom de pernambucano e me lembra a Margarida, claro. O Aluizio alegra minhas tardes de setembro.


STEPHANIE
Bom, a Stephanie é a minha melhor companhia. Paulistana do Itaim "básica", 19 anos, estudou no Dante, chegou em Firenze em junho e vai passar pelo menos quatro anos aqui estudando moda na universidade. A irmã dela, a Fernanda, mora aqui há mais de dez anos, é casada com um italiano e tem dois filhos fofos, o Giorgio e a Isabella - que me fazem morrer de saudade da Sofia porque falam português com sotaque, como ela. Logo que chegou a Firenze, a Stephanie começou a trabalhar num restaurante na praça do Mercato Centrale e, de cara, já surpreendeu a família inteira, que não sabia que a filha mais nova era tão esperta, disposta e capaz de trabalhar bem e se virar sozinha (filhas mais novas sempre enfrentam essa sina, eu sei bem). Um dia, logo que eu cheguei, passava lá na frente do restaurante e ela me chamou: Ciao! Ciao. Você é brasielira, né? Sou. Ficamos amigas e não nos largamos mais. Ela me traz todas as boas recordações de quando fui estudar em Boston com 17 anos, em 1992. E eu aprendo muito com ela, que é uma das pessoas mais flexíveis e bacanas que se pode encontrar. Está sempre sorrindo. Até trabalhando. Sempre tranqüilona e sorridente. Tem cabelos e dentes que brilham - e olhos verdes que brilham mais ainda! E está sempre emperequetada. De um jeito que SÓ ELA pode fazer. Se eu usasse metade dos dourados que ela usa, dos anéis, das pulseiras, dos colares, dos brincos enormes, dos vestidões estampados, da maquiagem, do rímel e do rosa nas unhas, eu seria uma árvore de natal ambulante. Mas ela fica linda, elegante, simpática e estilosa. Aparece cada dia com uma coisinha nova, um detalhe diferente e cuidadosamente escolhido. E sempre bacana e interessante. A companhia dela é sempre boa, pra tudo. A gente já tenta brigar um pouquinho de vez em quando, como irmã mais velha e irmã mais nova (como ela briga às vezes com a Fê), mas até nessas horas ela fica sorrindo - e então quem consegue brigar? Eu não consigo. Graças a Deus.


ELVANA
É albanesa. Trabalha há seis anos no Vecchio Mercato - o mesmo restaurante da Stephanie. Ela vai trabalhar sempre de motorino, mas o médico mandou ir de bike para exercitar as pernas, É hostess e eu gosto dela, mas a Stephanie começou a detestá-la. Aliás, os albaneses são absolutamente odiados em Firenze. Há milhares deles trabalhando por aqui. E são estranhos mesmo. A Elvana, entre idas e vindas, mora na Itália há 16 anos. Tem 27. E tem um filho de 6, lindo, fofo e bem inteligente: o Cristian. O pai dele é italiano, mas ela não gosta de falar nisso - provavelmente ele a traiu e foi embora com a outra. Eu acho que nenhum italiano fica, de fato, com uma albanesa - pelo menos não em Firenze. Se bem que eu já soube que o dono do restaurante trocou a esposa por uma dessas mulheres do país que começa com A (falamos assim para que eles não nos entendam. Meu Deus, somos maus!). Um dia a Elvana me convidou pra comer uma pizza com ela e com o filho, para eu conhecê-lo. Foi gentil da parte dela, mas foi tudo muito estranho. Foi, assim, um evento meio formal. Tudo muito estranho. Os não-brasieliros, juro, são todos muito estranhos. A Elvana faz faculdade de Economia - não sei pra quê porque ela não pretende trabalhar com isso - e trouxe os pais da Albania para cuidarem do filho enquanto ela trabalha. Não deve ser fácil a vida dela. Mas é impossível desenvolver uma amizade. A gente tentou. Mas realmente tem ali qualquer coisa que não vá bene. Não é preconceito: albaneses são definitivamente estranhos. Mas quando ela anda de motorino parece uma itliana como outra qualquer.


ELISA
A Elisa, sim, é uma ragazza típica, fiorentina total. Em vez de COSA, diz RÔSA. Porque os fiorentinos dizem o C com som de R. Secondo me é SERRÓNDO me. É som de RR, mas não aquele de vó. É o nosso normal, de rosa, roxo, cachorro. E eles falam tão rápido com os "RR"s no lugar dos "C"s que só Deus ajuda a entender. A Elisa fala fala fala, rápida e atropeladamente, e eu sorrio como se entendesse tudo. Mas, é duro, não entendo nem metade. E ela ainda tem a língua presa. Mas tenho vergonha de dizer pra ela que não capisco. Então vou reagindo como se entendesse tutto. Por isso ela pensa que sei muito mais sobre a vida dela do que realmente sei. Sei que tem um metro e meio de altura, uns 45 kilos e menos de 20 anos. Quando sorri, espreme os olhos e é uma das poucas italianas que tem dentes (de leite!) bonitos (falarei sobre isso em outro momento, mas os dentes desse povo são inacreditavelmente mal cuidados). Elisa trabalha no Zazá, outro restaurante ali na Piazza do Mercato. Ela sempre me ajuda a escolher o que pedir, e eu adoro - porque me tornei a pessoa mais indecisa do mundo! Um dia ela estava bem tristinha e eu inventei de perguntar por quê. Começou a chorar e me disse que o namorado tinha batido nela. Eu não podia imaginar como aquilo seria possível porque se um homem der um tapa naquela menina, ela voa longe e se quebra inteira. Mas aí ela me explicou melhor: ele me bateu com palavras e me machucou muito. Ai, foi de uma doçura que eu não sabia se ria ou chorava com ela. No outro dia, ele deixou um bilhete lindo e rosas vermelhas no motorino dela e ficou tudo bem. E isso é tudo que sei sobre a Elisa.


JESSICA
Ela também é super fiorentina. Também troca o C pelo R. Também tem 19 anos - ou 17, esqueci -, e também anda de motorino. (Motorino é a Vespa - o transporte de 90% da população fiorentina) O da Jessica é rosa. Tudo dela é meio rosa. O motorino, o capacete e as bochechas do namorado, o Nicolá. Ela trabalha no albergo onde morei em julho e agosto. Me tratava como una sorela. Me fazia café todas as manhãs e separava comida pra eu levar pra aula quando saía atrasada e não tinha tempo pra fazer colazzione. Estuda qualquer coisa ligada a hotelaria e trabalha no hotel nas férias para ir aprendendo. Mas vive reclamando do chefe - que é o tal italiano estúpido que resolveu me cobrar mais do dia pra noite. A Jessica ficou arrasada quando eu me mudei. Mas nunca apareceu pra me visitar. E é só atravessar a rua. Os italianos são assim: você até pensa que eles se apegaram a você, mas não. Eles não criam laços com estranhos. Muito estranho.


SPERANZA
Tem uns 60 anos, é uma das 927 albanesas que habitam cada quarteirão de Firenze, e limpa os quartos do meu antigo hotel. É uma figura, figura, figura. Não perde a chance de fazer a velha piada e diz que será a última a morrer. Adora receber elogios e vive repetindo que é brava, bravíssima! Desde o primeiro dia ficou cheia de amores comigo: bambina mia, mi amore, mi amica, mia Giuliana, pícola, picolina mia. Até chorou quando eu ia saindo com as malas. Mas eu vou ali pro outro lado da rua, Spressa (o nome em albanês), ainda vamos nos ver. Mas não é a mesma coisa, ela disse. E eu gostava de arrumar o quarto pra você. Ela adora se mostrar linda e jovem. Super se arruma depois de trabalhar na limpeza das stanzas o dia inteiro. E vive contando dos homens que mexem com ela quando ela passa toda arrumada pela rua. É vaidosa no nível máximo. Me mostrou dúzias de fotos do filho e da filha (que tem umas fotos de "modelo e manequim" hor-ro-ro-sas, coitada). Me pediu pra ensiná-la inglês porque o filho namora uma americana e precisa falar com a mãe dela. E com os hóspedes. Ensinei um pouco. Foi engraçado. E sobre o marido ela diz que ele era lindo, de cinema. Hoje é bem barrigudo e feio que dói. Segundo ela, devia ter dito NÃO pra ele, ficado solteira, e se tornado uma atriz famosa. "Porque, na verdade, era esse o meu destino. Mas eu escolhi errado: casei. Agora já foi. Estou aqui limpando banheiros" - e encheu os olhos de lágrimas. A vida è così, Spressa, è così - eu disse. Que que eu podia dizer? Respondo a mesma coisa pra mim, às vezes. È così, È così.


MANOLA
Minha professora do nível quatro. Não tem igual. Dá aulas nessa escola há 16 anos. Mas é laureada em russo e lá nos anos de ragazza trabalhou como intérprete para uns caras levemente perigosos. Na sexta passada ela levou a filha pra nossa aula porque não tinha com quem deixar. São italianas italianas italianas. Manola fala com as mãos, é super palhaça e cheia de caretas e interjeições. Dá até uma aula da língua dos gestos dos italianos. É de chorar de rir. O melhor dos gestos, secondo me, é passar as duas mãos como se alisasse uma barba comprida dividida em duas partes, do queixo para baixo. Duas pontas muito compridas de uma barbicha partida ao meio. Alisa bem alisada, do queijo até quase o pé, com as duas mãos ao mesmo tempo, paralelas, uma em cada parte da barba. E significa que a coisa está molto, molto, molto tediosa... INSOPORTABLE! Quando, por exemplo, alguém está te contando uma história que não acaba nunca mais, você pega e começa alisaaaar a barba, e alisa, e alisa... Além dos gestos, a Manola diz que os italianos, principalmente os maridos italianos, são as pessoas mais dramáticas da face da terra. Secondo ela, com 36,5 de febre, eles vêm se arrastando e dizendo que estão à beira da morte, com as mãos na cabeça como quem arranca os cabelos, e juram que precisam ir urgente ao hospital. E não sabem fazer nada sem a mulher. Mas o brasileiro não é assim também? E, a melhor: Manola contou que dá aulas privadas para estudantes que, às vezes, demoram tanto pra ler um texto que ela doooorme na mesa. De olho aberto pro estudante não notar!!!!


STEFANO
Meu professor do nível três. Ele é pintor. E acha Firenze uma velharia. Diz que está tudo caindo aos pedaços, que é tudo velho demais e ultrapassado. Inclusive os italianos. Detesta. Mora aqui porque sempre morou. Mas detesta. É muito tranquilão, divertido e ensina bem demais. Usa sempre adjetivos interessantes e bem pronunciados quando vai nos passar uma lição ou uma tarefa. Vejam este FANTÁSTICO exercício. Vamos fazer um STUPENDO escrito. Façam esta MARAVILHOSA leitura. Aí vai o SIMPÁTICO compiti para domani. E, entre dez palavras, diz umas quatro vezes uma das minhas expressões fiorentinas favoritas: ACCIDENTI!! - que significa NOSSA!, no sentido de Nossa Senhora mãe de Deus, Jesus, Maria, José!!!! Amo, amo, amo.


MOIRA
A Moira salvou meu primeiro mês de italiano. Ela veio substituir a primeira professora, que era uó. Tem a minha idade, exatamente. É magérrima e engraçadíssima. Mas ela não faz palhaçada, como a Manola. É engraçada por natureza. As expressões dela, que eu também adoro são MA DAI! e MAGARI! Moira é casada com um americano e eles vivem se pegando porque um fala mal do país do outro. Ele detesta morar na Itália e conviver com os italianos mal educados e ela detesta a "América" do Bush. Mas acho que se amam. Os dois dão aulas na universidade. Ela só dá aula de italiano nas férias de verão. Durante o ano ensina história da arte. Se locomove de bicicleta e um dia chegou na aula louca da vida porque roubaram a dela. Bastardos!!! Relatou como gostaria de ver esses ladrões serem assassinados e jogados no rio para todo mundo vê-los boiando pelo Arno. Adora o Brunello de Montalcino Banfi e passou a madrugada fazendo guerra de neve com o marido e os vizinhos na última vez que nevou em Firenze, depois de mil anos, em 2006, acho. Minha proff preferita.


JANETE
Ai, a Janete é um sonho. Tem 63 anos, mas parece 50. É mineira e tem a melhor risada do mundo. Já falei nela, mas quero falar de novo porque ela me deu uma lição de vida esses dias. Janete veio pra cá estudar italiano em julho, só um mês, e eu tive a sorte de cair na classe dela. Foi embora antes de julho acabar. Mas a Janete veio, principalmente, atrás das suas raízes. O avô dela é de Lucca, a cidade mais fofa da Itália. E ela até chorou na classe quando disse que tinha vindo para conhecer a cidade e que tinha sido muito emocionante ir até lá. Eu chorei junto, claro. Fui lá abraçar ela e ficamos chorando enquanto a classe aplaudia. Isso também foi emocionante! Bom, a Janete foi embora e nos falamos dia desses, pelo Skype (ela é super internética!). Sempre nos falamos. Uma das filhas dela está grávida. Já tem uma turma de netos, e vem mais um. E então outro dia fizeram exames e descobriu-se que o novo netinho nascerá com a Síndrome de Down. Na primeira vez em que conversamos ela disse que ainda estavam um pouco assustados mas que iriam ficar bem. Quando nos falamos de novo, ela foi categórica: agora estou tranqüila e feliz, já entendi que isso é uma benção de Deus. Essa criança vem para preencher a minha velhice, vai ser a minha maior companhia, o meu anjo. Aí eu chorei de novo, uai. Se o neto da Janete é especial, ela é muito mais. Não é qualquer um que pensa uma coisa linda dessas. Não é qualquer um que aos 60 anos vai estudar italiano na Itália com um bando de adolescentes chatos, que se hospeda numa casa de uma senhora italiana sem nenhum conforto e que ainda vai atrás de suas origens numa cidadezinha murada. Janete Lucchesi, de Lucca, que eu tive o prazer de conhecer em Firenze, é muito especial e me deixou mil saudades.


HELENA
Nunca falei da Helena e não sei como. Ela completava o nosso trio de julho. Helena, Janete e eu. É de Porto Alegre, mas mora há anos com o marido e os filhos em Friburgo. Tem duas meninas e um menino. Todos adolescentes. O mais novo é filho adotivo. Ela e o marido resolveram adotar uma criança quando as meninas cresceram um pouquinho. História linda e um exemplo que, se fosse seguido por só metade das famílias brasileiras com condições de criar mais um, daria esperança, oportunidade, um lar e amor para milhares de crianças sem pais espalhadas pelo nosso país. Milhares de crianças que esperam. E a Helena, por si só, não espera, faz - e é um exemplo. Convivi bastante com ela, mas demorei a saber que ela tinha enfrentado e vencido a doença cujo nome a gente não gosta de dizer. Ela tem 40 e poucos anos e acho que essa coisa aconteceu há uns três ou cinco. Ela teve de fazer todos aqueles tratamentos e tirar um seio. E está aí, firme e forte, cheia de planos pra família, cheia de energia, vindo estudar um mês sozinha na itália - para matá-los de saudade. E ainda fez o curso de culinária comigo. Anotou tudinho pra fazer pro marido e pras crianças. Ela me divertia demais nas aulas de cozinha, super despojada. "Eu não vou achar esse queijo nunca em Friburgo! Naquele lugar só tem mercadinho e olhe lá! Você vai me mandar de São Paulo pelo correio." Foi uma amigona. E rimos demais juntas, ela, Janete e eu. Eu ficava entre o sotaque gaúcho dela e o mineiro da Janete e era feliz. Fui muito feliz com elas. E aprendi um monte de lições. Se eu "envelhecer" como elas serei a pessoa mais feliz do mundo! Mas o detalhe mais interessante sobre a Helena é que ela trabalha aconselhando as pessoas sobre investimentos na Bolsa de Valores. Não, você jamais poderia pensar que esse era o trabalho dela. É veramente inusitado!

Olha, tem muita gente inusitada neste mundo!
E eu sou uma felizarda por conhecer tantas dessas gentes!
Gente é pra brilhar! (disse bem o Caetano)
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domingo, 31 de agosto de 2008

OS JAPONESES E EU

Eu não sei exatamente de onde isso vem, já disse, mas meu envolvimento com os japoneses é de alguma natureza profunda.

Talvez por que meu pai tenha trabalhado junto com alguns deles desde que nasci eu tenha criado essa afeição pelos olhinhos puxados.

Não sei mesmo. Mas é fato. E sou muito grata por isso. Porque se aprende um bocado com eles.

A CLASSE
Há muitos japoneses em Firenze. Visitando e estudando. Neste mês, metade da minha classe é nipo. Na sexta-feira passada nossa prof pediu para fazermos uma apresentação sobre o nosso país. Eu estava sozinha. Uma colombiana também. Depois, dois venezuelanos, dois croatas e os seis japas. Eles são fofos, educados, organizados e concisos. Ultra concisos. Uma aula pra mim, que falei um monte de coisa e não disse nada - e não foi porque o Brasil é gigante só, foi também porque não tenho o senso de organização oriental. E já piorei, convivendo com o caos italiano.

É verdade que ninguém sabia direito o nome do imperador do Japão - que afinal não impera nada - mas falaram do primeiro ministro, dos apartamentos minúsculos, do custo de vida alto, das famílias reduzidas e das enormes diferenças entre Tóquio e Quioto. Em Quioto, por exemplo, o maior problema da cidade não é o trânsito, a poluição ou a violência. Não. O maior problema é que não tem estacionamento suficiente para as bicicletas. Ai, Jesus. E as mulheres de Quioto são as mais frescas e peruas do Japão. Pelo que entendi, ninguém gosta delas, além dos maridos quiotenses - se é que gostam, né, porque japonês com amor é difícil (mas eles dizem que nos ûltimos anos isso vem mudando e até já se diz eu te amo - aish tê más!).

Esses japoneses da minha classe, além de serem algumas das pessoas mais gentis e sorridentes que já conheci, são muito especiais: Ken é regente de orquestra. Yuya é artista e faz animais em miniatura decorados com ilustrações minúsculas, é lindíssimo. Mina é estilista. E a minha ônedjá (irmã mais velha em japonês) Shinobu é bartender e somelier. O Haruki, que foi embora, era designer de bolsas. E a Haruka não sei o que faz, mas não deve ser nada muito comum. O que eles têm em comum é, definitivamente, a delicadeza. E o dicionário eletrônico. Todos, todos, todos os japoneses que estudam aqui têm um mini computador dicionário. É incrível. Traduz pra inglês, italiano e mais algumas línguas. E ainda tem enciclopédia e mais uma dezena de funções. TODOS têm. Só muda a cor da capinha. Os meus japoneses são melhores do que os outros.

O PIC NIC
Tá certo que eu não fiz muitos pic nics na vida, mas, entre os que fiz, este foi de longe o mais legal, o mais animado, divertido e indimenticable.
















Fui com os japas queridos no sábado. É um parque lindo que tem aqui, a 30 minutos de Firenze. A cidade se chama Pratolino. O parque tem um nome difícil que me lembra o meu perfume Davidoff. Eram 11 japoneses, um coreano e eu. Não me deixaram levar nada, e fizeram um banquete!

Shiauassê! (tô feliz!)

Talvez este pic nic não tenha sido diferente de qualquer outro. Mesmo assim, foi diferente e especial. Porque eles são especiais demais. Sempre gentis, educados, companheiros e particulares.

Itadakimás!!
A quantidade e a variedade de comida era inacreditável! Os japas sabem fazer pic nic!! Coisas preparadas, coisas compradas, receitas inventadas pra gente provar, tudo. Nem sei direito o que eu comi, mas era tudo bom.

E, fora a comida, pic nic de olho puxado é uma diversão. Eles adoram jogar volei. Eu também não sabia. Mas eles adoram. O mais divertido são os gritinhos – em japonês – durante o jogo: ôôôô, no-no-no-no, hhhaaaiii!!, ú-ú-ú, gambááátê!! Eu me jogava no chão - não pra pegar a bola, mas de rir!

Além do volei, teve o momento "jogo de desenhar" - que tem um nome em japonês, mas esqueci. Neste lugar onde fomos há uma estátua gigante, gigantesca, de um homem muito barbudo, velho, sentado de um jeito meio misterioso, olhando pra baixo, talvez pegando alguma coisa, não se sabe. Não se sabe ao certo quem ele é nem o que está fazendo. Tem gente que diz que á representação de Deus olhando com uma certa tristeza o que fizemos com o planeta… Mas pode ser o que você quiser. Bom, mas aí a brincadeira era cada um desenhar a sua versão do velhinho. E todos vêm, e participam. Meu desenho ficou um horror, mas foi engraçado.

















KampaiTintim
E então a Shinobu anuncia que é hora da “bíla”. Ela quer dizer birra, cerveja. Será aberta a sessão da bebedeira. Santo Deus, os japoneses bebem muito!! Foram comprar bila no restaurantezinho. Depois teve champagne, vinho tinto e, pra finalizar, limoncelo. Pra finalizar nada! Eu que pensei errado! Porque depois eles ainda foram para um Irish Pub e passaram a noite lá bebendo mais. É impressionante como eles bebem. E a energia não sei de onde vem.


Mensagem na garrafa
Mas o mais legal do pic nic foi a mensagem na garrafa. Parece que é uma tradição japonesa de pic nics. Todo mundo escreve numa folha alguma coisa para ser lida daqui a cinco anos. E então a gente põe a folha numa garrafa e enterra lá num lugar marcado – pra ser desenterrada por nós mesmos daqui a cinco anos. Não é brincadeira. Eles levam super a sério e foi demais fazer parte disso. Todos pensaram bastante no que escrever e escreveram com o maior cuidado. Inclusive eu. Alguns escreveram em japonês, outros em italiano. E, no final, eles foram lembrando dos amigos que não estavam no pic nic e foram pondo todo mundo no papel: Haruki dove?? Taka dove?? Yuki dove?? Depois colocamos a mensagem na garrafa, achamos o lugar para enterrá-la (dentro da árvore) e cada um jogou um pouco de terra pra tapar o buraco. Parecia filme. E entre os japas não tem nenhum chato que não participa – como normalmente entre nós, ocidentais bobos, acontece. Sempre têm aquele que acha a coisa sem graça e fica de ladinho… Acho que sou japonesa. Ou fui.











O bar e os beijos

Depois de tudo isso - do meio-dia às nove da noite no pic nic - pegamos o ônibus de volta, meia hora, chegamos. E você pensa que eles deram ciao e foram para suas casinhas? Não, não, não, Irish Pub? Irish Pub si-si-si. Eu fui junto porque era muito pertinho, mas estava morta. Chegando lá, sem cerimônia, cada um pediu um balde de bila ou de umas bebidas diferentes que eu nem conheço, e só estavam começando.

Não, eu não podia acompanhar. Me levantei pra ir embora e, como sempre, fui dar beijinhos em todos. É sempre um parto, mas eu esqueço. Dar beijinho num homem japonês é tão difícil quanto entender o que ele fala. E então eles me explicaram uma coisa muito bonita: a gente não sai beijando todo mundo porque não queremos perder o que isso significa pra nós. Quando você dá beijos em alguém porque a pessoa vai partir ou porque conquistou alguma coisa, é muito, muito, MUITO especial. Se a gente beijar sempre, não será mais. É verdade. E então eu só beijei a Eri, que vai embora. E deve ser muitíssimo especial mesmo porque enquanto eu dava os beijinhos nela, ela começou a chorar feito criança. Aí eu não quis nem saber das tradições e dei um abraço de urso na japinha fofa! Dá pra ver nos olhos como eles são obrigados a guardar tudo dentro de si. Como os beijos.

TEMAKI EXPRESS
E então, no domingo, a saga oriental continuou. Shinobu me levou pra comer Temaki na casa de uma coreana. Mas a gente que fazia o temaki, diversão de novo. Pena que no fim a coreana me fez experimentar uma coisa da cozinha típica dela que quase me matou. Era tipo acelga ou coisa que o valha com uma pimenta que deixa a malagueta no chinelinho. Arigatô, amicá. Acabou com o gostinho de camarão com cream cheese que estava me fazendo tão feliz. (rima sem querer)

Depois do Temaki, como não podia deixar de ser, Shinobu foi encontrar os mesmos japas do pic nic pra beber. Juro. Juro. Juro. Eles bebem TODOS os dias. Eu fui junto porque só vendo pra crer. E era verdade. Estavam todos lá no bar. Drinks, prosecco, vinho. E aí? Vamos pra outro bar? Ah, vão vocês. Sayonará. Má tá né!

(Na segunda-feira, chegam todos de ressaca na aula. E na terça também, e na quarta. Quando conseguem acordar... Juro. Os japoneses em Firenze são assim.)

sábado, 30 de agosto de 2008

REPARANDO BEM...

Então nem sempre eu reparo mais nas coisas, mas, de vez em quando, sim. E hoje reparei que tem um barbudo (é o Hércules!) aqui nas estátuas da Piazza della Signoria que é A-CARA do meu pai. Não é?

domingo, 24 de agosto de 2008

A GENTE SE ACOSTUMA

Todo mundo já deve ter lido aquele texto "Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.". Eu já li mil vezes. E eu sei que eu não devia, mas me acostumei com a grandiosidade de Firenze.

Na primeira vez em que passei por aqui, com a minha mãe, fiquei deslumbrada com as esculturas na Piazza della Signoria, com o Duomo gigantesco, maravilhoso, inacreditável, com as obras de arte a céu aberto espalhadas por cada rua, cada esquina, cada janela, cada parede. Eu andava devagar, olhando tudo devagar. Sempre que passava em frente a alguma dessas obrar imensas, parava pra contemplar aquelas visões. E ficava indignada como tantas pessoas podiam, principalmente à noite, simplesmente se sentar ali pra bater papo e tomar um vinho na escadaria daquela igreja que demorou mais de 200 anos pra ser construída, ou em bares ao redor de todos os monumentos que me enlouqueciam de deslumbre. Eu disse - e acho que até escrevi - que não era possível viver ali como se aquilo, daquele tamanho, nem existisse...

Pois agora lá estou eu, dias e dias, sentada na escadaria do Duomo, conversando em frente à Santa Croce, passando de bici aos pés das estátuas imensas da praça... como se nada estivesse acontecendo. Tudo aquilo está lá e eu me acostumei. Às vezes passo e nem noto. Passo lá tantas vezes que nem sempre dá tempo de olhar. E a vida é assim mesmo.

A gente se acostuma com tudo.
Para poupar a vida?
Será que não devia?
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

VENEZA, CROÁCIA, TRENS E CRACÓVIAS... ou OI??.NÃO ERA AQUI?

Tudo começou com uma sugestão inofensiva: vamos pra Veneza amanhã!!?

FOTOS DE VENEZA


A autora do convite: Aline. Paulista, fanática pelo SPFC, querida, estudando em Firenze e em viagem sem data de volta. Ela e a Luíza, outra brasileira que estuda aqui - nutricionista e futura dona de restaurante em SP -, foram responsáveis por tudo que seguiu a tal da sugestão inofensiva: um fim de semana inesperado e divertidíssimo. Oi? Não era aqui?

(É preciso registrar que elas são obcecadas por validar os bilhetes de trem - inclusive nos lugares onde não precisa e onde ninguém sabe o que vem a ser isso, como na Croácia. Mas essa história eu conto depois.)

Era véspera de Ferragosto, dia 15.08, sexta-feira, o feriado mais importante da Itália (sabe-Deus-por-quê). Eu pensava seriamente em ir a Roma encontrar o Ferdinand, que terminaria exatamente no dia 15 a peregrinação pela Toscana. Mas eu estava com muita preguiça, confesso, de voltar para aquela cidade abarrotada de turistas e com chuva.

Aí, por acaso, cruzei com a Aline na escada da escola e ela me disse que ia passar o dia, sexta-ferragosto, em Veneza. Hm. Eu havia relutado todo esse tempo para não ir sozinha pra cidade com fama de ser a mais romântica do mundo. Definitivamente eu não queria ir sozinha. Mas, então, cá estava eu em Firenze, na noite de uma quinta-feira estranha, sabendo que os próximos dias na cidade seriam vazios, tristes e solitários porque todo mundo viaja nesse feriado... Então, va bene, achei por bem mudar de idéia: andiamo a Venezia!


OI? NÃO ERA AQUI?

O trem saía às 7h. Perdemos. Porque não saía da estação principal, onde a gente estava. Sim, lembre-se disso ao viajar de trem pela Europa: mesmo se você pensar que o trem sai dali, do lugar onde você comprou o bilhete, porque ninguém te disse nada diferente disso, pergunte, e pergunte de novo, e pergunte mais uma vez pra confirmar. Ainda mais se for na Itália. Porque aqui ninguém te informa nada e, se informa, MUITAS vezes a informação está errada.

Bom, pegamos o próximo trem, uma hora depois, e a viagem já começou, digamos, divertida - e cheeeeia de emoção.

Os lugares da gente não eram exatamente juntos. Aproveitamos que algumas das nossas poltronas estavam ocupadas e fomos sentar juntas em outro canto. Obviamente as pessoas foram chegando e foi dando confusão, já que uns estavam nos lugares dos outros. Não só nós. Em todo o trem tinha gente trocada. Mas o povo ia se virando. Sem stress.

Até que uma americana histérica, ruiva, feia, chata e mal-amada, veio nos tirar do lugar dela e do marido cafona. Explicamos que a gente não queria fazer uma família com crianças se mudar do nosso lugar... se ela não podia, por favor, fazer a gentileza de procurar outras cadeiras vazias. Mas ela disse NÃO e perguntou, bem grossa, por que a gente não tirava quem estava in our places. Respondemos com o resumo do que os americanos definitivamente não são: BECAUSE WE ARE NICE. (e porque queríamos sentar juntas, oras!! o resto era lábia de brasileiro, sejamos honestas. mas a nega era chata!)

Saímos do lugar dela falando um monte de bobagem em inglês, pra ela entender o quanto estava sendo not nice. E aí, eu te pergunto: tinha lugar pra gente sentar? Claro que não. Andamos o trem inteiro sorrindo, rindo, falando, e fomos a atração da população européia e sem graça que ocupava todas as poltronas do Eurostar-Firenze-Venezia. Aliás, fomos a atração por onde passamos nas próximas 72 horas. Ser brasileira é realmente particular e diferente de tudo. Somos incrríveis!

Well, sem lugar, andamos pro restaurante, achando que lá a gente podia sentar e papear tranquilamente. Ai, ai, ai. Chegamos no vagão e não tinha onde sentar, só havia balcõezinhos para comer de pé. Ali, rindo de nós mesmas, a Luíza soltou o que veio a ser o bordão do nosso fim de semana veneziano-croata-cracovêz:
Oi?? Não era aqui??

Porque, depois de tudo, pensamos, afinal, por que a gente não se fez de besta com a americana? Todo mundo faz isso. Faz coisa errada e aí usa a desculpa de que não entende nada, fica falando a própria língua, dá de ombros, faz aquela cara de "oi?? não era aqui? hãn?? ah, no no, no falo italiano, no inglese, só portuguese. POR-TU-GUÊS". Oi?? Oi? E, nisso, a outra pessoa acaba desistindo e vai embora...

Dúzias de risadas depois, descobri que o restaurante tinha, sim, mesinhas e cadeiras, no próximo vagão. Vêm, meninas, vamos sentar ali!! Mas veio também o mocinho gorducho-garçon, pra variar com má notícia: ragazze, com mala aqui não pode. Oi? Não era aqui? A gente pensou, mas não disse. Ah, mas, moço, aconteceu isso, isso e isso. Tá bom, ragazze, então vão ali pra primeira classe e qualquer coisa eu explico pro carabinieri. Ciao, americana bobona... fica aí na sua cadeirinha. Primeira classe, vazia: quem disse que europeu é rico e chique? Enfim, ficamos lá mesmo e não aconteceu nada.

A Laura-Pausini-bilheteira passou por nós duas vezes, olhou com o típico olhar rude-grosso dos italianos, e foi embora, acho que cantando "Marco se n'è andato e non ritorna più...".

Finalmente: Veneza.


TÁ BOM, VAMOS PRA CROÁCIA!
Fomos direto pra fila dos bilhetes porque as meninas iam pra Croácia no fim do dia, passar o fim de semana, e já queriam comprar a passagem. A viagem era durante a noite toda. E eu ia comprar meu bilhete de volta pra Firenze. Quê? Adivinha o que elas me convenceram a fazer... sim, também comprei passagem pra Croácia. Se eu estava preparada? Não exatamente. Mas quem liga?

Veneza é bonita, especial e... lotada! Pelo menos em agosto, ma dai! Enquanto não choveu, conseguimos passear e olhar as coisas lindas que vão surgindo enquanto se caminha. É interessante como os lugares e as belezas surgem de repente, ao virar uma esquina ou ao sair de uma ruela ou de um beco. É tudo bem lindo. Mas não achei a cidade mais romântica do mundo. Essa eu ainda vou descobrir um dia. Não é Veneza. Pelo menos não é mais, caso tenha sido. Tem troppo gente pra ser uma cidade romântica. E o preço do passeio da gôndola limita o romantismo aos ricos.

TUDO é muito caro. Comprei só máscaras, e olhe lá! Mas tive vontade de comprar todas, todas, todas as máscaras de todas as lojas de Veneza. E pronto, dei por visto.


IO, MIO MARITO E DUE CANI
Onze e meia da noite e lá vão as três patetas pro trem com destino à Croácia. Precisa validar! Precisa validar! A Aline depois de uma taça de vinho fica realmente engraçada e obcecada por validar o bilhete do trem. Pois é, não basta comprar, precisa validar. Se você não valida, paga 5o euros de multa. E é nesse momento que entra também o "oi?? não era aqui??". Mas a gente validou, obviamente, enquanto a são-paulina gritava. E ria.

Entramos no trem e eu... sim, sou fresca. Se ser fresca é não querer viajar sete horas no último vagão, horroroso, absurdamente quente e sujo, diferente de todos os outros, numa cabine terrível, pra seis, onde se a poltrona vira cama não tem espaço mais pra se sentar, só se pode ficar deitada... sou fresca. Juro, o ó. Lá vou eu saber como se faz pra pagar 6 euros a mais e mudar pra cabininha um pouco melhor. Em vez de poltronas-sofás, camas. Só três por cabine, com porta fechada e ar condicionado. Quê? Lotado? Lotado? Lotado? Tudo lotado? Senhor Jesus Cristo, vamos lá pro porão e seja o que Deus quiser...

(no fundo, eu estava me divertindo. queria mudar de lugar, é verdade, mas não fiquei nem um pouco mal-humorada quando vi que não dava mesmo pra mudar, como ficaria tempos atrás. eu estava ótima. foi tudo bem, no fim das contas.)

Pensamos que íamos sozinhas na cabineta... Tá. Na primeira estação entraram duas mochileiras holandesas pra dormir na nossa suíte presidencial. Mandamos elas direto pros sofazinhos de cima. Coitadas, não podiam nem ficar meio levantadinhas que a cabeça entortava de bater no teto. Eram fofas. Elena e Elen, haha, 21 anos, mochilando do Marrocos até a Croácia, passando pelas capitais da Espanha, da França, da Itália e mais alguns lugares. 21 anos, veja só. As duas tinham diários e o cabelo imundo. É assim, né. Quem liga?

Aline e eu estávamos bem engraçadas e ficamos divertindo a cabine por alguns minutos, até ela capotar e dormir. Aliás, tô pra conhecer alguém que dorme com tanta facilidade. Você pisca e a nega dormiu. A Luíza, embora jurasse que tinha perdido o sono e que me faria companhia, também dormiu depois de oito minutos. Eu fiquei arrumando o cubículo, consertando as cortinihas pra tentar deixar o lugar um pouquinho mais escuro, e controlando a abertura da janela porque quando o trem andava, a janela escancarada deixava entrar um vento danado e fazia um barulho do cão. Quando o trem parava - muitas vezes! - o que era do cão era o calor. Então eu tive que abrir e fechar a madrugada toda.

Por falar em cão, não podia faltar uma bizarrice nesse trem. Lá pras duas da manhã, quando eu conseguia finalmente cochilar, depois de fazer toda a organização da suíte, mochilas e afins, alguém abre a nossa portinha de vidro, me cutuca, me desperta e me diz: "ciao, io e mio marito siamo qui in questa cabina e noi abbiamo due cani... va bene se os canes entrarem agora e deitarem aqui no chão??"!!

O QUÊ???? Dois cachorros?? Acho que eu tô sonhando. Não, não tô. Mas, moça, você não está entendendo... Olha o tamanho disso aqui! Nem tem lugar no chão porque ele está coberto com nossas mochilas, sapatos e coisas. Como vai meter dois cães aqui?? E ainda por cima, cane fede... nesse calor, imagina! Ah, e tem mais um detalhezinho: estamos aqui em CINCO! Tem só UM sofazinho sobrando... (abarrotado de coisas em cima dele). Como mesmo você e seu marido imaginam ocupar esse micro-sofá juntos????

Não, aquilo de-fi-ni-ti-va-men-te era um engano. E era. A mocinha estava na carroça errada. Isso mesmo: carroça. É vagão em italiano. E principalmente o lugar onde estávamos era, sem sombra de dúvida, uma carroça.

E então, a moça - com dentes faltando e alguns remanescentes terríveis - foi-se embora com seu marido e seus cães, e eu só sei que ela viajou em alguma outra cabine porque a vi num bar croata no dia seguinte. E esta placa num jardim de Zagreb é pra ela.


YÚLHÁNA - BRADZILHÁNA
O episódio dos canes foi surreal. Mas tentei esquecer e voltar pro meu delicioso cochilo no vagão-favela da carroça.

O soninho merecido durou menos de uma hora. Porque aí chegamos na Slovênia e lá vieram os policias para checar passaportes e caras amassadas de gente que dormia. Os policiais slovenos pareciam da máfia. Eu me senti uma bandida. Principalmente quando o poderoso chefão passou horas com meu passaporte na mão falando meu nome por um microfoninho. Yúlhána... Yúlhána... Bradzilhána. E ele só fez isso comigo. O que eu fiz? A idade? Acho que não. O sobrenome árabe, provavelmente. Só pode ser. Porque na volta aconteceu a mesma coisa. E só comigo de novo. Os passaportes das meninas, eles olhavam, carimbavam e ciao.

E a coisa se repetiu por três ou quatro vezes. O trem parava, entrava a tropa de choque, acordavam a gente sem dó, pediam os passaportes, faziam cara feia e saíam pisando firme. Até chegarmos em Zagreb, na Croácia, lá pras seis da matina - com duas horas de atraso, de tanto que o trem parou no caminho. E fazia frio, muito frio. Quem tinha blusa, meia, cachecol? Você tinha? Nós não.

Ah, e quem tinha Kunas? O dinheiro da Croácia... Você tinha? A gente também não. Faz o quê? Senta ali e espera a casa de câmbio abrir. Abre logo (duas horas de espera). Às 8h. Olha, eu sentei, e dormi. Ali mesmo, na cadeira croata, da estação croata de Zagreb, naquela manhã fria croata, com os pés brasileiros gelados e enrolados em toalhinhas de limpar a mão em restaurante japonês. Sabe? Essas. Farofa total.


CRACÓVIAS E CRACOVENCES

Trocamos Euros por Kunas - dinheiros que a Luíza e nós chamamos de Cracóvias. Sim, porque a gente conseguia lembrar da palavra Cracóvia, mas não lembrava Kuna de jeito nenhum! E o lugar também chamávamos de Cracóvia porque Croácia às vezes não vinha na cabeça. Então Cracóvias est. E cada Cracóvia gasta valia uns minutos de risada. Olha, nenhum dinheiro do mundo paga o tanto que rimos nesses dois dias.

O albergue era pertinho e bacana, mas a gente só podia entrar depois das 11h. Andamos quase felizes com a mochila nas costas e eu descobri a cidade mais silenciosa que já conheci na vida! SILENZIO. Tá certo que era cedo e que a maioria da cidade está no mar porque é feriado. Mas assim foi a cidade que conheci. Nem o Tram (bonde) faz barulho. Passa pelas ruas como quem pisa em ovos...

Mas as pessoas da Cracóvia, digo, da Croácia, é que são o grande negócio do lugar. Que gente gentil, meu Deus! Que gente gentil! Nem sempre falam inglês direito. Muitos falam italiano, pelo menos um pouco. Todos com quem cruzamos foram incrivelmente simpáticos.

E Zagreb, a capital croata, também é uma simpatia. Uma cidade cheia de surpresinhas, com construções novas, mas que conservam alguma arquitetura antiga e original, e detalhes, e desenhos, e palácios, janelas, cores. Parece um pouquinho com Budapeste, talvez. Tem qualquer momento de Praga ou de Viena. Mas está longe de ser um deslumbre. Pelo menos pra mim.

Tivemos a sorte de ter uma amiga croata passeando com a gente, a Natalja - o J se diz I. Fomos aos lugares importantes, a uma feira de antiguidades onde o mocinho que vendia livros me deu um novo testamento em croata (?), comemos comida típica, comemos bem, e muito, e fomos até a um jogo de futebol com a são paulina roxa gritando DYNAMO!.

Foi bem divertida a Croácia. Principalmente quando ficávamos fazendo comentários sobre todas as pessoas bizarras que passavam. Tem muita gente sobre quem dá gosto de falar. Além de muitos bonitões e gente estilosa, tinha uma mulherada de chorar, uns carecas tristes, uma gente da terceira idade embora fofa, santo Deus, vestidas para ir à Lua ou a alguma festa junina. E tinha a Madonna na época do primeiro vídeo-clip, o bozo de óculos e cabelos lisos, e um moço com uma calça verde tão justa que a gente quase foi perguntar se ele estava bem. Enfim, Doverdãn! (bom dia em croata) e bók bók (ciao)!


TREM-FANTASMA
E quem disse que a volta seria tranquila?
Sentada eu já sabia que seria, mas... vai vendo.

Vou resumir porque já escrevi demais. Foi mais ou menos assim: o trem vinha de Bucarest e Budapeste, estava absolutamente abarrotado de gente. Tinha gente de pé, no fundos dos vagões, nos corredores... Era qualquer coisa! Alguns estavam de pé porque foram viajar com passe e não fizeram reserva, portanto com trem cheio ficam sem lugar. Outros simplesmente porque foram expulsos das suas cabines por romenos e albaneses - as raças mais detestadas na Itália.

Nossas poltronas estavam lá. Ocupadas, mas as pessoas se levantaram pra gente sentar. A sensação é horrível. De fazer alguém levantar pra você sentar. Ainda mais porque aquela pessoa já vinha viajando naquele horror havia pelo menos cinco horas e tinha mais sete pela frente. Ah, e omelhor de tudo: estávamos no vagão onde as pessoas podiam ir ali no corredor bem do nosso lado e fumar!!! Não é inacreditável?? São só cerca de 20 lugares do lado de onde se pode fumar e NOSSAS POLTRONAS ERAM EXATAMENTE ALI.

Sim, eu pensei que estava na pegadinha do Faustão. Mas, não.

No caminho, aconteceu de tudo: mil paradas sem explicação, policiais revistando pessoas, o teto do trem, o chão, sei-lá-mais-o-quê, gente fumando escondido quando não podia, crianças pedidas, pessoas estranhíssimas e fedidíssimas... tudo! As meninas dormiram, óbvio, e um ragazzo italiano que sentou na minha frente não parou de falar um minuto. Metade eu entendia, metade não. Ele viajava com dois primos - são eles os que foram retirados da cabine e jogados ali no vagão fumante, sem lugar e sem explicação. E ainda trancaram o vagão onde eles deveriam viajar. Não tinha o que fazer. Ninguém ajudava. Eles estavam absolutamente irritados. E era aniversário do menino, coitado. Por isso que eu não soube dizer pra ele parar de falar e me deixar tentar dormir. Fiquei ouvindo. Era o mínimo que eu podia fazer. Afinal, ele pagou o dobro e estava naquele lugar horroroso. Imagina a raiva. Eu estaria louca. E ele tinha acabado de se sentar ali porque vagou a cadeira. Antes, vinha de pé de Budapeste até a Croácia. Ninguém merece. (Nem ele, que falou na minha cabeça a madrugada inteira!)

Chegando na Itália, eles fizeram um escândalo. Certo. Veio a polícia italiana, deu um jeito de abrir o vagão trancado e foi lá ver o que estava acontecendo. Voltou dizendo que o povo que estava na cabine deles tinha bilhetes, mas parecia estranho. Fariam a checagem completa em Veneza. Mas o melhor foi que esses albaneses, romenos, seja o que for, se faziam de idiotas com os policiais e diziam que não estavam entendendo... quer dizer: "oi, não era aqui?"!!

Em resumo, não preguei o olho a noite inteira: passei sete horas ouvindo frases em italiano que só entendia pela metade... sobre o Festival de música de Budapeste, sobre filmes italianos, sobre Berlusconi e sobre as Olimpíadas na China. E o moço ainda falava em dialeto de Veneza! Eu não merecia.

Enfim, tudo tudo tudo pode acontecer nos trens da Europa. Principalmente entre esses países meio "novos" na comunidade. Também acabou a luz no meio do viagem. A máfia entrou revistando olhando feio. Meu nome, como eu já disse, foi repetido dúzias de vezes no foninho da Swat. E um casal de portugueses que viajava sem lugar contou que um outro trem que pegaram se soltou da locomotiva... É, assim mesmo. O primeiro vagão, o que puxa, soltou eles no meio do nada. Não se sabe como. E eles ficaram ali, largados no nada por horas. Até que chegou outro, pegou eles e pronto. Ficou por isso mesmo. Ninguém explicou nada. Niente.

A Cróacia foi o recheio de um sanduíche com pão estranho...
Mas é interessante ter história pra contar. (Medo.)

FOTOS DE ZAGREB - CROÁCIA

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

SAUDADE QUE MATA

Neve congelante e calor escaldante são duas coisas tão opostas que, por um momento, me sinto a pessoa mais distante do mundo das pessoas que mais amo no mundo. Porque eu estou aqui sozinha no maior calor que já senti na vida e recebo uma foto dos meus irmãos e meus sobrinhos, todos juntos, encapotados na neve. É veramente uma saudade que mata. Não sei se de frio ou de calor. Mas mata.

Não sei também se a diferença entre nós é grande e oposta como neve e sol. Mas uma coisa eu sei: não importa. Porque uma certeza todos nós temos. Assim como é certo que a neve no Chile gela e o sol na Itália escalda, a gente sabe que na hora da tempestade, da seca, da tormenta, da nevasca, do furacão, do terremoto, de qualquer clima ruim, a gente sabe que um vai estar perto do outro. Seja onde for, quando for, como for. Seja o que for. Estaremos juntos. (né?)

A distância não importa. Afora a saudade que mata.

(Afora as diferenças. Porque o céu... é o mesmo.)















sábado, 9 de agosto de 2008

NINGUÉM TÁ NEM AÍ

Firenze é caótica. Acho que a Itália toda é. É tudo bagunçado, meio sujo, meio avacalhado, meio de qualquer jeito. Juro. Ninguém tá nem aí com nada. Eles só querem tirar férias e andar al mare. Um calor desgraçado, uma suadeira, ninguém tem ar condicionado, quase nenhum restaurante tem gelo pra te pôr no copo, e só às vezes tem ventilador. Mas os italianos não tão nem aí.

No começo eu não podia acreditar e não entrava de jeito nenhum nessa onda de zona total. Ficava fazendo tudo certinho. Tomava cuidado, enxugava o suor do rosto, tudo eu perguntava se podia, dava passagem pras pessoas na calçada apertada e mais um monte de coisas que agora não lembro. Mas eu era certinha, principalmente, dirigindo a minha bici: contra-mão jamais! Imediatamente pro meio-fio se vinha carro. Mil vezes com licença e obrigada no meio dos pedestres. Conduzia com calma, classe, sorrisos e direção segura. Quê? Eu vivia levando grito na cara, xingamento, vai! vai! - até empurrão levei. Basta! Hoje em dia entrei no caos e sou feliz.

Vou de bici a milhão, entro em qualquer rua, vivo na contra-mão, vou tocando - ainda delicadamente - a buzina/campainha (do século passado) enquanto passo no meio dos pedonalles, grito SCUZI! se tem alguém na frente, nem ligo se tem carro atrás querendo passar... E ELES NÃO ESTÃO NEM AÍ! Juro. Ninguém nem me nota desde que eu entrei na bagunça e virei parte dela. Ninguém está nem aí. NEM EU!! É vero que quase morro atropelada todos os dias... mas é só impressão. E nem me abala mais, nem me assusta, muito menos me ferma! Nunca vou ser atropelada de fato. Porque a bagunça já está estabilizada e é isso, sou parte dela. Vamo que vamo! (mas continuo sorrindo, e eles não entendem por quê!)

QUE DELÍCIA NÃO SER TURISTA
Andar de bici aqui é a maior aventura! E eu me sinto o máximo passando no meio dos turistas com a maior pose de "eu moro aqui e vocês não, rá, rá, rá". Afinal "EU NÃO SOU MAIS TURISTA COMO VOCÊS, seus chatos que ficam lotando tudo e enchendo a paciência"!

Eu não sou turista, que delícia! Sou parte da cidade, sou parte do caos... Pego a bike e vou indo. Sou italiana, fiorentina, avacalhada mesmo. E não tô nem aí!

Minha bicicleta é mais velha do que o David, mas é ótima!! É tudo ótimo! Fora os dois pneus que estavam podres e que eu tive que trocar - o que dobrou a bagatela de 50 euros que paguei inicialmente. O barato sai caro na Europa também. Não se iluda. Se for comprar uma bici, compre uma nova. Pelo menos não vai quebrar e depois você pode vender até pra mesma loja de onde comprou. Mas a minha bici, mesmo vecchia, me leva pra tudo quanto é lado! Feliz. Avacalhada, barulhenta, na contra-mão e feliz!

E ninguém tá nem aí mes-mo!
Principalmente este mês.
Em agosto, Firenze fecha para tirar férias.
Acho que a Itália toda fecha.
É um dos, pelo menos, cinco períodos de férias que o italiano tira no ano.
Dio mio! Dio mio! È tutti chiuso per ferie!!!!

Lavorattori, puff!
Nem aí...
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

OITO

OTTO do OTTO do OTTO
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

SONO PELLEGRINO

Ele se sentou numa mesinha bem na minha frente, no Vecchio Mercato (meu restaurante predileto em Firenze). Sentou bem de frente pra mim. Era impossível não notá-lo. Era como se ele tivesse sido colocado lá exatamente para que eu o notasse. Loiro, lindo, bronzeado, sorridente. E parecia tão, mas tão simpático que ficar olhando pra ele sem parar era inevitável. Ele estava sozinho. Era transparentemente sozinho. E incrivelmente interessante.

Então o ragazzo olhou o cardápio, escolheu a comida, pediu uma salada e um risotto num italiano super esforçado, e perguntou para a garçonete (minha amiga brasileira Stephanie) se o vinho da casa era bom. Eu, sabe-Deus-por-quê (ou porque já não podia esperar mais pra falar com ele), peguei a minha taça, "coincidentemente" cheia do vinho tinto da casa, e levei pra ele: "try it", eu disse, como quem diz "ah, você não merece estar aqui SOZINHO nesta mesa sob o sol e o céu maravilhoso de Firenze, vem ser nosso amigo...".

Ele rasgou um sorriso sem graça, ficou roxo, e então agradeceu, provou, e pediu uma garrafa. Do vinho branco. Começamos a conversar e não paramos quase nunca mais. Ele veio se sentar na nossa mesa (eu estava com a Shinôbu, minha irmã japonesa) e falou sem parar, pra nossa alegria. Porque foi uma delícia ouvir o que ele tinha a dizer - e ficar olhando pra ele enquanto ele dizia o que tinha a dizer.

Ferdinand. Austríaco. Nasceu em Salzburgo e mora em Viena. Coincidentemente de novo, as duas cidades austríacas que conheci. Ele tem 25 anos, olhos verdes, estuda International Business Administration, e gosta de andar. Gosta MESMO. Está andando há mais de 20 dias. Saiu de Viena e vai terminar a viagem em Roma, daqui a mais ou menos uma semana. Sim, é isso, ele está viajando de Viena a Roma à pé. "Sono pellegrino", ele diz, gastando duas das oito palavras que sabe dizer em italiano. Ele tem andado quilômetros debaixo desse sol escaldante. Por isso está bronzeado. E, talvez por isso também, seja tão bacana e tenha histórias tão interessantes pra contar.

Shinôbu e eu nos apaixonamos por ele. E acho que ele também se apaixonou por nós - ou pela oportunidade de falar sem parar, já que não conversava com ninguém fazia tantos dias. Disse que é tímido (é nada!) e que nunca puxa papo com ninguém em lugar nenhum (duvido!). E passou a noite inteira me agradecendo por ter começado uma conversa com ele. (Eu também passei a noite inteira ME agradecendo!).

Esta é a segunda viagem que ele faz a pé. Antes passou 30 dias andando pelo Caminho de Santiago, na Espanha. Mas disse que não fez a coisa convencional, foi por outras estradas. Ele detesta o convencional, repetiu mil vezes. Comprou, por exemplo, no meio da auto-estrada na Bologna, uma bicicleta velha de um mendigo por 30 euros. Saiu andando feliz da vida e demorou 5 km para se dar conta de que ia na direção errada. Fez meia volta, andou voltando os 5 km errados e... paf!: a bicicleta quebrou. Ele diz que olhou pro céu e disse: tá bom, Deus, entendi que é pra eu andar e não tentar dar um roubadinha fazendo um pedaço chato do caminho de bicicleta... tá bom, entendi! Largou a bicicleta quebrada quase no mesmo ponto onde a tinha comprado e saiu andando pro lado certo. "E ainda por cima eu vi que o mendigo pegou o dinheito que eu dei e comprou uma pinga!!".

Ele tem idéias bastante interessantes a respeito de um monte de coisas, mas sempre se pergunta se é tudo interessante mesmo, se tudo faz sentido, se ele não é um cara que gosta de sair andando porque nunca vai conseguir se comprometer com nada. Mas ele tem um jeito de falar que te dá vontade de sair andando junto no dia seguinte. E se comprometer com ele. (Bom, não é só por causa do jeito de falar... )

Por falar em dia seguinte, a última das várias coincidências que foram cruzando o nosso encontro aconteceu no dia seguinte, de manhã. Ele ia indo embora de Firenze, com a mochila nas costas, às nove da manhã, e eu vinha vindo de bici, a caminho da escola, e nós nos cruzamos! No meio da cidade, que tem mil e oitocentas ruazinhas, nós estávamos exatamente no mesmo lugar, no mesmo momento, e nos cruzamos - de novo. Abraço. Take care. É bastante inacreditável. Yes, it is! In the middle of the street... In the middle of life... In the middle.

IN THE MIDDLE
Ferdinand me falou muito sobre uma teoria que se repete na vida dele. Não entendi exatamente o nome da coisa, afinal ele falou em alemão. É verdade que repetiu umas oito vezes, mas eu não posso reproduzir de jeito nenhum, não tenho idéia. Mas a coisa se resume a "estar sempre no meio", nunca de um lado ou do outro, mas sempre no meio, como que estacionado, stuck in the middle of everything. Não é lá uma coisa boa na opinião dele porque é como se você não conseguisse sair desse estado de estar no meio, de nunca estar indo veramente para algum lugar... É uma sensação de estar num limbo, num movimento sempre repetido de ter qualquer coisa deixada para trás mas não chegar no que tem à frente. Não é muito fácil de explicar por escrito. Mas é bastante instigante. Existe um livro sobre isso, ele disse, de um alemão. Assim que eu descobrir como se escrevem os nomes deles - do livro e do autor - escreverei.

Por enquanto, vou pensar se eu estou stuck in the middle ou se já cheguei a algum lugar.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

BABBO

Tenho pensado muito no meu pai.
Tenho me encontrado com ele - em mim - todos os dias.

Acho que porque assim, sozinha, a gente acaba olhando com mais cuidado, com mais calma, meio que de fora, as próprias atitudes, o comportamento, o jeito de ser em cada pequeno detalhe. E o que eu vejo é o meu pai em vários dos meus momentos. Não que isso seja totalmente novo, eu sempre soube, mas está latente aqui, neste país de babbos, e mammas, e nonnas, de gente que grita demais, que conversa como se estivesse brigando, de bagunça, de calor, carente de pessoas educadas e gentis, mas de família acima de tudo.

Sou meu pai quando pergunto o nome do garçon, da garçonete, do vendedor, do caixa, do carabiniero, de todo mundo. E quando digo o nome da pessoa com um sorriso seguido de um agradecimento, de uma solicitação educada, de um elogio ou de uma brincadeira gentil.

Sou meu pai quando pago um sorvete pra algum amigo, quando peço proscciuto crudo no restaurante ou quando compro frios e queijos pra fazer um aperitivo. Sou meu pai quando encho o copo de gelo e depois de água, e quando giro o gelo no copo com um dos dedos. Sou meu pai quando chego na casa de alguém e arrumo o tapete, a mesa, a almofoda. E quando sento no sofá e ponho a almofada na barriga.

Sou meu pai até no meio da minha bagunça, quando dobro direitinho as sacolinhas de plástico acumuladas e guardo pro momento oportuno. Ou quando pego uma dessas sacolas pra fazer de lixinho ao lado da minha "mesa de escritório". E sou meu pai quando arrumo bem retinhas todas as coisinhas em cima dessa mesa (embora a minha mesa seja CHEIA de coisinhas e a dele vazia...).

Sou meu pai quando organizo e convido a classe inteira pra um almoço de confraternização, e quando faço um discurso (em italiano) falando da importância da amizade e do quanto é especial ter cruzado com cada um deles pelo caminho. Sou meu pai quando digo a um por um que eles têm uma casa no Brasil. Sou meu pai quando tempero a salada com aquela coisa gigante de moer pimenta. Também sou meu pai quando peço a nota fiscal em qualquer negócio e quando dobro ela direitinho e guardo na carteira - pra depois juntar com todas as outras, devidamente clipadas, dentro de um envelope. E sou meu pai quando faço o relatório de gastos do cartão de crédito. Sou meu pai quando pechincho e quando faço economia. E sou muito meu pai quando me sento e espero alguma amiga escolher alguma roupa na loja. Sou meu pai quando ela me pergunta se está bom e eu respondo com palavras gentis.

Sou meu pai quando compro rosas do mocinho que passa vendendo no bar (sim, aqui também há milhares deles), e quando distribuo uma rosa para cada uma das pessoas que estão comigo... homens, mulheres, crianças... Sou meu pai quando caminho devagar pelas ruas da cidade, quando pego a mão da pessoa ao lado para atravessar a rua, quando ando de mãos dadas com alguém. E definitivamente sou meu pai quando ligo o ar condicionado na máxima potência do vento e a 18 graus - ou menos!

Sou meu pai quando desdobro a pontinha das notas de dinheiro antes de guardá-las bem esticadinhas na carteira. Sou meu pai quando dou um dinheirinho pro cantor da rua ou uma gorjeta boa. Sou meu pai quando enxugo o chão do banheiro e a pia! Meu Deus, eu enxugo a pia.

E sou meu babbo, de alguma forma, quando MORRO DE SAUDADE da minha mamma. E quando sinto tanto tanto a falta dela e da opinião dela, e de rir com ela, e de lembrar das histórias antigas, e de compartilhar com ela cada coisa legal que acontece e cada pessoa que eu vejo igual a alguém que a gente conhece.

Sou meu pai também quando falo pra todo mundo sobre a família maravilhosa que eu tenho, e quando mostro fotos e mais fotos, e quando digo que, embora eu tenha vontade de ficar viajando mais tempo, acho que não vou agüentar de saudade...

(Também sou um pouco meu pai quando sou meio teimosa, cabeça dura e "bossy" - mas quando sou assim com absoluto respeito e educação. Cá entre nós, é bem verdade que isso me ajuda bastante a ter sucesso na vida. Sou meu pai quando tenho sucesso na vida. E, va bene, eu ser meu pai ajudou particularmente a minha classe inteira a trocar uma professora ruim por uma ótima e aprender a falar italiano!!! Sou meu pai quando me torno naturalmente a líder da revolução estudantil).

Ah, e sou exatamente meu pai quando penso que, embora todos acreditem que o dia dos pais seja só no próximo domingo, DIA DO PAI É TODO DIA! (E DIA DA MÃE TAMBÉM!)

Grazie Babbo, por ser uma parte tão boa de mim, tão forte, tão gentil, tão bonita. Grazie tanto.
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segunda-feira, 28 de julho de 2008

34 E UM LAMENTO BONITO

Tenho ido a concertos quase todos os dias. Acontece aqui um festival de orquestras jovens da europa e eu vivo lá assistindo, na igreja ao pé da Ponte Vecchio. Todas as noites são lindas e o momento é de silêncios e música. Mas hoje foi especial. Talvez porque eu esteja um ano mais velha e uns meses mais sensível. Talvez por nada.

Hoje foi especialmente lindo porque eu ouvi um lamento.

Era como se a música falasse comigo e eu ouvisse alguém que chora um choro brando, mas sentido, profundo. Daqueles ais de mães que sofrem. Era como se caísse uma lágrima aqui e outra ali, saídas de um cello, de um violino, de um trompete ou de um fagote - ainda que fagotes não chorem como cellos. Era um lamento doído, mas alegre de tanta beleza.

Não era exatamente saudade, embora pudesse ser. Também não era só tristeza. E de jeito nenhum era desespero. Era fundo, mas com a ternura dos sobreviventes que sofrem calados e sorriem volta e meia. Era uma dor fina e conformada. Uma dor aceita, estacionada. Tinha no som o carinho de cada músico pelo seu instrumento. E o abraço do violoncelista. Só dele. Aquele abraço que na orquestra só quem toca o cello tem. Era, sim, definitivamente um lamento de cello. A dor recebida e guardada depois de alguma luta cansada e em vão. Como o cello, sem opção, encaixado desengonçadamente entre os (a)braços do solista. A dor era solista. E não era.

Era, enfim, um lamento que só queria ser ouvido. Só ouvido. Sem esperar qualquer conforto ou qualquer recompensa. Sem esperar acolhida ou restauração - do deteriorado ou da alma partida. Era um lamento sem esperança. Mas com a felicidade das dores aceitas e superadas.

Era só isso, só um lamento solitário. E que se abria em explosão coletiva. E ecoava. Ecoava no vazio. No vazio de dentro. De dentro de algum lugar. De dentro de alguém.

(E. Elgar - Cello Concerto)

UM CÉU DE ANIVERSÁRIO
Na Itália não tem brigadeiro.
Mas tem aniversário.
Dia 27 teve o meu.
E o céu aqui é bonito todos os dias.
Portanto auguri, auguri a noi.
O que será que eu fiz em 34 anos?
Depois te conto.
Agora vou namorar o céu.
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domingo, 13 de julho de 2008

UMA TARDE NA PONTE VECCHIO

Você se senta sobre a ponte, sob o sol, e vê a vida passar. Vê as pessoas passarem. Vê o tempo, que passa na ponte. Sobre o Arno, sem ar no peito. Passa o mundo.

Você pensa no tamanho de tudo, na quantidade de gente, em como são todos diferentes mas iguais.

Casais, crianças, ragazze, ragazzi, velhos, muletas, bengalas, mãos dadas, carrinhos de neném, ninguém e todo o mundo.

Uma nuvem cobre o sol e esfria o dia. Depois passa, como toda a gente sobre a ponte. E de novo fica quente. Como na vida. A nuvem vem e vai. Esfria, esquenta, esfria, esquenta.

O importante para sentir é parar um pouco e observar a beleza de tudo. Do céu, do sol, das pessoas, da ponte, das mãos. E até da nuvem. Que passa.

De onde será que vem cada um? Para onde vai? Que importa? Cosa? Uns andam, outros param, uns correm, outros se sentam. Uns sentem, uns sorriem, outros mentem. Você olha.

Crianças fixam o olhar nos seus olhos como se tentassem dizer qualquer coisa, mas você não entende. Olha e tenta escutar, mas vê e não entende. Escuta e não entende. Como tantas conversas que passam pela ponte: você escuta e não entende. Como a vida.

Há mulheres em vestidos de todas as cores e com bolsas de todos os tamanhos. E há maridos com bolsos suficientes para as jóias das lojas sobre a ponte. Ou não. Ou nem maridos há, nem bolsos. Mas mesmo assim o sol está lá, e pode haver jóias e pode haver brilho. Magari.

As pessoas todas tiram fotos e você se pergunta por quê, pra quê. Você também tira fotos e não sabe exatamente a razão.

Como é que a gente faz pra guardar para sempre um momento, uma vista, um amor? Na foto? Você se pergunta se essas fotos não serão rasgadas ou apagadas um dia. E , se apagar a foto, apaga o momento? E você mesma se responde: não.

Você vê gente que nunca mais verá e gente que nunca mais voltará a passar por esse caminho, por essa ponte, por esse momento, aqui. Talvez nem você volte. Mas que importa? Há tantos outros lugares e tantas outras pontes e tantos outros momentos... E para quê? Quem sabe? Apenas há e você existe para ver. Talvez porque a vida seja isto: ver. Em italiano: sentire, guardare. Sente e guarda.

(Sentada aqui na ponte sinto. Muita gente e muita coisa. Il sole. Sola, sinto que as pessoas são mais importantes do que os lugares. Sinto e guardo.)

A tarde vai. A muçulmana vai, a freira vai, a anã e o anão vão. A magrela, a gorducha, as japonesas, os americanos. Algumas bicis vão. Alguns cães. Os carabinieri, as cadeiras de rodas. Todos vão. O mundo vai. Você fica.

É impressionante como não há um único momento em que não passa ninguém. Na ponte, no pensamento. Como é que a ponte descansa? Não descansa. Como a vida.

Mas o mais bonito de tudo, você sabe e sente, é que o melhor lugar do mundo é a sua casa, o seu país, a sua família, a sua gente, os seus amores. Diante do mundo, você sente. E sabe que é pra lá que vão voltar todos depois de passar pela ponte. Hoje, amanhã, depois ou um dia. A gente passa pela ponte, vai, e volta pra casa.

Tem uma mulher de burca branca com uma máquina fotográfica maior do que ela no pescoço. Não combina. Mas ela existe. Então você se dá conta de que nem tudo que existe junto combina. E nem tudo que combina existe junto. Nem na ponte, nem na vida.

Ela, de burca, me vê e tira fotos de mim. Não sei por quê, nem pra quê. Não importa. Me deixo fotografar. Talvez à espera de que alguma coisa mágica aconteça. Mas sei que nem mil fotos podem me roubar a alma ou o momento. Nem congelar um ou outro. Nem mil fotos podem me salvar se a ponte cai. Nem mil fotos podem fazer de mim a mesma pessoa todos os dias. Ou outra. E porque eu não acredito, nada acontece. E então a muçulmana vai e me leva. Para algum lugar onde nunca estive. Mas estarei. Dentro de uma máquina maior do que o coração.

Chineses, coreanos, indianos, africanos e não-identificados espalham as suas mercadorias sobre a ponte. Espalham sobre a ponte os seus sonhos e as suas preces.

Vão e vêm, como vai e vem a polícia que lhes rege os passos e as chances. Mais vão e vêm do que vendem qualquer coisa. E vendem de tudo: bolsas, óculos, relógios, esculturas, tripés, brinquedos, esperanças. Olham desconfiados, abrem e fecham sacolas, não descansam. No chão, nas costas, na ponte. Não se desligam uns dos outros. Como na vida. (?)

Que será que essa ponte liga, você tenta entender. Um lado ao outro? O bem e o mal? A alegria e a dor? O sucesso e o fracasso? O novo e o velho? O começo e o fim? A prisão e a liberdade? Ou será que a ponte separa? Tudo de tudo? Nada de nada?

Tem gente que passa pela ponte porque precisa. Outros só querem. Do que você precisa? O que você quer?

Sente. Guarda. É tudo a mesma coisa.

Então você se levanta, sob a lua, sobre a ponte, e vai.

Vai!
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sábado, 12 de julho de 2008

TOSCAS?

Fomos à opera em Verona.
Verona, de Romeo e Giulietta.
Apaixonante.

Mas aí tem lá a Casa da Giulietta. Fica lotada de turistas visitando, tirando fotos, comprando coisinhas. Tem a sacada e tudo. E uma estátua que diz que é da Capuleto e as pessoas tiram foto com a mão no peito dela (no peito mesmo, na mama, não no coração)! Hein?? Cosa????

E então eu me pergunto - e te pergunto - essa gente desavisada não sabe que a moça é obra de ficção? Que ela nunca existiu portanto não pode ter tido uma casa nem em Verona nem em lugar nenhum? Ou as pessoas sabem mas vão lá mesmo assim? Se a resposta for a segunda opção, ok, não me incomoda, é bonito até. E, afinal, a gente vai à Disney, aos estúdios da Universal... tira foto com o homem-aranha e com o Shrek, ok. Mas se a resposta for: não, eles não se dão conta e acham que a Giulietta morou mesmo ali... aí, Ah, meu Deus perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem... e dão dinheiro à toa pros safados que inventaram tudo aquilo. Tsc.

A ópera: La Tosca, na arena de Verona. Uma arena romana inacreditável. É tipo show de rock, jogo de futebol... mas com charme europeu, romano, qualcosa cosi. Primeiro, segundo, terceiro sinal. Todos batidos naquele pratão chinês. Lindo e aplaudido com urros e bravos.

Esqueço um pouco de tudo enquanto eles cantam, enquanto o dia vai indo embora e uma lua extraordinária vem surgindo no céu. O céu, o palco, a música, a platéia. Apaixonante.

ARMY
Entre as pessoas que estão comigo na ópera, Einat. Ela tem 22 anos e passou os últimos três no exército. Nasceu em Israel e lá é obrigatório servir aos 18. Homens e mulheres. Por alguma razão que eu não entendi, ela fez o treinamento básico no primeiro ano e depois teve de ficar mais dois. Acho que foi ela que escolheu a força aérea e então durante esses anos a mais se tornou instrutora de pára-quedas nos aviões de guerra. Ela veio sentada ao meu lado nas três horas de ida e mais três de volta de Verona. E me disse que, pela primeira vez na vida, descansa. De fato ela dormiu um bocado. Dormiu na ida e na volta. Mas, cá entre nós, tem todo o direito. Sente: aos cinco anos começou a treinar para ser atleta - e foi campeã de triatlo de todas as categorias até os 18, quando virou soldado do exército israelense. Não se lembra da vida sem treinar alguma coisa ou sem seguir disciplinas rígidas. É perfeccionista e exigente consigo mesma, a ponto de ter ficado muito, mas muito mal porque se atrasou um pouquinho no almoço e deixou todo mundo esperando no ônibus uns CINCO minutos. Ainda bem que me disse que está descansando. Mas, enfim, o caso é que essa menina de 22 anos ão teve (sossego) infância nem adolescência. O que será que a espera?

PARTY
Também entre nós, elas: as duas são de New York, Liz e Taylor. Isso mesmo. Liz, Taylor. Liz tem 19, Taylor vai fazer 21. Liz é morena, Taylor é loira. Se conheceram em Firenze há duas semanas mas já se dizem blood sisters. Falam pelos cotovelos, alto e sempre. Mas, apesar de tudo isso, são simpáticas e queridas - depois que você conhece melhor, porque antes eu queria matar as duas. Taylor é uma típica americana, pele branquíssima, cabelos amarelos-quase-brancos e olhos muito azuis contornados com lápis pretos. Liz é de uma beleza doce, parece a Julia Roberts, tem um pai mexicano, um piercingzinho no nariz (!) e estuda psicologia (!!). Elas poderiam protagonizar juntas uma dúzia de espetáculos da Broadway como Aída, Wicked ou West Side Story ou Chigado. Perfect phisique-de-role (?). Mas de perfeccionistas não me pareceram ter nada. E nenhuma das duas esteve no exército. Pelo contrário: têm uma vida bem adolescente e americana, cheia de friends, beers, boys and parties. O que as espera eu também não sei, mas eu espero que elas sejam felizes. I hope they're happy. E que também resolvam descansar um pouco.
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quinta-feira, 10 de julho de 2008

COMER, BEBER, VIVER

A culinária da Toscana é bem interessante. A comida é colorida, saborosa e criativa. Os vinhos Chianti Classico são bem bons e os óleos têm um monte de sabores.

Mas, de tudo que tenho nas aulas di cucina e vino - afora os odores, os pensamentos e as sensações - o melhor são as pessoas. E as palavras. Definitivamente é durante as minhas tardes que mais aprendo do italiano e da vida.

Durante a manhã tenho as aulas tradicionais: Professora, gramática, conversação, música, texto. Passado acho dificílimo. Preposição também. Mas, va bene, andiamo. No entanto é quando chega a tarde que a língua (literal e metaforicamente) tem mais graça. Primeiro, pelo caminho, com as pessoas falando na rua e os vendedores com quem puxo conversa. Depois quando chego na escola de culinária ou na degustação de vinho. Tive a sorte de só me deparar com gente legal e que sabe muito do que faz. E que nos ensina com prazer, o mesmo prazer de comer, de beber, de viver.










Aprendo a fazer salsas, pomodoros, massas, pastas picantes, cremas, tortas, zucchinis, gnochis, dolces, risotos, carni. Aprendo a provar vini e por que eles podem ser tão diferentes mesmo vindo da mesma região e usando a mesma uva. Mas aprendo, acima de tudo, a falar italiano, a conviver em harmonia e a respeitar as diferenças.

Diferentes culturas cozinham juntas e comem juntas durante as tardes de gastronomia toscana. São muitas cores e muitos costumes. Muitos cheiros e muitas lembranças. As comidas trazem à tona histórias e desejos que, compartilhados, transformam a cozinha em romance, em livro giallo, em epopéia, em filme de amor. O paladar de cada um pode ser também diferente, mas o prazer de ver, de observar, de apreciar o belo não é. E, de repente, a magia: estão todos envolvidos por um tinto delicioso, enfeitiçados por uma panela no fogo ou deslumbrados por uma sobremesa recém-saída do freezer ou do forno.

Não, não é um bando de gente na cozinha. Somos irmãos ajudando a mamma a fazer o almoço de domingo.

Ah, que prazer!

Bó!

(interjeição fiorentina que colou na minha alma e que sai da minha boca 77 vezes por dia, principalmente durante as aulas de cucina e vino, que me transbordam, e depois de provar cada taça, cada prato. mil vezes Bah! Mamma mia!)

FOTOS DAS AULAS DI CUCINA
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terça-feira, 8 de julho de 2008

GLI AMICI

O bom de estar parada em um lugar é que você começa a conseguir fazer amigos novamente. Você pensa: vou ficar aqui mais tempo então vale a pena investir na amizade. E, confesso, eu que andava com preguiça estou me lembrando de como adoro fazer amigos.

Sempre primeiro os japoneses. Tenho qualquer afinidade com eles que ainda não sei de onde vem nem como se manifesta, mas sempre nos atraímos. Quando morei em Boston, há 15 anos, foi a mesma coisa. Lá minha amigona japonesa era a Kaôru. Aqui é a Shínôbu. Deus, ela é engraçada demais. É bem japonesa, assim meio seriona, quietona, mas de repente começa a contar que bebe muuuuito vinho e depois não lembra das coisas - e demonstra como cai pra trás pra dormir, bem japonesa, com bastante recato.

Ontem Shínôbu e eu fomos convidadas pra jantar na casa da Nôa, uma israelense incrivelmente legal que está estudando italiano pra fazer faculdade de medicina aqui a partir de outubro. Ela mora com um brasileiro, amigo, o Thiago. Dividem uma casa linda - e com ar condicionado, raridade em Firenze, até nesse calor!! O namorado israelense da Nôa tá chegando pra visitar e é ma-ra-vi-lho-so!

O Thiago é de Fortaleza, fofo, querido, e cheio de planos de abrir uma pastelaria aqui. Ele fez um pastel delicioso pra gente! A idéia parece ótima porque não tem nada parecido nesta cidade. Se você quer uma coisinha pra enganar a fome, não tem muita opção, só os mesmos sanduíches, os mesmos croissants feios, ou os pedaços de pizza, claro. Mas não tem uma esfihinha, um pãozinho de queijo, um pastel... E ainda por cima vai custar 1,20, muito mais barato do que os, no mínimo, 2,50 que se gastam com um panini mezza-bucca. Enfim, pode ser que ele fique rico. E se eu ficar morando aqui, acho que tenho emprego garantido na pastelaria. Né, Thi?!

Bom, mas aí, lá na casa deles, chegou o pai da Nôa (que está aqui uns dias fazendo uma visita), um outro amigo dela, russo que mora em Israel, e dois italianos amigos deles. Tutti amici. Então falávamos português, hebraico, russo, inglês, italiano e eu brincava no japonês com a Shínôbu. Fora a mistureba de tudo porque ninguém falava bem as outras línguas fora a sua própria. Todo mundo falando ao mesmo tempo, todas os idiomas, pra tentar se entender. Va beníssimo! Nos divertimos como havia muito me mancava!

E eu pude ver de perto como os amigos italianos de fato se tratam com muita próximidade, como sempre ouvi dizer: se adoram, se amam, se pegam, se abraçam... são como os libaneses, como irmãos! É bonito de ver! Pepe e Gaetano são assim! E, não, eles não são gays!

Pra completar lindamente a noite da retomada-com-força-total do gosto-por-fazer-amigos, a Shínôbu me levou até em casa na garupa da bicicleta dela. Não, não dá pra explicar. Você imagina uma japonesa me levando (eu!) na garupa da bici pelas ruas de paralelepípedo de Firenze? E a Shínôbu não é, digamos, a pessoa mais forte do mundo. Não. Ela é japonesa do Japão! Quando desci da bici só vi ela disfarçando pra enxugar o suor. Arigatô, mi amica - eu disse. De náá-dáá, miii amiiicááá - ela respondeu. Foi belo!

IL PRANZO GIAPONESE
Daí, Shínôbu e eu resolvemos que hoje iríamos almoçar num japonês que vimos lá na rua da Nôa, a Via Ghibelina (coincidentemente a mesma onde mora a Alê, minha amiga brasileira). Va bene, domani, cibo giaponese.

Acontece que hoje de manhã na aula, eu, já totalmente tomada pelo ímpeto de fazer amigos, fui convidando a classe inteira pra ir almoçar com a gente! Ninguém nunca tínha saído junto, imagina! Mal conversávamos. Era buon giorno pra cá, um come stai pra lá e niente mai... Quando acabava a aula, ciao ci vediamo domani. O caso é que todos, um por um, foram dizendo SI, ANDIAMO!! I-na-cre-di-tá-vel! E delicioso! Foi um contágio de amizade jamais visto naquele andar! hahaha. O Haruki não podia ir porque tinha aula particular e a Ana, mexicana, tinha curso de arte. (A Nôa faltou). De resto, to-dos foram: o turco, a turca, a islandesa, as duas francesas, a brasileira, Janete, de 63, que eu adoro, minha querida djéps e eu. Mais uma brasileira queridona nossa amiga, Helena, e uma holandesa de Amsterdan legalzérrima que não sei exatamente de onde apareceu. Tutto buona gente!

E então foi o maior sucesso o nosso pranzo giaponese!! Lotamos o restaurantezinho! Chama-se Aurora, veja que adequado! E o Aurora non era vicino non, era a lontano. Mesmo assim fomos todos juntos, caminhando, super amigos. Depois do almoço então, aí foi que a amizade já virou famiglia! E o melhor, fizemos a descoberta mais importante do mundo: todos estão insatisfeitos com a professora de italiano! Todos, sem exceção desta vez, acham ela fraquíssima, desinteressada e louca pra dar a hora do intervalo e do final da aula. Os que não foram ao almoço também acham, que a gente sabe. Eu penso assim há dias e ia pedir hoje mesmo pra mudar de sala, mas achei que era chatice minha, que sou exigente e implicante. Nada! Nin-guém se conforma que ela não corrige, que ela faz cara de saco cheio... Todo mundo quer mudar! Combinamos que amanhã vamos nos revoltar. E eu, pra variar, sou a líder da revolução. Morremos de rir imaginando a Giulia na forca. Que horror. Ela não é má. É só preguiçosa e muito tanto-faz pro nosso gosto. Não sei o que vamos fazer, mas alguma coisa vamos. Tá combinadíssimo.

Pelo menos falamos italiano como nunca!
Italiano-índio, claro, mas italiano.
(Tá, e inglês, porque pra falar mal da Giulia em italiano não dava...)

Enfim, acho que a partir de amanhã eu não vou ser a única a falar na aula! Depois do almoço de hoje todo mundo se soltou! Até o turco, coitado, que não consegue juntar IL com CANE! Va bene...

(nota tardia: dois dias depois fui falar com o diretor e no dia seguinte nossa professora foi substituída. agora, em vez da Giulia temos a Moira, que é o máximo! estão todos bem felizes. principalmente eu que em um dia aprendi tudo que não entendi durante duas semanas.)

TUTTI IN PENSIONE
Importantíssimo registrar que hoje a Janete quase me matou de rir. Ela é mineira. Tem 63 anos, mas parece 50. É uma delícia de companhia e, pra mim, é uma pessoa engraçadíssima! No meio da aula, a professora preguiçosa disse pra gente imaginar como estaria nossa vida daqui a 20 anos e então cada um falou um pouquinho - bem pouquinho, bem errado, e sem ela corrigir nada, a tosca. Bom, na vez da Janete, ela disse assim, bem mineira: Io vado estare com miei fligli, molti nipoti (netos) e MIEI AMICI VÃO ESTÁ TUTTI VECCHIO IN LA PENSIONE!!! Bastou pra mim! Chorei de rir. Pode não ser engraçado aqui, mas eu CHOREI! Miei amici vão está tutti in la pensione... (mãe, você teria dado muita risada também. foi parecido com o "cê não tem um ilástiquinho?" lá de Barcelona). Ai, ri muito... Janete, grazie!

VESTÍGIOS DE PRAHA
É importante lembrar que essa coisa toda recomeçou em Praga. Digo, o retorno do meu prazer de provocar amizades e cultivá-las. Lembra da Katka, a menina-figura que trabalhava no hotel? E o Paul, o querido que me chamou de hóspede favorita ever!... Pois os dois acabaram de me mandar e-mails. Ele - que na verdade se chama Pavel Pergner - diz que espera me ver lá de novo pelo menos mais uma vez ainda este ano!! (Será um sinal, Senhor? 27 de julho?) Ela - Kateřina Zákostelská - escreve como fala, em inglês-índio e com sotaque tcheco, e é igualmente engraçada com as suas histórias peculiares. Vale a pena ler a Katka:

What is weather in Brasil?... In prague started be raining.. sometimes (when I'm in work :D ) is nice... yesterday I had horrible dream that I must work long time and when I had free time and looking forward sunshining, sunbathing and swimming, started snowing and be cold.. I'm so happy when I wake up and realize that I can be in relax because summer started no finnish :D

(Happiness started no finish...)

I BRASILIANI
Nesse meu momento você-meu-amigo-de-fé-meu-irmão-camarada não podiam faltar, por fim mas não menos importantes, os amigos brasileiros antigos e queridos que pipocam a Firenze.

Alê - Desde o dia em que cheguei tenho a Alê, minha parceira de palco, a língua de Amidálas e mulher-mamulengo, que por sorte veio estudar em Firenze quinze dias neste julho meu. Já fomos à ópera, já rimos pelas ruas, e já tentamos nos falar um milhão de vezes sem sucesso - já que a soprano não tem telefone aqui e briga a tapa pelo computador na escola dela (que não é a minha). Desencontros constantes. Mas encontros buoníssimos. Com direito a cantoria às margens do Arno e a uma companheira de casa alemã que se chama Beata e é generala. Outro dia a Alê se atrasou três minutinhos pra um comprimisso com ela, chegou se desculpando polidamente e a Beatinha se limitou a dizer, alemãmente: que é que se pode fazer?!

Pode ser que ela seja de Garmish Parten Kirstchen. Decuvriró.

Ana - Aninha era estagiária do G1 e nos conhecemos. Ela veio morar um ano em Barcelona, e agora viaja um pouco antes de voltar para o Brasil. Veio passar o fim de semana em Firenze comigo. Tivemos momentos mágicos, como os dois lindíssimos pôr-do-sol (?) que assistimos da Ponte Vecchio. Com música, e céu, e saudade...

Mestra - E porque Deus é muito meu amigo, Ele me deu minha Mestra Ivandra de presente por dois dias nesta cidade. Não vou nem comentar o fato de ela ter reservado EXATAMENTE o mesmo hotel onde eu estava morando. Sem saber, sem nenhum tipo de ligação, sem que ao menos o hotel fosse uma escolha óbvia por alguma razão. Nada disso. Absoluta coincidência. I=NA-CRE-DI-TÁ-VEL coincidência. Qual a chance disso acontecer? Uma em um trilhão. Pois aconteceu. Literalmente DIVINO. Eu me mudei de hotel antes mesmo da mestra chegar (com o Valtinho e a Natália), mas não tem problema. Já fiquei estupefata e feliz o bastante porque coincidências assim só servem pra reforçar a ligação invisível e fortíssima que existe entre algumas pessoas - como minha mestra e eu.
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quarta-feira, 2 de julho de 2008

UM CAFFÈ PER ME

Eu me sento no café de uma livraria, em Firenze, olho ao meu redor e vejo o mundo. São cinco mesinhas. Seis com a minha. Eu, brasileira, estou aqui tentando aprender italiano, passando muito calor, procurando alguém que me venda ou alugue uma bicicleta por um mês por menos de 60 euros e prestes a mudar de quarto, amanhã, para um hotel no prédio da escola – o que vai tornar minha vida mais prática e gostosa.

Em uma das outras cinco mesas, um casal de japoneses que acaba de se levantar, rindo muito, depois de conversar bastante – em japonês. Não tenho a menor idéia do que eles fazem aqui, mas ele carrega uma sacola com cara de coisa de ginástica e ela, uma bolsa que imita essas chiques e famosas.

Na outra mesa, uma japonesinha bem branca e menina estuda italiano. Vejo claramente o livro aberto na frente dela. Ela escreve e apaga, escreve e apaga. Ou não sabe nada, ou está praticando muito! Os japoneses são muito bons de vocabulário e todos eles têm um computadorzinho – do tamanho de uma calculadora – com o vocabulário em todas as línguas que existem, até Esperanto! E hoje eu descobri que na língua japonesa não existe preposição, então você imagina que, além de toda a dificuldade da pronúncia, eles ainda têm de aprender a usar antes das palavras essas “letrinhas” que variam por gênero, número, grau e mais um monte de razões que nem tem explicação. Arigatô. E eu me pergunto, mas por que será que os japoneses querem aprender italiano? Va bene. Detalhe: na bolsa da Japinha lê-se: Fauchon. Hmmmmm.

Em outra mesa, um casal muito estranho, tirado dos filmes do Almodóvar (ainda que estejamos na Itália). São italianos. Ela tem um papel na mesa e um lapis na mão, mas não escreve nada porque está muito envolvida na história que conta pra ele e as mãos vão e vêm sem parar, pra cima e pra baixo, BEM italianas.

Na mesa na minha frente, um casal que fala uma lingual impossível de entender. Quase achei que era espanhol, mas não. Agora, pensando, talvez seja catalão, mas não, não, é mais estranho. Eles têm cara de ser de Israel. Os dois usam sandálias havaianas. Ela fala sem parar e ele só escuta porque não tem opção – com uns óculos escuros presos na cabeça raspada. Agora ele começou a falar. E está se vingando dela. Nem respira.

Na última mesa, um grupinho de quarto meninas, típicas adolescentes de qualquer lugar do mundo. É o que mais se vê aqui em Firenze: grupos de adolescentes que podem ser de qualquer lugar do mundo - porque são todos iguais. Até o cantado das conversas é igual. Essas quarto aqui da mesa ao lado provavelmente são turcas. Porque fiz umas amigas turcas na escola e o jeito dessas falarem me remete ao daquelas, então…

Ve bene. Agora a livraria está mais cheia. Mas é enorme, então nem se sente. Curioso: vários cachorros com seus donos. Já contei cinco, só aqui no andar de cima. E os cachorros todos se parecem com seus donos, isso é incrível mesmo. Sempre. Passou por mim até um boxer enorme com um cara igualmente enorme. E um boxer enorme dentro da livraria passa aqui como se nada estivesse acontecendo. Até os cachorros europeus são mais civilizados? Hm. Quem disse que os italianos são mais civilizados? Eu não tenho achado, não.

Ci vediamo domani.
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terça-feira, 1 de julho de 2008

GLOBALIZAZIONE

Na minha classe de italiano:
Brasil, Japão, México, Espanha, França, Turquia, Israel e Islândia!

(o espanhol não diz sono spanhole, diz sono catalane, de barcelona. e falou pra professora que eh pra sempre falar assim dele. catalão, não espanhol. interessante)

(a cidade onde mora a menina da Islândia tem dois mil habitantes. cada vez que eu falo de São Paulo, ela arregala os olhos e desmaia.)
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segunda-feira, 30 de junho de 2008

LA VITA É BELLA!

Fechei com chave de ouro meu segundo mês de viagem. E vou de chavão mesmo porque nem sei que palavra usar pra tanta maravilha que vi! Terminar o giro em PRAGA - depois de Viena e Budapeste - foi a melhor idéia que eu já tive. ƒoi perfeito!

Mas, vejamos: Brugge era pitoresca. Londres me enlouqueceu de musicais. Amsterdam, de bici, divertidíssimo, com gente linda e descolada! Berlim é pra voltar e gostar mais, mas foi tocante. Salzburgo uma graça, apesar da EuroCopa. Viena deslumbrante, grandiosamente deslumbrante, dos palácios da Sissi às óperas e concertos. Budapeste, muito, muito, muito interessante e curiosamente jovem. E Praga, bom, Praga é aquela coisa sem definição, o meu paraíso, o meu sonho realizado (mas nunca suficiente), literalmente o sonho foi Praga. Não podia ter encerrado o mês em lugar mais lindo. Da janelinha do avião eu dei a última choradinha e jurei que volto. Talvez antes do que eu mesma imagine... porque, já pensou, passar meu aniversário em Praga? Hmmm...

Enfim, finito.
Estou em Firenze - ainda com esse sorriso de Praga - e já comecei as aulas de italiano e cucina.

Outra etapa, mesma alegria.

Calor: in-su-por-tá-vel.

Ci vediamo dopo.
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domingo, 29 de junho de 2008

O QUASE-ASSALTO CIGANO

Era minha última hora em Praga. Eu quis me despedir da praça e do relógio. Cheguei lá dez pras quatro, pra ver os bonequinhos se mexerem às quatro. Pra quem não sabe, tem um relógio famoso em Praga, nessa praça da Old Town, que faz seu showzinho de um minuto a cada hora cheia. Abrem-se umas portinhas, bonequinhos dos apóstolos aparecem, a caveirinha toca o sino e tem mais umas gentes que se mexem lá em cima. Confesso que eu não vi exatamente tudo que os bonecos do relógio fazem porque, hoje, que eu ia ver, uma cigana miserável tomou a minha atenção bem na hora. Ela tentou me roubar no meio da multidão.

Todo mundo em Praga avisa pra gente tomar cuidado com os batedores de carteira, que são esses gipsys que se espalharam pela cidade. Principalmente em lugares de grande aglomeração de gente. Eu lembrei de tomar cuidado na Ponte Carlos, mas, hoje, no relógio, nem me passou pela cabeça. Eu tava tão distraída pensando que ia embora, aproveitando os últimos minutos, que nem me dei conta de que estava no meio da maior de todas as aglomerações.

Então bateu quatro horas, o sino começou a tocar, os bonequinhos foram aparecendo, a caveirinha se requebrando, e eu lá no meio, olhando pra cima. E aí sinto alguém esbarrando demais em mim. Numa fração de segundos olho pra minha cintura e vejo a mão desta senhora quase pegando tirando minha carteira do meu bolso lateral. Segurei a mão dela na hora e comecei a gritar com ela em inglês. Ela não entendia nada, e sorria nervosamente tentando disfaçar, e apontava o relógio, e mexia a cabeça, como se quisesse me convencer de que não estava fazendo nada, só vendo o relógio dançar. Mas tão cara-de-pau!! E eu falando em inglês que ela estava tentando me roubar e que eu ia chamar a polícia. Desgraçada, ficava sorrindo e apontando pra cima. Eu já ia segurar a vecchia ladrona quando ela foi se metendo no meio da multidão. Ai, que ódio. E nem vi mais o showzinho relógio.

Conclusão: em Praga não dá pra dar bobeira. E as ladras são bem caras-de-pau! A mulher disfarçando, juro, não dava pra acreditar! Mas, preciso dizer, apesar do momento tenso, eu tive muita vontade de rir porque a cigana era a cara da Dercy Golçalves!
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sábado, 28 de junho de 2008

PESSOAS

Aqui em Praga, é incrível, no topo de todas as casas, casarões, casinhas, palácios e coisa que o valha, tem pessoas esculpidas. Hoje passei horas olhando cada uma delas. Tem de tudo. Gente feliz, triste, brava, séria, apontando os outros, cantando, dançando, tocando instrumento, segurando alguma coisa, rezando, contemplando o nada, fazendo cara de conteúdo, esperando Godot... de tudo mesmo! E então isso me fez pensar em várias pessoas que povoaram minha passagem por Praga e quero deixá-las aqui para não esquecê-las.

NOM
Se você vier a Praga, vá até a rua Rytíîská, 19 - super fácil, do lado da Praça da Cidade Velha, a rua do Divadlo (teatro) do Mozart - e procure pela Nom. Pronuncia-se Nóm. Nom é uma tailandesa pequena, sorridente, com uma risada gostosa, fofa e abençoada por Deus. Ela vai te deixar no céu por uma hora.

Eu fui lá porque meus pés estão destruídos, já que tenho andado demais, dia e noite, sem parar, querendo ver tudo deste lugar deslumbrante. E na porta do lugar dizia Thai Foot Massage. Mas o foot é só pra enganar porque é uma bela de uma massagem nos pés, nas pernas, nos braços, nas mãos, na cabeça e nos ombros. E a Nom é incrível.

Só não espere conversar muito porque o inglês dela é uma tristeza e a pronúncia nem Jesus entende. Mas ela aprendeu a falar Ti ámo e Saudadji. E ela fala bem a palavra Good. Pra tudo é Guuuud, guuuud. E antes da massagem, ela te deita cadeira e diz Guuud Night. Além dela, tem mais umas cinco tailandesazinhas nos mesmo moldes. Mas Nom é a melhor. E durante a massagem elas ficam conversando e rindo em tailandês. Sim, a risada É em tailandês, juro. E soa como música, de tão boa que a massagem é. E volte no dia seguinte. Quando fui me despedir, a Nom me abraçou muito e disse: Saudadji, DJúri. Que pessoa fofa, meu Deus.

ERIK
O guia do meu tour de bike. Metade mexicano, metade americano, como ele mesmo se define. Veio morar em Praga há quatro anos e não sabe por quê. Namora uma tcheca e durante o nosso tour pegou para ela um punhado de rosas maravilhosas que umas senhoras estavam podando de um jardim. Ele trabalha de guia e de fiscal num albergue. Não sei o que é ser fiscal num albergue. Foi ótimo e como todo latino que se preza - ele não é latino, mas é - bem , como todo latino que se preza nos ensinou, por exemplo, a ver os túmulos no bairro judeu sem pagar. Você entra numa portinha lateral pra ir ao banheiro e olha por baixo do portão. Pronto, deu por visto, podemos ir pra próxima atração. Mais prático do que o Erik, impossível. Ele era a cara do Tchelo Palma. Ou o rascunho do Jonny Depp em Piratas do Caribe.

SILVIA e RO
Qual a chance de encontrar por acaso uma amiga sua do Brasil numa rua de Praga? Pois Silvia e eu nos encontramos. Estávamos fazendo o tour de bike. Eu na minha turminha de quatro (com o Erik, mais um canadense original e um canadense que nasceu na Jordânia) e a Sílvia e uma amiga, a Ro, no tour da concorrência, numa turma de uns seis. Enquanto nossos guias trocavam farpas disfarçadas, eu só ouvi: Ju! não acredito! Nem eu. À noite fomos as três juntas à ópera ver Aida, e depois tomamos um vinho. Dona Margarida, Neide e Brenda também apareceram. Foi surreal e ótimo.

CUBANO
Não sei o nome dele. Puxou papo comigo na porta do teatro. Primeiro em inglês, depois entramos no espanhol. Ele estava fotografando e também ia assistir a Aida. Nasceu em Cuba mas foi cedo morar nos Estados Unidos. Deve estar nos 40, 50. Me contou que ganhou uma herança e agora só vive viajando e fotografando. Disse que quer voltar a Cuba, mas não sabe quando porque tem dificuldade de voltar a lugares por onde já passou. Não gosta e normalmente não volta mesmo. Só anda adiante, para lugares novos. É de se pensar.

KATKA
Olhos enormes e verdes. Tem 20 anos e trabalha aqui no hotel das 22h às 8h, durante as férias da escola. Ela é muito engraçada. Fala inglês com MUITO sotaque tcheco, eu quase não entendo. E sempre parece que ela tá nervosa porque não acha as palavras. Ela balança a cabeça e as mãos enquanto fala, quase epilética, e começa todas - eu disse TODAS - as frases com "for example...". Eu preciso me controlar porque vai dando vontade de rir e de bater nas costas dela pra ajudar a sair! Ela é quase gaga em inglês. Mas tcheco fala fácil, já ouvi. É fofa. Hoje ela me contou que teve uma discussão enorme com o namorado porque ele quer ir morar com ela e ela disse que ainda não. Imgina, namoram só há três meses! E ele gosta de reggae e ela de metal. Ah, e AMA O Senhor dos Anéis, fala nisso o tempo todo. Ainda está na escola porque tem umas matérias que não consegue aprender, tipo geografia. Segundo ela, a República Tcheca muda a cada cinco minutos então não é justo ela ter de aprender geografia! Ela quer é ouvir música e trabalhar com ecologia. E se perde em Praga todo dia - diz que as ruas são muito estreitas e parecidas, um labirinto...

LUDMILA
A Ludmila é a moça que cuida de mim no café da manhã. Não sei bem por que, mas ela se afeiçoou a mim de uma tal maneira que eu quase não consigo tomar café porque ela vem me dizer alguma coisinha de cinco em cinco minutos. É loira e tem o corte de cabelo do Chitãozinho e Xororó naquela época em que começaram a fazer sucesso. Esse mesmo, espetado meio compridinho atrás. Ai, o cabelo da Ludmila é desse jeito, mas ela é um amor, muito querida. Tadinha, eu queria avisá-la pra mudar esse corte, mas em inglês não dá pra falar com jeitinho. E ela disse pra mim que se eu quiser trocar Euros pelo dinheiro tcheco - que não decoro o nome - então ela disse que troca comigo. Porque vai viajar no fim do mês e já está juntando o the strong money, she said. Além disso, ela me ORDENOU visitar o jardim das rosas, lá no topo do morro, do lado de uma mini-torre-eiffel que Praga tem . Eu fui hoje. Lindo mesmo o jardim. Mas sabe como é, flores, uma coisa bem no estilo do cabelo da Ludmila. Ai.

RICHARD
Ele tem pouco mais de um metro e meio e é da Malásia. Nos conhecemos na estação de Budapeste. Ele foi uma das pessoas que passou comigo mais de duas horas esperando o trem para vir a Praga (sim, atrasou tudo isso). Então o Richard me fez companhia (e conhecemos rapidinho a Barb - uma americana que parece a Fafi Siqueira -, cinco suíssos loiros e estilosos e um grupinho de espanholas, tipicamente sentadas sobre as malas e conversando sem parar. E, claro, trocamos olhares e risadinhas de "pois é" com mais uma dúzia de infelizes que esperavam também). O Richard é contador e tirou dez dias de férias pra viajar, com o dinheiro contadinho. Na estação, ele me disse que eu devia ter comprado a cama no trem senão ia ser horrível viajar dez (que foram 11) horas sentada. Mais tarde eu descobri que ele tinha toda a razão e graças a Deus consegui me mudar pra uma cabininha linda e a viagem foi ótima. Não nos vimos durante o percurso porque ele estava em outro tipo de cabine e eu nem sabia onde. Mas quando chegamos a Praga, só ouvi ele me chamando lá de longe e correndo na minha direção. Julie, vamos fazer juntos aqui que vai ser mais fácil - tipo trocar dinheiro e descobrir onde pegar o Underground e o Tram (bonde). Fizemos. Mas aí não íamos pro mesmo lugar, nos despedimos e não nos vimos mais. Mas o mais interessante foi que durante a nossa conversa na espera, o Richard ficou maravilhado com o fato de eu ser jornalista. Disse que era a profissão que ele mais respeitava e admirava. Ele repetiu umas quinze vezes como era possível alguém escolher as palavras certas para escreve com pouco tudo o que se quer dizer. Deu mil exemplos e disse que, pra ele, "escrever" é um mistério. Depois ele me perguntou: afinal, quem controla o preço do petróleo? Eu disse que não sabia. Ele insistiu: ah, tenho certeza de que você sabe. Os jornalistas sabem muito mais do que a gente, mas não podem falar. Tudo bem, se você não pode falar eu respeito, mas que você sabe, você sabe. Eu não discuti. E, por fim, ele veio com a melhor de todas as perguntas: já que você é do Brasil, por favor, me fala como ê ver uma ANACONDA de perto lá na Amazônia! O que Hollywood não faz...

JANICE
A querida que conheci com os meninos na chegada em Budapeste. Nos reencontramos em Praga. Ela trabalha na Natura e é fofa até o último fio de cabelo. Estava viajando total no esquema mochilão e confirmou minha opinião sobre os riscos dos albergues: ficou em lugares ótimos, mas outros péssimos - o que acaba atrapalhando a sua vontade de ficar na cidade, por mais linda que seja.

PAUL
O rapaz que me recebeu no check-in do hotel. Primeiro tcheco com quem tive uma conversa mais longa. Foi de uma gentileza que não tem como descrever. Só pra começar bem minha estadia em Praga. É parecido com o meu primo Marcos, que morreu moço. Alto, magrelo, branquelo e bonitinho. Ele respondeu mais ou menos umas 227 perguntas que fiz sobre Praga por dia. No dia do meu check-out, simplesmente esqueci que devia desocupar o quarto às 11h. Quando me dei conta, às 13h30 e liguei pro Paul na recepção desesperada e pedindo mil desculpas, ele disse, na maior tranquilidade: don't worry. I know you are so in love with Praha you jus forget to leave. Stay until whenever you want! Don't hurry! Eu só ri, né. Porque era verdade. Eu esqueci de ir embora porque estava no mundo da lua - de Praga. Mas quando, finalmente, eu estava indo embora o Paul me disse que eu era disparado a melhor guest que ele já tinha recebido e "you MUST come back to Praha". Devido a isso, TENHO que voltar.

LUCIE E LUD
As meninas que me receberam no hotel onde eu iria ficar. Graças a elas, fui pra um hotel muito melhor, que acabaram de inaugurar. Tudo porque eu contei que era jornalista. Incrível como isso te dá poder fora do Brasil. Não paguei quase nenhum museu e tive descontos em quase todos os lugares onde devia pagar ingresso e, aqui em Pragal, me valeu esse upgrade, só pra eu conhecer esse hotel novo e - na cabeça deles - divulgar. Mas vou divulgar mesmo porque foi o máximo. Se vier a Praga, hospede-se no Embassy. Impecável. A Lud é a-cara-da-Ciba que faz teatro comigo. Só pra reforçar a teoria do tem-cinco-de-você-espalhados-pelo-mundo.
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sexta-feira, 27 de junho de 2008

MENINO JESUS DE PRAGA


Hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida. Fui ver o Menino Jesus de Praga. DIA 27. Esperei hoje, de propósito. Um mês antes do meu aniversário. Foi uma emoção diferente de todas que eu já havia sentido na vida. Não adianta me perguntar por quê, eu não sei. Mas foi. Eu senti.

Sentei ali e chorei, chorei, chorei, por horas. sem nem saber por quê. Uma emoção indescritível. Eu tentava ficar quietinha pra ninguém mexer comigo, mas não adiantava, várias boas almas vieram perguntar se eu estava bem. Eu estava. Acho.

Até minha tia Odila apareceu lá. Ela me colocou a mão no ombro e disse assim: everything is gonna be alright. Não sei como ela aprendeu a falar inglês! No céu não deve ter muito o que fazer então eles aprendem rápido. Acredite. Acredito. Era ela.

E eu consegui chegar exatamente na hora em que estavam celebrando uma pequena missa de crianças. E elas cantavam. Foi uma coisa. O menino Jesus de Praga, as crianças, minha tia adorada e eu. Obrigada.

DEUS NOS DETALHES
Eu quase desisti de tirar fotos aqui em Praga. Porque tudo é lindo. Todas as ruas, todas as cosntruções, todas a pontes, todas as vistas, todos os telhados, todas as portas e janelas. Tudo é lindo. Por favor, visite este lugar antes de morrer. E fique pelo menos uma semana. Pelo menos. E venha em Maio porque agora em Junho já acabou a temporada de concertos e é uma pena. Claro que os teatros - divadlos - também são todos lindos.

Em cada esquina tem um detalhe. Em cada casa tem uma história. A cada oito passos, a cada olhar novo para cima, para baixo, para a frente, para trás... a cada piscada há um detalhe novo. Muitas das histórias não são bonitas. Muita gente foi morta, muitos nobres foram cruéis, invejosos e assassinos. Mas o que que EU vou fazer? É tudo lindo, apesar das mortes, das invasões, das guerras. Tem um santo que virou santo depois de ter sido enforcado porque não quis contar ao rei os segredos da rainha. Ele era o confessor do casal real. O rei ordenou que ele lhe revelasse as confissões da rainha. Ele não revelou. Morreu. Muita gente diz que é lenda. Que, na verdade, ele foi enforcado por questões políticas. Mas eu quero ficar com a história da confissão.

ALMA GÓTICA
E a igreja do castelo simplesmente não existe. A igreja de São Vito. E eu não tenho mais a menor dúvida: Gótico é meu estilo favorito. Eu já sabia. Mas Viena, Budapeste e Praga me deram essa certeza absoluta. Cada vez que entro naqueles arcos góticos, a minha vida se ilumina. Sem falar nos vitrais e nas esculturas. Não dá. É bonito demais.

MALA STRANA
Meu lugar favorito. De um lado da Ponte Carlos, Cidade Velha, do outro Mala Strana. Demoro uma hora e meia pra andar um quarteirão porque cada fachada é como uma obra de arte e eu me perco apreciando. Aliás, eu me perco bastante porque é tudo cheio de ruazinhas e curvas e becos e eu vou andando e esqueço de olhar o mapa. Mas como é bom se perder em Praga!

Não entrei em nenhum museu. Nem vou entrar. Quero a cidade. Esta cidade que desejei tanto durante tantos anos e que agora é minha. Às vezes eu me sento e fico lá, esperando as turmas que vêm, e vão, e passam, e enfim me deixam a sós com a minha cidade. Com aquele pedaço, po alguns momentos. Adorando.

Isto, aliás, foi outra coisa bem importante que descobri durante esta viagem. Não adianta ir passando nos lugares com esse bando de gente junto. Você tem que ficar ali e esperar um pouco. Porque sempre vêm os momentos de intervalo entre um bando e outro e, aí sim, você entra em comunhão com o lugar. √ocê tem seus cinco ou dez minutos de profunda conexão com o lugar. Com o passado e com o futuro. Um presente.

AIDA
Assisti a Aida no Teatro Nacional de Praga.
Que mais eu vou dizer?
Minha ópera favorita na minha cidade favorita.

OS MEUS PARALELEPÍPEDOS AMARELOS
Andar por Praga é o paraíso. Poucas vezes na vida me senti tão feliz. É ainda mais bonito do que nos meus mais perfeitos sonhos sobre esse lugar. Caminho nas nuvens todos os dias. Dias de sol e eu no céu. I'm definaly defying gravity.


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quarta-feira, 25 de junho de 2008

O SONHO

cheguei em Praga.
é indescritível.
desejo este dia desde os meus 20 anos.
e estou degustando cada passo e cada olhar.
anestesiada de emoção.
eu ando na rua sorrindo, o tempo inteiro, não consigo parar de sorrir.
(até quando choro, choro sorrindo)
obrigada, menino jesus de praga.
(e senhor meu pai do brasil :)
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segunda-feira, 23 de junho de 2008

BUDAPESTE

Adorei Budapeste!
MUITO quente, é verdade. Poderia ter sido um estorvo. Mas como aqui o livro é outro (ah, meus trocadilhos), o calor foi uma delícia!

PESTE!

Está tudo em Peste.
Inclusive a incrível vista.
Porque Buda é que é bonito de ver. Com aquele castelo no alto, e igrejas pontudas, e o morro onde está o mosteiro, e a ponte. É lindo de se olhar de Peste principalmente à noite, quando a ponte e Buda estão completamente iluminadas.

E eu nem podia imaginar que BudaPeste tinha tantos, mas tantos, mas tantos teatros! E no mapa da cidade estão todos lá, indicados pela mascarazinha. Eu não poderia ter ficado mais feliz! Fui ver quase todos! Grandes, pequenos, descolados, alternativos. Nada que a gente já não saiba como é, já que em São Paulo tem tudo igual, mas duvido que você imaginava que em BudaPeste também tinha. MUITO teatro, MUITA arte, MUITA gente nas ruas fazendo música. A cidade tem um estilo delicioso e pulsa. Peste. Buda já é outra história. Buda, aliás, é uma história sobre a qual não posso falar muito porque eu não consegui chegar lá direito.

Explico-me: peguei a ponte de bici e fui passear na ilhazinha que tem no meio do Danúbio - onde não tem nada além de uma pista de cooper, um parque meia-boca, uma escola, e 20 mil piscinas, como em clubes fechados - quem não tem praia, vai de pisci. Bom, daí atravessei a ponte, deixei a bici ali, peguei o funicular e subi lá pra ver o antigo palácio húngaro dos Habsburgos (hm, aprendi tudo sobre eles!). A vista é linda mas, sinceramente, não tem nada de muito especial lá. A não ser um pedacinho do museu, no subsolo, que mostra ruínas do castelo verdadeiro, tudo gótico, bem como eu gosto. E não tinha NINGUÉM visitando lá, SÉ EU! Então foi incrível, me senti a Sissi, vagando desolada pelos subterrâneos e jardins do palácio, pensando na vida e na morte.

Ah, e tem também um restaurantezinho com um teatrinho dentro onde há cartazes incríveis e verdadeiros das estréias das opéras em Budapeste. Carmem, La Boheme, Don Giovani, mil. LINDO.

Bom, aí andei um pouquinho na rua por onde a gente sai do palácio e não achei nada. É como uma das nossas charmosas cidades do interior. Desci, peguei a bici e achei e ia conseguir vr mais um pouco. Nunca mais consegui. Simplesmente eu não achei a cidade atrás do morro. fiquei margeando o Rio, tentando entrar por todos os lados e não consegui. Não sei que que eu fiz de errado. Mas, enfim, acho que não perdi nada.

De qualquer maneira, que Buda me abençoe.

TRILHAS SAGRADAS
E quando se fica só o que te acompanha? A mim, música. Ouvir ou não ouvir muda tudo. Eu gosto dos sons das cidades, mas a música me enche de alma e de ânimo, enquanto ando e vejo. Então ouço. Meus pés estão destruídos porque de tanta música boa, eu ando e não percebo o quanto. "Se você não se distrai…".

Zélia, imbatível, caminha comigo diariamente e mantemos uma relação próxima e profunda, já que muitas vezes ela me diz o que fazer ou conduz meus sentimentos. Me faz rir, chorar, lembrar, esquecer, querer, querer mais. É música de tanta história que quase não cabe nas cidades por onde passo. E me enche de saudade de um monte de coisas que tive, de um monte de ausências e alegrias passadas. E me preenche de um pouco do que desejei ter, ou ser, ou ouvir. Música de dentro, para todos os lugares. E que guarda os meus segredos. Nos meus ouvidos.

Em Budapeste, tive que ir de Chico. Por puro capricho.

E Ivete, de barco pelo Danúbio no entardecer: "Posso te falar dos sonhos, das flores, de como a cidade mudou. Posso te falar do medo, do meu desejo, do meu amor. Posso falar da tarde que cai e aos poucos deixa ver no céu a lua que um dia eu te dei. Gosto de fechar os olhos, fugir no tempo, de me perder. Posso até perder a hora, mas sei que já passou das seis. Sei que não há no mundo quem possa te dizer que não é tua a Lua que eu te dei. Pra brilhar Por onde você for Me queira bem Durma bem Meu Amor".

LIVROS SAGRADOS
Sabia que os hotéis continuam deixando o Novo Testamento nos quartos? Nornmalmente está dentro da gaveta de alguma mesinha, então nem todo mundo nota. Mas eu noto. E acho curioso. Pensei que fosse um hábito ultrapassado, mas não. Não é de alguma forma interessante? Mas eu gostaria de saber a razão. A exata razão. Será que é o dono católico que manda? Ou a ordem vem de cima? Ou nada disso? Vou tentar descobrir.

Por puro capricho.

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sábado, 21 de junho de 2008

VIENA: A CHEGADA

Feche os olhos. Não!! Obviamente eu preciso que você leia, então só finja que seus olhos estão fechados e me siga.

Imagine um dia de sol. De muito sol, céu azul e nuvens pinceladas. Um quadro. Você chega de trem na estação de uma cidade desconhecida. A estação é linda e as pessoas todas sorriem pra você. Você pede informações sobre onde pegar o metrô e é tudo muito fácil e perto. √ocê pega um elevador espaçoso e gentil, desce, vê logo o placa do metrô que precisa pegar, ele chega em seguida, você entra e sorri pra si mesma. Fica sorrindo durante as cinco estações que passam rapidíssimas. Chega a sua e você desce. Tudo limpo e bonito. Você pega uma escada rolante para a rua.

Vai subindo e aos poucos vai vendo surgir a luz do dia. Aos poucos vai visualizando mansões, palácios enormes, construções que você só tinha visto nos filmes da Audrey Hepburn e da Romie Schinaider. Todas as cosntruções ao redor de um lugar aberto, só para pedestres, com mesinhas ao ar livre, por onde muitas pessoas bonitas passeiam entre estátuas e músicos de rua. O céu está mais azul, o sol brilha muito, tudo brilha. Você sai da escada rolante direto na rua e pára, sem saber o que fazer de tanta maravilha. Você brilha. E então, sem poder conter os lábios que se escancaram até doer, você sorri tanto que chora. Vai andando em camera lenta. Puxando a mala, olhando para cima, para os lados, para dentro de si, para tudo. Em camera lenta e com o coração disparado de felicidade.

De repente você vê, diante de uma estátua gigantesca e cheia de dourados iluminados pelo sol, um bando de gente assistindo a uma japonesa que toca Mozart num piano sobre rodinhas que ela empurrou até lá. E ela toca muito, é daquelas que sente a música e dá pulos no banquinho. É tão bonito que você simplesmente estaciona com a sua mala e fica vendo ela tocar.

Quando ela termina a música, você se vira e vê a rua do seu hotel. Sorri de novo. Vai até lá, pára na porta, olha para os lados e não acredita – é tudo deslumbrante. E você está colada aos palácios dos antigos imperadores. É grandioso num nível que você quase duvida. Na sua cabeça, uma frase se repete: Meu Deus, meu Deus, meu Deus.

Você entra no hotelzinho, vê que o lugar é uma graça, sobe para o seu quarto, senta na cama, sorri mais uma vez, e agradece por tanta beleza.

Foi assim minha chegada a Viena.


ANJOS
Depois que saí do hotel, o primeiro lugar onde entrei foi em uma igreja monumental que tem em Viena. E dá-se que a sorte me sorriu e quando coloquei os pés lá dentro, estava quase vazia, com aquele silêncio lindo de igreja e começa a tocar um órgão, mas um órgão que você não acredita no tamanho. E uma música daquelas que vão crescendo e dentro de você tudo pulsa a cada acorde mais forte... E em umas telas enormes espalhadas sobre os bancos da igreja, num pé direito descomunalmente gótico e alto, são projetados rostos de pessoas comuns... homens, mulheres, jovens, velhos, crianças, tudo. Depois eu descubro que a idéia é dizer que há anjos espalhados por aí e que eles têm assim, rostos comuns, como aqueles. Enfim, eram anjos sobre a minha cabeça. E aí a vida estava completa e eu agradeci de novo por tanta tanta tanta beleza.


LIFE IS PIC NIC
E então gentilmente nos mandaram sair da igreja porque estava fechando (dez da noite!) e fui caminhar pela cidade. A cidade, sinto dizer, tomada por futebol, e palanques, e fanáticos. Há jardins fechados e com telões enormes no meio, museus cercados, outdoors, totens e futebol por todo lado. E Coca-Cola e Adidas e merchandising até dizer pelamordedeuschega! Saco. Mas tá.

Caminhei até anoitecer. De repente um cara numa bicicleta pára na minha frente e puxa papo. Vou resumir porque acabei passando horas com ele: Robert é loiro, bem alto, magro, estiloso, tem 45 anos (mas parece 33). É holandês, mas morou uma década (antes de começar a viajar) em Paris. Há uns cinco anos viaja pela Europa num trailer, onde mora. Aluga um apartamento que tem em Amsterdam pra garantir renda fixa. E viaja por todos os cantos. Livre, como ele disse que quer ser pra sempre.

É fotógrafo, tem um notebook da apple daqueles de tela enorme, uma bicicleta mega-modernosa, o trailler dele é impecável de limpo e organizado e cheio de coisas sofisticadas, mas ele só toma banho em piscinas públicas e não paga caro pra comer nunca. Tem uma gata branca, a Mily, que não abandona o trailler por nada. É apaixonada pelo Robert. Às vezes surge um trabalho de foto, às vezes não – e parece que ele não se importa muito. Pelo menos assim me fez crer. Foi casado com uma francesa e tem uma filha de 12 anos que mora em Paris com a mãe – amigona dele. Disse que não quer namorar nem casar nunca mais. Só tem relações-relâmpago, “como a vida num trailler” , diz ele. E é gay.

O mais legal do Robert foi que, em determinado momento, quando a gente conversava, fazia e respondia perguntas um do outro, ele disse: podemos ficar em silêncio por um momento, tomando um vinho e pensando na vida. Porque mesmo que você me faça todas as perguntas e eu te dê todas as respostas, você não vai saber tudo de mim nem eu vou saber tudo de você. Então o que importa é que ficamos amigos. Por alguma razão eu escolhi você no meio da multidão, nesta noite, e nos tornamos amigos, e compartilhamos este momento. Bom ele falou em inglês e a tradução poética é livremente minha. Tá bom. Não sei se eu acho a reflexão dele tão profunda quanto ele parecia achar, mas foi bonito. E agora eu tenho um amigo que mora num trailler e viaja livre pela Europa. Ou então é um rico excêntrico que gosta de inventar histórias para brasileiras tolas.

E a frase deste subtítulo também é dele.

VIENA: A PERGUNTA

Por que eu não nasci em Viena? Queria a minha mesma família, meus amigos, minhas histórias, mas tudo em Viena. Por que a sorte é assim tão aleatória? Sim, porque se eu tivesse nascido em Viena, meus pais não achariam que teatro não era trabalho, mas hobby, e ficariam satisfeitos com a minha profissão, que seria uma atividade "rentável e bem conceituada". E eu teria estudado música, canto, arte, e hoje estaria, provavelmente, vivendo entre óperas e teatros europeus, bem feliz e contente.

Ai, mas seria tudo em alemão, né?
Bom, mas já que o desejo é meu eu posso querer que fosse a MINHA família, os MEUS amigos, as minhas mesmas coisas e a MINHA língua. Em alemão não ia dar.
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VIENA: A CABEÇA

Não vou falar muito porque, como já dizia o lambe-lambe, uma imagem fala mais que mil palavras. Só é importante registrar que eu paguei bem caro por esse lugar ótimo para assistir à Filarmônica de Viena. E vale registrar também que eu sou uma das pessoas mais sortudas do mundo no quesito quem-vai-sentar-bem-na-sua-frente-na-platéia.



















LANG LANG
Já sei que eu devo ser ignorante. Mas não vou mentir: eu não tinha a menor idéia do que vinha a ser Lang Lang. Você tem? Se tem, que bom, mas não precisa pensar "pelo amor de Deus Juliana, como você não sabia?!" Poxa, eu não sabia, ué. Quando li Lang Lang no cartaz que anunciava a Filarmônica, eu não tinha a mais vaga idéia de que Lang Lang era uma pessoa. Muito menos um pianista chinês extraordinário que deve ser atualmente um dos melhores - se não o melhor - do mundo. E eu também jamais poderia imaginar que Lang Lang me faria chorar tocando Chopin com a Filarmônica de Viena. É lindo ver ele tocar. Indescritível.

Consegui uma frestinha na cabeleira branca da amável senhora vienense que me bloqueou a visão pra ver o Lang Lang bem de perto com o meu binoclinho. Já o Zubim Meta, que tava bem no meio do palco, esse fica pra próxima... só vi um bracinho, eventualmente, depontando aqui e ali.

E o Lang Lang, ainda por cima, é garoto-propaganda da Mont Blanc. Descobri no dia seguinte, numa vitrine do lado do meu hotel por onde eu já tinha passado mil vezes.

Incrível como tem coisas que estão na nossa cara e a gente não nota.
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VIENA: O BANQUETE CULTURAL

Uma operetta, uma ópera, um concerto da Filarmônica com Zubin Meta, Chopin no piano de Lang Lang, dois castelos, jardins imperiais, um quarteirão de museus, um pedaço do Rio Danúbio, ruas e alamedas deslumbrantes e, de sobremesa, um parque de diversões divertidíssimo.

Pensei que não veria um lugar mais lindo e impactante do que Firenze.
Vi... ena.

Aliás, esse lado dá de dez no lado de lá.
Não fosse pela lingua, eu ficava por aqui…
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quarta-feira, 18 de junho de 2008

I-AM-HAPPY-IN-VIENA

Cheguei em Viena num dia se sol deslumbrante e estou muito feliz.
É o lugar mais lindo que já vi.
É O LUGAR MAIS LINDO QUE JÁ VI!
Mas não é isso que vou escrever.
Só quis compartilhar logo esse momento de felicidade.
Depois edito. Dito.
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NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA COPA

Eu não vou reclamar. Não posso reclamar. Porque, afinal, Salzburgo é linda e eu tive muita alegria aqui. Mas, sério, será que eu poderíííía ter sido mêêêênos certeira com essa droga de EuroCopa? Consegui estar neste lugar na véspera e no dia de um jogo super importante e o último sediado na cidade. O mun-do veio assistir. E está tudo em função disso. Grata. Este ano é simplesmente a PRIMEIRA vez na história que a Áustria sedia os jogos da EuroCopa (junto com a Suíça). Quer dizer, esta foi a ÚNICA véspera e este foi o ÚNICO dia dessa loucura de futebol aqui. E foi exatamente o dia que eu escolhi para estar nesta cidade que deveria ser tranqüila. Ai, que alegria. Até a mocinha da informação turística disse que estava muito confusa porque nunca tinha visto a cidade daquele jeito. Mas eu não-vou-reclamar. Tô feliz, juro.

O caso é que essa droga de jogo me atrapalhou de verdade: a Casa do Mozart estava fechada e um teatro lindo de marionettes que eu ia assistir no Salzburger Marionneten Theater foi cancelado. Mas o que que tem a ver uma coisa com a outra? A senhorinha da bilheteria do teatro também não sabia explicar e disse que estava very sad for me. Ah, obrigada. A peça, ainda por cima, era a coisa que eu mais queria ouvir em Salzburgo – adivinha! – The Sound of Music. Mas-eu-não-vou-reclamar. É só um desabafozinho. Não dá pra não estar feliz neste lugar!

Isso pra não dizer que tomei café da manhã ouvindo espanhol de um lado e grego do outro. Desgraçados como são barulhentos! Os grupos de gregos pelas ruas parecem as turmas dos meninos do Monte Líbano, meu irmão e os amigos, o Toninho e os primos, esse estilo – e tem uns lindões. E os espanhóis estão mais pros Mauricinhos que estudavam comigo no Santo Américo. Toda essa gente me atrapalhando em Salzburgo (não estou reclamando). Austríaco mesmo devo ter visto um só, o que estava aqui no trem comigo, a caminho de Viena para uma entrevista de trabalho.

Aliás, vale registrar - porque a vida é curta: ontem à noite um grego me pediu em casamento e um espanhol me deu um buquê de flores de plástico. Menos mal, porque as flores de plástico não morrem.
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terça-feira, 17 de junho de 2008

A ÁUSTRIA, A MÚSICA, O FUTEBOL

Estou em Salzburgo. A cidade é linda. Fui a um jantar com concerto de câmara de µozart. Poderia contar mil detalhes sobre como fui bem tratada quando mostrei minha carteira de jornalista ou sobre os japoneses e o russo que sentaram na minha mesa, mas depois. Primeiro preciso falar de novo do futebol.

Gente, essa EuroCopa é surreal. Hoje, em plena terça-feira, às onze horas da noite, duas praças com telões gigantes nesta micro-cidade austríaca estavam lotadas de gente assistindo aos jogos. E, veja, a Áustria nem estava jogando! Era Holanda contra sei-lá-quem e França contra Romênia. E aí, pior, no meio das pessoas não tinha só gente desses quatro países, tinha italianos e espanhóis aos montes, todos devidamente vestidos com as cores do time e enrolados em bandeiras, as caras pintadas, coisas, torcidas... falta-de-afazares. Mesmo sem ser o jogo deles, todos lá, no meio da semana. Ah, e tudo era transmitido da praça ao vivo pela tv, com um apresentador e tudo. Ele não cansou de falar do orgulho de Salzburgo por sediar jogos da EuroCopa.

Pois é, amanhã tem jogo aqui. Espanha contra Grécia. Então tem duzentos mil grupos de espanhóis e de gregos pela cidade, digo, a micro-cidade. Isto significa que eles estão na minha janela. Quase. E o time de futebol da Espanha está hospedado no hotel aqui ao lado... com fãs, repórteres, polícias, todo mundo fazendo plantão aqui na frente. E eu que pensei que vinha para uma cidadezinha tranqüila, ouvir música tranqüila. Tá. Dó, um dia, um lindo dia.

MOZART, CROCODILO, CAMALEÃO
Ai, foi engraçado. Li em algum lugar que tinha um jantar-concerto de Mozart no restaurante St. Peters. Dado que não havia nada mais a se fazer nesta noite a não ser assistir ao futebol na praça ou em algum bar, lá fui eu dar uma olhadinha no St. Peters. Bonito. Mas a coisa era cara. Pensei com meus bolsos se queria gastar tanto com um jantar e música de câmara de Mozart. Sim. Mas, muito esperta, lembrei de perguntar se jornalista tinha algum desconto especial. Bendita hora que fiz esse press card! Eles passaram a me tratar como se eu fosse a Angelina Jolie. Juro. Paguei metade, ganhei um cd, o melhor lugar, e muitos sorrisos. Só na Europa mesmo. Eles me perguntaram se eu ia escrever alguma coisa em algum lugar. Claaaaaaro, eu disse. Vou escrever no principal guia do Brasil. Ai, Deus me perdoa porque eu tinha que manter a pose.

Bom, na mesa em que o gentil hostess me colocou, a primeirona, três japas e um russo. Um dos japoneses, um menino, mora em Viena porque canta ópera e veio procurar trabalho na Alemanha. Ele canta Mozart num coral lá em Viena. Os outros dois japs, um casal mais velho e super sorridente, que eu pensei que eram os pais do menino. Quando eu disse "your parents" o casal ficou rindo uma semana com a mãozinha na frente da boca, sabe?! Muito fofos. E o russo, bom, não sei nada dele porque em inglês ele só soube me falar BRASIL - FUTBOL!

Claro que eu puxei papo com todos e a nossa conversa foi hilária. Até que os japas se viravam, mas naquele inglês vély béd. E o russo mexia as mãos, haha, procurando as palavras - que ele não achou nunca, tadinho. Mas tiramos até fotos juntos pra ele levar pra Rússia. E no fim ele conseguiu dizer Welcome to Russia! Falei que eu ia! Duvido que ele entendeu.

O casal de japas adorou que eu falei minhas-mega-três-frases em japonês. Watachiuá Juriana Dês. Dôitáchmáchtê, dosoiorochkô, onegaishmás. Ai, como eles sorriram! E me contaram que já foram ao Brasil fazer um tour na Amazônia e no Rio. Na Amazônia adoraram porque viram crocodilo e camaleão! Imagina! Duvido que você já foi pra Amazônia e viu um camaleão. Pois o senhor japa viu. E o irmão da mulher trabalha no alto escalão da Nikon - porque quando tirei minha máquina eles só faltaram comemorar e disseram que her brother que fez. Eu respondi: so I gave a looooot of money to him. Eles riram de novo com a mãozinha na frente da boca. Ai, dá vontade de apertar as bochechas deles!! E o japa só não se conforma porque viu crocodilo e camaleão mas não conseguiu ir a um jogo de futebol no Brasil! Ficou arrasado e vibra quando diz que um dia ainda vai. Se ele soubesse que corre risco de morrer no estádio... Mas nem contei. Deixa ele ser feliz.

E foi isso. A música foi bonita, a comida foi ótima e eu fiquei feliz por ouvir Mozart em Salzburgo. Pelo menos isso. Amanhã já vou embora e não vai dar pra fazer muito mais. Mas Viena me aguarda. Espero que com orquestras e óperas.
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BERLIM DE NOVO

Deixei Berlim com a sensação de que tenho que voltar lá um dia. Porque eu só consegui sentir as dores da Guerra e do monstro nazista, e já sei que a cidade não é só isso. Pelo contrário. Ontem meu amigo Luis quase me convenceu a ficar mais um pouco. Não exatamente ele, mas a Soninha – é, a vereadora – , com quem ele trabalha e que ama Berlim. Ela me disse assim, depois de gritar pra eu não ir embora ainda: “a primeira vez que estive em Berlim detestei, mas depois me apaixonei. Me apaixonei pra casar!”. Recebida esta informação, levando-se em conta que eu normalmente quando me apaixono é pra casar, e ainda mais isso dito por uma pessoa que admiro tanto, a Soninha, deixo Berlim guardada e guardo a vontade de uma segunda chance com ela – pra mim, claro.

Importa dizer que não é que eu não gostei da cidade. Eu gostei de algum jeito - até fiquei quietinha no muro, olha aí! Mas teve essa estranheza muito incômoda e sufocante. E a coisa da dor, do sofrimento que me tomou. Também, eu sei, eu fiz os programas errados, nas horas erradas. E o domingo, a EuroCopa, os turcos – um pouco da lingua - e a solidão não ajudaram nada. Ah, e a casa da Anne Frank na Holanda, que não sai da minha cabeça...

Aí vão duas coisas que a Soninha escreveu sobre Berlim, com as quais eu concordo quase completamente – com o resto vou concordar depois de visitar a cidade outra vez, com outros olhos e, espero, com menos dor:
Aqui estou
Everybody speaks english

TRILHOS TRILHADOS
Acho que eu nasci pra viajar de trem. Tenho amado. Hoje, pelas cidadezinhas da Alemanha, de Berlim para Munique e depois para Salzburgo, já na Áustria, fiz a viagem mais bonita de todas as de trem até agora. As cores, as casinhas, as águas, as pontes, um monte de coisa linda de ver. E de uma singeleza… (adoro essa palavra inventada). Enfim, belo caminho, com sol. E dancing through life.

CHECK POINT JOE
O Joe quase salvou minha estada em Berlim, mas eu que sou teimosa e tive medo dos turcos, acabei fazendo a opção errada. No domingo, depois de assistir a Elisabeth, eu resolvi ir para a ilha dos museus. Fui pegar o metrô e já comecei a sofrer – muitas opções de bilhete e eu não tinha idéia. Comprei o mais barato. E nem precisava porque no final ninguém nem olhou. Pelo menos fui honesta. Bom, mas lá estava eu, com o bilhete na mão, tentando entender por que dizia “valide seu ticket”, quando um moço muito simpático ofereceu ajuda. Oh, yes, please, save me. Ele me mostrou onde validava, perguntou pra onde eu ia, disse que eu tinha comprado o bilhete errado, rs, mas tudo bem. E me falou pra ir com ele que ele me mostrava onde descer na Alexander Platz, meu desejado (e errado naquele dia) destino.

E aí veio a primeira tentativa do Joe de salvar meu fim de domingo. Ele disse: “Esse lugar agora não tem nada, deve estar very very sad, you will see. Hoje é dia de futebol – Turquia vai jogar e Berlim está cheio de turcos portanto não tem ninguém por aí, estão todos nos lugares onde se vê o jogo”. Eu achei que não tinha entendido bem, afinal, e os turistas? Como assim ninguém naquela região dos museus? Não era possível que não ia ter ninguém no principal lugar de Berlim… Pois era. Mas sigamos.

Joe é de Amsterdam, imagine! Eu teci elogios e ele adorou. Bem que faz sentido ele ser de lá porque ele era BEM bonito e eu nunca vi tanta gente bonita quanto na Holanda! Joe morou uns anos em NY e está há três em Berlim. Ele estuda Tecnologia de Segurança, isto é, chips, finger prints, raio laser ótico, quase cinema de ficção científica. E, imagine de novo, o pai dele é bam bam bam de uma empresa que faz o sistema de chip dos cartões do Santander. Iiiih, foi uma festa, mostrei meu cartão, ele mostrou o dele, rimos como se aquilo fosse muitíssimo importante, e estava lá no cartão o nominho da tal empresa – onde ele também trabalha. Coincidências à parte, chegamos ao meu destino.

Ele desceu comigo e veio a segunda tentativa de Deus, ou do Joe, de me salvar do marasmo Berlinense quando você não sabe onde é o lugar certo do momento: “Tem certeza de que você quer ficar aí? Eu estou indo ver o jogo num lugar bem legal, onde tem um telão enorme e milhares de pessoas, você vai gostar”. Eu até quis ir, juro, mas me achei idiota de estar em Berlim por dois dias e ir a um centro cultural assistir ao jogo da Turquia. Antes tivesse ido.

O Joe ainda disse pra eu dar uma andada ali, então, já que “you need to travel to feel good” e depois ir pra lá pegar o segundo tempo. Tá, eu vou. Então ele me deu o cellular caso eu precisasse de ajuda. Enfim, tava tudo vazio mesmo. O único movimento na rua inteira era na frente da Ópera. E eu quase entrei de penetra na Traviata porque passei lá bem no intervalo e me misturei, entrei, sentei na platéia pra ver o teatro – mas tive medo de ficar e ser pega, que vergonha. Bom, acabei andando demais naquele vazio e quando me dei conta achei tarde pra me aventurar até o Joe. Era pro lado oposto do meu hotel e cá entre nós o metrô de Berlim não me pareceu a coisa mais fácil do mundo… Então não fui. Voltei. E já contei o que aconteceu quando saí da estação no bairro do meu hotel: os turcos tomaram as ruas e quase me mataram de frustração por ver que a gente só torce e comemora daquele jeito UMA VEZ A CADA QUATRO ANOS!

DO RE MI FA SOL LA SI
Estou quase chegando em Salzburgo e acabo de me dar conta de uma coisa que pode fazer toda a diferença nas minhas próximas três – e promissoras - paradas (Viena, Budapeste e Praga): os europeus não nos dizem o que fazer. Claro, porque sempre que chego no hotel peço dicas e tal, e eles nunca me dizem que tem coisa. Depois que já perdi é que vejo que teve opera, orquestra, música na praça etc. Eles simplesmente me dão o mapinha, no máximo fazem um xizinho aqui e ali, e tchau. Ou será que sou eu que não tô sabendo perguntar? Hm. Vou pensar sobre isso. Na Áustria! Ao som de Mozart. Estou muito feliz de estar entrando neste país. Não sei por quê. Mas estou.

Vou ficar na rua Rainer. Interessante, não, Georgettinha?
Queria ficar na casa da Noviça Rebelde...

Am… adeus.
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segunda-feira, 16 de junho de 2008

BERLIM DE LÁGRIMAS

Eu não tenho exatamente nenhuma ligação concreta com a comunidade judaica, com o nazismo, com a história de morte e destruição protagonizada pela Alemanha. Mas, quem não tem? E se você vier a Berlim talvez descubra com dor, como eu descobri hoje, que a sua ligação com tudo isso é bem mais forte do que você poderia pensar. Pelo menos pra mim, foi como se a minha família tivesse estado ali.

Hoje eu chorei muito. Acho que foi meu dia de maior tristeza durante essa viagem. Já tinha sentido isso lá em Amsterdam quando visitei a casa da Anne Frank. Esqueci de falar sobre isso. Foi tão tocante entrar no lugar onde eles se escondiam e onde ela escreveu o diário que eu mal conseguia falar por horas a fio. Tem um depoimento do pai dela na saída da casa, um vídeo, onde ele diz que conheceu mesmo a filha lendo o diário... os desejos, as críticas, os pensamentos mais profundos dela. E no final ele diz que, com isso, chegou à conclusão de que a maioria dos pais não conhece a profundeza dos seus filhos. Mas o que mata mesmo é pensar que a Anne Frank morreu um mês, SÓ um mês antes de libertarem todo mundo. E ela nem sabia que o pai estava vivo. Morreu pensando que não tinha mais ninguém. E era uma menina. Escritora e sonhadora. É devastadoramente triste.

Bom, mas e aí, hoje, fui lá no CheckPointCharlie, nos fragmentos do muro e no museu que mostra as pessoas que conseguiram fugir, as tentativas, os apetrechos que eles usavam. É tão intenso... Eu andei por aquelas salas quase sufocada de tanta história e desespero. Um sentimento difícil de descrever, emocionalmente falando. Porque de físico a sensação é esta: sufocamento, nó na garganta e vontade de chorar.

Andei as ruas de Berlim na maior choradeira. Não conseguia mais parar.
Se alguém contasse a história dessa Guerra, desse muro, desse absrudo, ninguém ia acreditar. Iam jurar que era filme.

Pelo menos eu reguei as gramas da cidade...
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BERLIM DE ENGANOS

Assisti ao musical Elisabeth aqui em Berlim, em alemão. Não entendi nem uma linha, claro. Mas eu sabia mais ou menos a história então quase ok. É baseado na vida da Sissi, imperatriz na Áustria. No musical ela é apaixonada pelo marido, o kaiser, mas também por um outro, um bonitão que desde o começo aparece pra ela, diz que a ama, que a quer, que ela pertence a ele, e insiste pra que ela vá com ele. Ela sempre quase-vai, mas acaba desistindo e largando a mão do cara. Eu, que não sabia quem ele era, não conseguia decifrar se ele era bom ou mau, se era sincero ou não, se faria algum bem a ela - que não era lá a pessoa mais feliz do mundo com a vida que levava -, mas sempre me parecia que ele queria pegá-la pra ele por puro egoísmo, porque ele se achava imbatível. Mesmo assim, eu me sentia seduzida pelo jeito dele. Acho que eu teria ido.

No intervalo, perguntei para duas alemãs ao meu lado quem era o bonitão:
DEATH.
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domingo, 15 de junho de 2008

BERLIM DE TURCOS

Eu pensei que estivesse na Alemanha, mas estou na Turquia. Hoje teve futebol, Turquia x República Tcheca e, depois do jogo, a Kurfürstendamm virou a Avenida Paulista em dia de vitória do Timão. Muito bizarro. Era turco que não acabava mais. E milhares de carros passando, de buzinas, gritos, gritinhos, e vermelho pra dar e vender. Constatação para quem não sabia: tem muito, mas muito, mas MUITO turco em Berlim!

(e eles são BEM barulhentos)

sábado, 14 de junho de 2008

OH WHAT A PARADISE IT SEEMS

Tá difícil mesmo ficar sozinha nesta viagem. Não, não é que eu não seja capaz, é que não me é permitido, não me deixam, não sei que força é essa que simplesmente me cerca - de cerco mesmo. Mas também não é que eu queira muito ficar sozinha, só estou constatando a dificuldade, caso eu quisesse...

Veja: minha amiga me deixou na estação de Amsterdam e eu entrei no trem para Berlim, enfim sós. Doce ilusão. Na minha frente em diagonal, na mesa para quarto, senta-se um rapaz que já tinha andado de lá pra cá e de pra cá pra lá tentando acomodar toda a bagagem. Sorridente daquele risinho-que-espreme-os-olhos de todos os chineses. Chinês pensei eu! Calada no meu canto com as minhas leituras, eu pensava com meus botões, zíperes e todos os mil cacarecos que carrego na mochila e nos bolsos, em como aproveitar bem as quase sete horas de viagem entre a Holanda e a Alemanha. Mas eis que este rapaz, sorridente como nunca, depois de organizar as duas malas gigantes, mochila, pasta, casacos e violão, começa a tirar de sacolinhas maçãs, bananas, sanduíches, sucos e coisas e… fólyú. What?? Fólyú, ele disse. Pra você... zis is fólyú, sorriiiiindo, e começou a por no meu lado da mesa, na minha frente, um de cada tudo que ele tomava para si. Então ganhei pedacinhos de maçã, que ele mesmo picou, meia banana, um sanduíche de queijo com coisa, biscoitos tipo aquele champagne e… não, ele não exatamente perguntou se eu queria, simplesmente sorridente de um jeito chinês que não me deixava recusar nada, foi me dando as coisas.

Muito bem, você venceu. Fechei minhas leituras e vamos lá. Olha, eu acabei de comer então vou ficar só com as frutas, tá? Ok-ok-ok, sorrisinho inabalável. E então num esforço bastante grande fui devagar entendendo as perguntas dele com aquele sotaque wen-tchong-tcheng. Sim, eu vou pra Berlim, depois Munich, Salsburgo, Viena, Budapeste e Praga. Ah, você vai pra Itália, que bom. E depois volta para a França onde está fazendo MBA, great. Eu sou do Brasil. Isso, isso, samba, ziriguidum. E você, de onde é? Ainda bem que eu não arrisquei... Aimi flom Vietnã. Pausa curta. Seguida do meu sorriso de hmmm - e aquele simzinho com a cabeça.

Ai, Senhor, sempre que ouço Vietnã me lembro da menina nua na frente do tanque. Sai, saaaai pensamento triste porque o vietnamita na sua frente sorri muito portanto certamente ele não está pensando na mesma Guerra que você. E, pronto, ele está perdoado por ter falado samba!, afinal você também pensou na Guerra do Vietnã, o equivalente de certa forma!

Meu nome? Juli. – Ah, Joly!! Joly in french means vély intelesting and beautiful person. Ai, meu Deus lá vem. E você, como se chama? Juro, entendi de primeira: Phuong. Se fala assim mesmo, o mais anasalado possível: Fuôónnhg.

Ai, a partir daí, ele comia, falava, eu via toda a comida dentro da boca, mas ele continuava sorrindo tanto que eu nem podia achar ruim, eu estava de fato, achando ele divertido. Esses moços orientais fofos, sabe? Então já era meu novo amigo. E comeu, comeu, comeu… ele comeu muito! E é um magrelo. Bem, me contou que vai visitar a vó em algum lugar da Alemanha a uma hora de Berlim, não entendi onde. Depois perguntou onde eu ia me hospedar. Depois não parou mais. Pediu meu telefone, meu e-mail, já me ligou pra ver se tava certo, perguntou o que eu fazia, resolveu me dar um livro – que parece bem interessante, prêmio Pulitzer, chama-se Oh What a Paradise It Seems – fez uma dedicatória dizendo que era um presente do coração dele pro meu. Aff.

Perguntou se eu gostava de música, pôs o celular pra tocar, e já foi pegando o computador. Abriu na minha frente e colocou o video dele tocando violão na estação do metrô em Paris e também em um outro trem. Ele faz MBA de dia e toca nos metrôs antes de dormir. Porque gosta. Toca bem paca. Música clássica. Me mandou logo Romeu e Julieta. Ai, Maria. Tudo isso na primeira hora de viagem. Sem parar de sorrir, se fazendo entender com o inglês mais enrolado que já ouvi – ele fala melhor francês e vietnamita, mas, enfim, de que me serve?

Ufa! Depois de tudo isso com toda essa rapidez e de perguntar se eu era casada e me dizer que pode mudar seu roteiro pra ir comigo para Viena e Budapeste – ai, meu Senhor Jesus – bem, e depois de me dizer que tem 24 anos e que quer viajar bastante para ter o que conversar com a futura namorada – bem, depois de tudo isso, ele resolveu dormir. (mas essa foto é bem depois porque ele dormiu todo arrumadinho, tirou os sapatos, pegou um travesseiro, um cobertor e deitou encolhido nos dois bancos como se fosse uma cama.)

Ai, fiquei sozinha, por algumas horas? Em silêncio...
Sim, sim, sim. Nem acredito.
Just for this moment.

E então, finalmente, eu consigo por longos minutos, contemplar a paisagem da Alemanha pela janela do trem, ouvindo Elphaba e Fiyero cantando Just for this moment…

It’s just… for the first the time, I feel wicked.

Bom, também não durou muito porque quem pegou no sono em seguida fui eu.

Agora, quase chegando em Berlim, eu me pergunto: O que é que eu vou fazer com este vietnamita? Como é que eu vou me livrar dele sem ser indelicada? Como é que eu vou dizer não, não venha passear comigo, se ele ficar com esse sorrisinho chinês na cara? Ele ainda dorme, mas vai acordar, eu sei, não tem jeito. E se eu mudar de lugar e quando ele acordar eu sumi? Ai, que horror. E se ele tiver um mal súbito e não acordar agora? Isso seria uma saída. E se alguém me explicar por que é que eu simplesmente não estou autorizada a ficar sozinha nesta viagem? Olha, se até do Vietnã me mandaram gente é porque a coisa é séria.

Ai, vou parar de pensar que a minha cabeça começou a doer. E a cabeça dele também deve estar doendo porque ele tá dormindo bem de mal jeito. Coitado. Porque mesmo com dor, certeza que ele vai acordar sorrindo.

Olha ele aí. Parece que eu estou tão feliz, né. Só pensando como eu ia me livrar dele... Ah, esqueci de contar a melhor: quando eu disse que era jornalista e que escrevia, ele, todo feliz, me revelou que ganhou um concurso de textos super importante na universidade dele – de Economia! – com um texto sobre “Como vou me tornar um homem muito rico”. Ok.
...

PS: chegamos e, ops! logo depois desta foto sem querer me perdi dele na estação... Agora estou em Berlim. Sozinha.
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sexta-feira, 13 de junho de 2008

ÂNGULO VIVO

Assim que encontrei a Simoninha (porque ela é uma Simone pequena), minha amiga que mora em Amsterdam, na Holanda - mas já morou em Bruxelas, na Bélgica - ela me contou que tinha sofrido um acidente de carro na estrada entre um país e o outro (por onde ela passa como se fosse de São Paulo a Santos). Porque ela estava, nas palavras de quem já anda perdendo o português, no "ângulo morto" do outro motorista. E foi assim, rindo do ângulo morto (e sem nenhum ponto cego), que começou uma das semanas mais VIVAS e divertidas da minha estada na Europa.

Assim comecei a me lembrar de que os amigos são mesmo a família que a gente escolhe. Porque fui recebida e acolhida com um tamanho de carinho e generosidade que só a família da gente tem. Por duas pessoas adoráveis que me mostraram com paciência e gentileza uma das cidades mais interessantes e deliciosas que já conheci. Eu AMEI a Holanda.

(e, neste momento, enquanto escrevo isto, na janela à minha frente começa um nascer-do-sol-de-cinema no céu de Amsterdam. e eu ganho de presente de despedida essa visão maravilhosa de mais um dia indescritivelmente lindo e mágico. mais um dia de uma vida que não desiste de me mostrar que vale a pena)

...

Na segunda-feira passada, Simone me pegou na estação de trem de Bruxelas e viemos de carro para Amsterdam. Ela me trouxe para o apartamento lindo onde mora, no Noord, e fez de tudo pra que eu tivesse dias lindos. Claro que tive. Com bicicletas, passeios, MUITAS risadas e muito sol - mesmo com o frio, que veio mas acabou dando um charme às nossas pedaladas.

Até hoje, Simone dividia o apartamento com a Sintia (com S mesmo), uma goiana muito querida que veio morar em Amsterdam há 4 anos - e de quem eu já morro de inveja porque ela aprendeu a falar holandês e fala como se bebesse água. Enquanto eu não consegui decorar nem o Bom dia. Mas a Sintia está se mudando hoje para a Irlanda. Vai trabalhar lá pra aprender inglês. A Simone fica mais um mês aqui e depois vai morar na Espanha, transferida pelo trabalho. É assim a vida da maioria dos brasileiros que decidem morar na Europa. Meio nômade, meio aventureira, meio incerta, e bem cheia de lavoro, work, batente.

I AMSTERDAM
Essas duas foram companhias introcáveis. A Simone, mesmo depois de morar sei-lá-quantos-anos aqui, foi comigo fazer o passeio de barco pelos canais. É verdade que ela nunca tinha feito, mas você iria passear com a sua amiga pelo Tietê? (ai, que comparação absurdamente infeliz!! Mas você nem ia...)

É também verdade que ela nunca tirou foto naquele lugar onde - e ela me disse isso na maior animação, como aquela gente cafona que tira foto no nome das cidades do interior de SP - "é MUITO legal!!!! tem escrito AMSTERDAM bem grande, como se fosse Hollywood!". Eu, claro, depois de rir muito da cara dela, acabei caindo lá e tirei mais ou menos 227 fotos nas letras do "I Amsterdam". E quem me levou lá foi a Sintia que, com a maior boa vontade, fez um tour de bici comigo pelos lugares que eu queria conhecer - depois de trabalhar a manhã inteira e cheia de mala pra terminar de fazer.

I hope you are happy!!!!

QUASE NOVENTA E CINCO QUILOS!
Ter carro em Amsterdam é a maior besteira. O negócio aqui é andar de bicicleta. A Simone tem carro. A Sintia, bicicleta. Não, Si, eu não quis dizer nada com isso. hahaha. Eu andei de bicicleta todos os dias. O caminho do apartamento das meninas - de Amsterdam Noord até o centro - é uma graça. Aquelas casinhas holandesas, ruas, enfeites laranjas (por causa da EuroCopa), barcos, placas, pontes e a balsa. Tudo legal. Principalmente as casas "tortas", com a parte de cima inclinada pra frente. Juro. Não sei qual é a explicação pra isso, mas tem milhares de casinhas e predinhos tortos. Torre de Pisa? Ficha...

E a coisa da bicicleta é soberana mesmo. Faça sol, frio, chuva, neve. Dia, noite, madrugada. Elas estão sempre lá, nas ruas, nas esquinas, nas praças, dentro dos lugares, lotando os estacionamentos de bicis, (sim, eles existem e são enormes!). Eu nunca vi tanta bicicleta na minha vida. Tive dificuldades para estacionar a minha mais de uma vez. Porque, ainda por cima, tem que parar nos lugares certos e acorrentar a magrela, senão roubam. E vendem no mercado negro. Bicicleta aqui é BMW.

Nós não rimos mais porque não deu tempo. E o recorde de risadas foi em uma das voltas de bici do centro pra casa, de madrugada e num frio que só rindo mesmo. A Simone contou - com a sutileza que lhe é peculiar - que uma amiga dela "que tem quase noventa e cinco quilos" (perceba: ela não arredondou pra 100, mas para 95 - sim, é BEM engraçado a pessoa dizer "ela tem QUASE 95 kg.). Bem, ela contava que essa amiga está namorando um moço "legal mas com os dentes da frente muito tortinhos, coitado". E parece que a coisa é brava mesmo... ele quase nunca sorri porque as pessoas correm. E então a menina ligou pra mãe e disse: mãe, tô namorando um menino muito legal, mas ele tem os dentinhos da frente um pouquinho tortos, sabe... E a mãe, com aquela franquesa e tino para consolo que só as mães têm: ah, filha, mas você tem que ver que você também não é nenhuma princesa...

Tá bom, eu tive que me jogar no chão com bicicleta e tudo e gargalhar no meio da Lisnzenstdjinstraat (ou coisa que o valha). E depois descobri que, se a gente se concentra, consegue pedalar gargalhando por vários quilômetros. E no frio é bom porque esquenta.

EU, LARANJA
Minha noite de sexta-feira 13 foi laranja (com branco, Veri!). Teve jogo da EuroCopa de futebol: Holanda x França. Então imagine todos, eu disse TODOS os bares e restaurantes dos Jardins ou ao redor de uma praça de alimentação em SP enfeitados de verde e amarelo pra final da Copa do Mundo com o Brasil no jogo. Todos com tvs e telões dentro e fora, lotados de pessoas muito animadas e todas, eu disse TODAS (até os turistas) vestidas com as cores da camisa brasileira, e com apetrechos, chapéus, perucas etc. Agora troque todas as cores por laranja, BEM laranja. Pronto. Você tem a visão que eu tive na minha última noite em Amsterdam ao chegar a um dos conglomerados de bares ao redor de uma praça da cidade, a do Rembrand. Total clima de Copa do Mundo. Laranja.

Totalmente contagiante. Então claro que eu fui procurar uma lojinha aberta e comprei um monte de adereços cor-de-laranja para me paramentar. Ganhamos de 4 x 1 e eu virei uma holandesa e fanática por futebol. Por uma noite. Porque depois olhei bem e achei que o laranja não favorece a minha beleza natural, então já voltei pro canarinho.

POR FIM, ACABOU
A última cena que vi em Amsterdam, depois de tanta alegria, foi de fim, pra não me deixar esquecer que todas as coisas acabam - não só as viagens e os filmes.

Em uma das pontes sobre um dos canais estavam Nicolash e Harriet, um indiano-londrino e uma holandesa que eu recém-conhecera no bar alaranjado onde assistimos ao jogo. Eles eram namorados. Conversamos, dançamos, rimos, e eles estavam felizes, comemorando e se divertindo com um bando de amigos - laranjas também. Horas e horas depois, no meu caminho de ir embora, improváveis lá estavam eles, na ponte, mas sem a alegria do laranja. Estavam chorando. Na verdade a Harriet chorava, tentando disfarçar quando eu cheguei. Ele, sério, tentou ser simpático, mas a cena era inevitavelmente triste. Ele estava terminando tudo com ela. Acabou, ele disse. Nos amamos por, quanto tempo baby?, um ano e meio? Um pouco mais? Mas acabou. Somos de países diferentes, culturas diferentes, essas coisas de casal, e acabou. A vida é assim. Ela sabe que ela significa o mundo pra mim, mas acabou. Nós vamos nos entender - dentro do acabou! - e ela vai ficar bem, não vai baby? E a baby chorava mais.

Tudo que eu pude fazer foi dar um abraço bem apertado na Harriet, e ela precisava mesmo daquele abraço porque sem nem me conhecer, e mesmo sendo européiamente holandesa, não me largou por uns cinco minutos. E chorou muito. Eu tive vontade de bater no indiano, de jogá-lo no canal, de dar uma rasteira pra ele cair no chão e bater a cabeça, e morrer talvez com o sangue escorrendo pela testa - porque ela era de uma delicadeza incrível e ele, um feio e chato - mas não, não fiz nada disso, obviamente. Só servi pro abraço mesmo. E nem peguei o e-mail de nenhum dos dois, portanto não saberemos o final da história.

Mas acabou.
.
PS: Meninas, obrigada por tudo.

Si
, good luck in Irland. Keep singing Wicked to practice your english. And I hope you're happy in the end, I hope you're happy, my friend.

Si
, por favor, continue não dando ponto sem nó. Mas comece a se lembrar de carregar as coisas porque as baterias realmente não funcionam se a gente não põe pra carregar, tá? E cuidado com aquela zona onde sempre chove!!
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quarta-feira, 11 de junho de 2008

AMEI-STERDAM

por enquanto é isso...
(continua no prøximo capítulo)

Vou pra Berlim no sábado.

domingo, 8 de junho de 2008

UNLIMITED

Happy is what happens when all your dreams come true. (?)

Em Londres, antes de tudo: palcos!
Unlimited.
Eu poderia ficar aqui pra sempre, indo ao teatro todo dia.
Aliás, eu poderia assistir a Wicked todos os dias. Unlimited.

Bairros, luzes, gentes - estranhas ou não -, muitos, mas muitos, mas muitos brasileiros. E muitas, mas muitas, mas muitas pessoas de todos os lugares do mundo. Sol, muitos dias de sol. Todos os dias de sol. Obrigada, senhor. Pontes, rodas-gigantes, artistas de rua, música, muita música. E anjos. Encontramos anjos numa noite de ônibus errado e rua deserta. Angels drove us home. Um almoço lindo em Notting Hill, casas coloridas, Portobelo road, e flores. Passos em Convent Garden, susto e calote em Candem Town. Festa furada, mas tudo vale a pensa se a alma não é pequena. E calor pra despedir. Abba, Queen, Lions. Mamma Mia! We will rock you! Hakuna Matata! Unlimited.

Amanhã: Amsterdam.
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quarta-feira, 4 de junho de 2008

BIG SUN

Ontem à noite Dani e eu rezamos e pedimos pra Deus um dia de sol. (Pedimos diaS, na verdade). Ele nos deu hoje um maravilhoso dia de sol em Londres. Lindo lindo lindo. Dia lindo.

DEFYING GRAVITY
E mais linda a noite.
Fui assistir a WICKED.
Não adianta eu tentar descrever o que sinto quando entro no teatro.
E o que sinto durante um espetáculo maravilohoso como este.
E o que sinto depois que acaba e em todos os dias que se seguem.
Não adianta.
Mas é a minha vida.
E não há mais nada a ser dito.

I HOPE YOU ARE HAPPY.
I HOPE YOU ARE HAPPY NOW.


PS: A Elphaba de UK, incrível, na Broadway a partir da semana que vem.
Uma das melhores atrizes e cantoras que já vi: Kerry Ellis.
. the wizard and I
. for good
. popular

terça-feira, 3 de junho de 2008

BIG RAIN

Cheguei em Londres.
De Brugge, de trem.

A viagem foi uma delícia. Vim conversando com um casal de australianos músicos queridos e bacanas. Ele toca drums e um monte de outras coisas numa banda que acho que deve ser bem famosa. Ela toca guitarra e canta, e vai gravar um cd este ano. Coversamos sobre as nossas viagens, sobre o Brasil e sobre a Austrália. Eles descobriram que o Brasil tem muitas favelas e muita gente feliz, masmo na pobreza. E eu descobri que na Austrália falta água e já ficou 3 anos sem chover em algumas regiões. Três ANOS sem chover. E eles sofrem um racionamento de água BEM severo. Sim, nós somos felizes.

A mudança de Brugge pra Londres é brutal. Sei que vou adorar este lugar de certo ponto de vista porque, só hoje, só no Soho, passei por SETE teatros. Todos com musicais ou peças legais em cartaz. E eu não podia estar mais feliz porque finalmente vou ver WICKED e MAMAMIA. É quase um sonho. Por mais que seja banal, pra mim é extraordinário!

Mas, sinceramente, Londres na chuva me faz pensar que prefiro as cidades pequenas - como Brugge, Luca e Mérida!

Sobre os preços das coisas e sobre como esta cidade vai estourar meu orçamento por causa dos ingressos de teatro, e portanto do quanto terei de ficar sem comer e fazer nada nas próximas paradas, não vou nem falar muito. A vida é assim. Toma lá, dá cá. Prefiro comer cultura e palco a camarões. (mentira, mas camarões eu não ia comer mesmo, então...)

E ainda bem que essa senhorita que eu encontrei aqui vai entrar de cabeça nos teatros comigo!

Quero ir na Madame Tussauds, meu sonho de criança.
E a Notting Hill, pra ver se encontro a Julia.

Bom, e a todo o imenso resto que se tem pra ver aqui.
Então, see yá leitá. (tem horas que eu não entendo na-da que eles falam). éndjiá?

PS: em quatro horas, encontrei três brasieliros que moram aqui. boring.
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segunda-feira, 2 de junho de 2008

AS JANELAS DE BRUGGE

Aluguei uma bicicleta e fui passear pela "grande brugge", onde as pessoas moram fora do canal principal, que rodeia o centro da cidade. Bem, descobri que existe em Brugge um vício, ou seja lá o que for, por colocar coisas no batente das janelas, pelo lado de dentro.

É assim: as casas aqui têm sempre na fachada a porta e pelo menos uma janelona de cara pra rua, ao lado da porta. Daí, essa janela, que certamente não abre pra dentro senão ia derrubar tudo - e talvez nem abra -, tem umas coisas apoiadas nela, usando o batente como se fosse uma estante ou uma mesinha de centro. E as coisas às vezes ficam viradas pra rua, às vezes de costas, viradas pra sala da casa. É louco. Juro. TODAS as casas são assim. As fotos não me deixam mentir. Tem plantas, flores, vazos de tudo que é tipo, estátuas, troféus até, e muitas coisas estranhas que eu não tenho a menor idéia do que venham a ser. E aí, pruuublema, eu fiquei viciada em tirar fotos das janelas com as coisas. Podia ter passado o dia nisso... Era uma mais curiosa do que a outra. Mas resolvi fugir de lá antes que meu dia acabasse nos enfeites das janelas de Brugge.

DAMME... IT
Andei MUITO de bicicleta. Mas, mais uma vez, fui engabelada por uma sugestão infeliz. Quer dizer, o caminho era mesmo lindo, mas o cara que me alugou a bici me mandou pra fora de Brugge, quando tudo que eu queria era passear lá dentro. Explico: eu pedi a ele uma sugestão de passeio e ele "tipo" entendeu que eu queria pedalaaaaar, passear de bicicleta pela vegetação e me mandou pra uma estradinha - linda, é verdade, mas que me fez andar 5 km de ida e 5 km de volta de uma cidade vizinha chamada Damme. Foi como passar uma hora pedalando no Ibira deserto. Na volta, quando eu ia passear mais por Brugge mesmo, caiu uma tempestade inacreditável.

Em resumo, duas coisas:
1. preciso voltar a Brugge mais uma vez na vida e andar de bicicleta por todas as ruazinhas.
2. minhas pernas estão doendo loucamente.

PITORESQUICE
O dia começou de barquinho pelos canais da cidadela. Cada construção linda, fofa, pitoresca! Ainda mais vendo de dentro do canal. E "pitoresco" é a melhor definição para Brugge porque significa isso e só isso mesmo, sem sinônimo: Brugge é pitoresca. Exato, como a decoração do meu hotel. É singela também, mas mais pitoresca.

O MESMO CAMINHO, DOIS CAMINHOS DIFERENTES
Engraçado como quando a gente faz o mesmo caminho em momentos diferentes, ele pode ser muito mais bonito. Vivi isso aqui em Brugge. Fiz um caminho de manhã e depois me arrisquei a fazer o mesmo caminho à noite de novo. Um risco. Porque podia me tirar a magia da primeira vez. Não. À noite foi bem mais lindo. Talvez porque eu também estivesse diferente. Foi bom arriscar fazer o mesmo caminho de novo, e ver uma beleza diferente e melhor.

LUGAR, HORA, COISA
Aqui também tive a sensação repetida de que muita coisa na vida se resume mesmo a estar no lugar certo na hora certa. Mas se repete também a sensação contrária, de que não importa nem um pouco onde vocé está, porque mesmo se nada estiver acontecendo no lugar em que você foi, alguma coisa já está acontecendo. E se você estiver hoje lá, amanhã vai estar cá, e sempre ganhar ou perder alguma coisa. Em qualquer lugar. No certo, no errado, na rua, no quarto, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê. Resumindo eu não disse nada, mas era isso mesmo.
Tanto faz.
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domingo, 1 de junho de 2008

A MULHER DO TREM

Estou na Bélgica!
Em Brugge.
É lindo.

A primeira viagem de trem da minha vida - de Paris para Brugge - foi muito muito tranquila. Até demais. E muito muito rápida. Definitivamente rápida demais. Não deu tempo nem de escr... cheguei!

No meu vagão, pouquíssima gente. Precisamente 8 pessoas, contando comigo. Dois casais que conversavam em espanhol sobre o Roland Garros e juravam que seus filhos – pequenos ainda – seriam os próximos sucessos do tênis mundial! Uma moça numa ponta e um senhor na outra cujos rostos nem vi direito. E um homem grisalho, calvo e elegante, atrás de mim, trabalhando num mac grandão!

Em Bruxelas, quase todos desceram. Sobramos eu e o calvo elegante. Puxei papo com ele, e perguntei se ele me indicava um hotel em Brugge. Me disse onde ia ficar, mas não sabia preços e se tinham lugares porque era tudo coisa de trabalho. E eu, ainda, nem perguntei no que ele trabalhava. Mas quis saber se era de Paris. Não. Ele é francês, mas de Mointpellier. E, do nada, veja a coincidIencia, me contou que lá há em maio um dos mais importantes festivais de teatro infantil do mundo! Não é bizarro ele dar essa informação exatamente pra mim? Sem ter idéia do quanto isso tem que ver com a minha vida? Achei chocante. Ele me mostrou fotos e tudo, porque vai sempre com os filhos. Na estação nos despedimos e eu, então, fico sabendo o que ele faz e lamento muito não ter perguntado antes: sou cientista – biologia humana (ele que disse). Quase dando tchau, ainda tive tempo de fazer uma única pergunta: mas e aí, mister cientist, me fala a verdade, a evolução da ciéncia tá fazendo tudo direitinho? Ou estamos a caminho de algum lugar estranho e ruim? Ele riu e se limitou a me dizer que tudo já foi visto e qualquer coisa que venha, já será repetida… Não compatilho muito dessa informação, mas, enfim, como é que vou discutir com um cientista?

Então fiquei lá, sozinha, em frente ao mapa na parede, tentando tomar um decisão do que fazer e pra onde ir. E rindo. Sorrindo e rindo sozinha. Foi quando um jovem casal falando espanhol chegou perto de mim no mapa e tentou se achar. Puxei papo, claro... Resumindo, consegui um quarto no hotel deles e ficamos muito amigos – além dos dois, estão os pais dela. Luce e os pais, Flor e Juan Pablo, são argentinos; Davi é espanhol, namorado de Luce. Os dois moram em Barcelona, na Espanha. Pronto, já tenha família em Brugge também. E são mesmo. A gente até já faz piada um com o outro. Principalmente o pai e a mãe. São ótimos! Todos ótimos! Tenho muita sorte.

VESTIDO DE NOIVA
Vocé já esteve num hotel que tem como decoração um vestido de noiva emoldurado e pendurado na parede da recepção? Eu já. E o vestido é da esposa do dono.

Ah, e num hotel que tem na parede da sala de café-da-manhã roupinhas de nenê, também enquadradas para a posteridade, você já se hospedou? Eu também já. Roupinhas do filho do dono, claro.

E há ursinhos que imitam pelúcia e mais uma centena de coisas antigas e umas bugigangas, enfeites, pratas, um monte de cacareco que não consigo descrever espalhados pela decoração. Bem Brugge, bem pitoresco! BEM legal!

FANFARRA
Na praça, o último show de um festival. MUITA sorte. O grupo era demais. 11 caras engraçadas e MUITO bons! Um no acordeão, dois na percussão e todos os outros nos sopros. MUITO bom. Teve até uma libanesa cantando música árabe. Foi de uma adequação para com a minha pessoa que até Deus pode se perguntar como certou tanto no momento da coisa com o momento em que eu estava chegando no lugar. Foi o máximo.

Escuta lá:
VA FAN FAHRE

OITO
É o número do meu quarto.
888 é a senha da porta.
Algo me diz que vou voltar pra Brugge um dia.
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sábado, 31 de maio de 2008

AS PORTAS DO CÉU

Eu me despedi de Paris passando o dia com os meus escultores favoritos: Auguste Rodin e Camille Claudel. Por sorte, havia uma exposição dela no museu dele. E era linda, linda. A cada coisa que eu via, pensava: esta é a melhor de todas. E, na sequência, mudava de opinião. Era tudo muito lindo.

Depois da Camille, fui pro Rodin. Mais um monte de beleza… O Pensador, As Portas do Inferno, O Beijo, A Miséria, Paolo e Francesca, Victor Hugo, e todos os outros de que não me lembro o nome.

Eu AMO escultura.
Depois de Firenze e Paris, tenho certeza absoluta disso.


FAMÍLIA
Meu irmão e minha cunhada chegaram a Paris ontem. Com o Dudu e a Virgínia. Ficamos todos juntos no apartamento e eu tive uma família em Paris. Por muitos e muitos dias. Primeiro só com meus tios –que foram meus pais, e depois com eles. E família é família em qualquer lugar. E eu amo família em qualquer lugar do mundo.

E a Carla contou várias histórias boas de nossa querida Margarida.
A melhor foi esta: quando ela saía com o marido pra jantar em restaurantes, ele sempre fazia ela sentar de costas pra porta porque ela se maquiava demais e ele não queria que ninguém visse. Isso é muito engraçado, uma vez que vocé pode imaginá-la sempre sentada olhando pra parede. Carlota, achei essa meio maldade do seu pai, hein!

Mas nada supera “Como é que cê tá?”
“Tó gorda, minha filha”.
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sexta-feira, 30 de maio de 2008

POR QUE A MONALISA?

Ah, o Museu do Louvre... Mágico estar lá dentro. Foi mesmo. Me senti um pouco no Código Da Vinci, não vou mentir. Mas isso é outra história. E a minha história com esse lugar já é bem mais interessante do que um best seller. Allez.

Vi de tudo no Louvre. Gente passeando, gente estudando, gente lendo. Até gente dormindo eu vi. Vários, juro. Vi crianças aprendendo sobre arte, sobre beleza (!), ou sobre isso que chamamos de vida. Vi jovens, velhos, calmos, afobados, lindos, bonitos, feios, horrorosos. Vi pretos, brancos, coloridos. Vi gente olhando, gente não vendo nada, gente querendo ir embora logo. Gente legal e gente chata. Casais, professores, freiras. Vi de tudo no Louvre. Até a Monalisa eu vi. E, então, eu me pergunto: por que a Monalisa??

Por que a Monalisa?

Veja só: diante dela, aquela coisa minúscula se olharmos ao redor, tem uma tela gigantesca, extraordinária, maravilhosa. E todo mundo dá as costas pra ver a Monalisa. Na sala seguinte tem mais de uma dúzia de telas gigantes e lindas, e bem interessantes. Então por que a Monalisa?

E o museu tem uma quantidade inimaginável de telas. Além de todos os outros museus, e todas as outras cidade e países, com quadros fantásticos de pintores incríveis. Pois me diz: POR QUE, raios, a feiota da Monalisa?

Olhar misterioso? Sorriso que te segue? Aquela coisa especal dela? Tá bom, eu entendo, juro. Mas não me basta. E todos os outros olhares sensacionais de todas as outras milhares de figuras de todos os pintores franceses, italianos, espanhóis, e todos os outros do mundo inteiro?

Por que, Santíssima Trindade, a Monalisa?

Por que uns dão certo na vida e outros não?
Por que uns lugares viram moda e outros não?
Por que algumas pessoas estão onde querem e outras não?
Por que alguns se amam pra sempre e outros não?
Por que uns sonhos se realizam e outros não?

A resposta deve ser a mesma de por que a Monalisa...
Coitada, fica lá naquela redoma de vidro, cercada de correntes.
E sufocada por japoneses.
Deixem a Monalisa em paz!
Ela já tá até com cara de cansada.
Pelo menos eu achei...

COMO SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO
E aí eu fui andando e pensando: mas como isto aqui existe? Como trouxeram tudo pra cá? Como peduraram tudo isso, como carregaram os pedestais e esses homens enormes incrvelmente pesados, e seus cavalos, e leões? E pelamadrugada, como é que limpam esse negócio, essas janelas, as estátuas lá fora?? Como é que vão fazer tudo isso continuar existindo para todas as próximas e próximas e próximas gerações?

E como dá tudo certo todo dia?

E essa gente que trabalha nas salas? Será que eles trocam de lugar ou cada um é condenado a passar a eternidade vendo a mesma obra de arte todo dia? E será que eles nunca têm vontade de bater em algum visitante? E as perguntas, são sempre as mesmas? E as pessoas que ficam ali, vivendo, passando pelo Louvre todo dia, dormindo à beira do chafariz, como se nada estivesse acontecendo? Digo, como se aquela grandiosidade não fosse nada demais... Como se dá isso? Como se nada estivesse acontecendo... Isso realmente me intriga.

Mas, sério, por que a Monalisa?
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quinta-feira, 29 de maio de 2008

EXTREMOS

Hoje fui ao Sacre Coer. E ao Moulin Rouge. Dois extremos.
Me fez pensar em um monte de coisas. Coisas. Coisas. Coisas.
Almocei num bistrozinho ali em Pigale cujo cozinheiro resolveu me paquerar então fez uns pratos lindos e, pra variar na França, comi muito muito muito bem. Mas o tchans do almoço ficou na trilha sonora: Sweet dreams are made of this / Who am I to desagree? / Travel the world and the seven seas / Everybody is looking for something...
Eu procuro o bonito. E só. Acho.
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quarta-feira, 28 de maio de 2008

LET IT BE ou ÀS MARGENS DO RIO SENA EU SENTEI E CHOREI ou O DIA EM QUE FUI DO INFERNO AO CÉU EM MENOS DE UMA HORA ou A MENINA QUE REGEU O RIO

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Decidi que o dia seria de barco, pelo Sena.

Saí do hotel com a mala e me mudei pro apartamento dos meus tios, o lugar mais lindo do mundo, com vista pra Torre Eiffel e abarrotado de carinho por todos os tijolos. Paris não poderia ser melhor. E hoje seria de barco.

Caminhei até a Torre e comprei o Bauteau Bus. Errei. Não que não seja uma boa escolha. Pra quem ainda não foi em nada por Paris e quer passar o dia visitando os lugares mais importantes, assim, en passant, é ótimo. Mas pra mim não era isso. Eu queria contemplar o Sena e as belezas "marginais", com tranquilidade, sem descer em ponto nenhum, e tomando sol. O barco-ônibus é fechado, abafado, cheio de gente, barulhento e vai parando. Definitivamente errei. Mas não ia perder o dia por isso. Peguei o b-bus – pelo menos pra valer os 8 euros que paguei – e fui até a Ponte Neuf , pra embarcar no Vedete da Pont Neuf, este sim o certo.

Comprei o bilhetinho da Vedete e o inferno começou: percebi que tinha perdido o cartão de crédito. Bobagem, podem pensar. Mas para mim que não sou íntima de cartões de créditos e que tenho um mês pela frente sozinha pelo Leste da Europa, sim, me pareceu um enorme problema. Além do meu sentimento de incompetência e burrice por perder o cartão depois de tê-lo usado pela primeira vez, para pagar o primeiro hotel, no primeiro dia em que fiquei sozinha.

- Monsieur, eu disse no meu francês parco, posso usar esse ticket pro barco-vedete mais tarde? Oui. Que bom.

Tomada de desespero, saí andando apressada pelas ruas de Paris atrás das opções que eu tinha para tentar achar o cartão. Todas improváveis. Mas eu esperançosa até o ultimo fio de hair. Vou resumir porque agora me deu preguiça de reviver todo o nervoso. Andei pela cidade, passei por alguns lugares, procurei em casa, entrei e saí de metrô, corri, corri, corri. Na minha última opção, embora eu tivesse muita fé, já estava quase chorando. E depois chorei mesmo. Quando cheguei ao quiosque onde comprei o ingresso do Bauteau Bus, expliquei pra mocinha, que já era outra, que meu cartão poderia ter caído ali e tal, misturando francês com inglês e com súplica. A moça disse NÃO. Assim, de cara, sem nem olhar pro lado. Não, não, aqui não tem nada. Preparei o choro (senti brotar em mim aquele bico de neném, sabe?). Mas, como Deus é grande e Jesus é meu amigo (como diria Nábia Vilela), resolvi insistir um pouquinho. NÃO, ela disse de novo. E eu, quase me encolhendo e entrando dentro do chão, bem baixinho, perguntei ainda uma vez: not a chance?... !!!! Nisso, uma outra atendente, uma negona estilo gorducha-cantora-de-jazz, que estava atrás da mulher do NÃO, ouviu meu choramingo e disse, na maior descontração, como se eu estivesse dançando o Ula-Ula com o Elvis (não sei por que fiz essa comparação): oh, oui, oui, oui, c’est la.

Agora pára tudo e muda a rotação do seu pensamento. Porque vamos entrar na câmera lenta no exato momento do oui oui oui c'est la!

Como num filme editado em slow, eu vi a mão negra e francesa da gorducha-cantora-de-jazz do Ula Ula deslizar no ar 10 ou 20 centímetros até o cartão-preto-e-dourado-brilhante, que pousava sobre uma máquina de calcular ao lado da moça do NÃO. Isso, AO LADO da moça do NÃO - e por um triz não ficou lá pra sempre enquanto eu me mataria. Mas, continuando a cena, ainda em camera lenta vi os dedos pegarem o cartão e o flutuarem até as minhas pernas bambas de emoção. Tudo BEM lento e, oh!, bem lindo. Nesse segundo, meu coração que já se preparava pra chorar de nervoso e ai-como-vou-resolver-isso-agora-que-transtorno, chorou de alegria e de gratidão. Eu me sentei ao pé do Sena e chorei enquanto ria e agradecia o milagre, a segunda chance de não ser incompetente.

MOTHER MARY
Nesse momento do choro, acredite, música começa a tocar. Vinha de alto-falantes enormes não-sei-de-quem, ali mesmo, do lado do ponto do barco. E não foi qualquer música. Tocou Let it be. Juro. Tocou Let it Be naquele momento – mother mary comes to me speaking words of wisdom: let it be. Não tinha letra, era só música e eu chorava mais. E, então, veio o toque derradeiro, matador, final e definitivamente mágico do meu começo de tarde pós-manhã-perdida-e-tensa. Essa menina fofa e doce aparece com dois gravetos e, de frente pro rio, rege. Isso, rege. Rege o rio. Rege o Let it be. Rege Paris. Rege o tempo. Rege a minha alma.

Agradeci muito porque um alívio me foi dado.
Mas o cartão de crédito já nem importava mais…

A BENÇÃO DO RESTO DO DIA
QUE DEIXEI ESTAR
(LET IT BE)
Voltei pra Ponte Neuf e fui exatamente no barco que eu queria. Foi demais. Depois desci e resolvi caminhar até a Notre Dame. Acredite se quiser: quando cheguei lá estava tendo uma celebração enorme, com um coral maravilhoso, e cheguei bem um pouco antes da consagração. Nem que eu tivesse marcado hora tinha dado tão certo.

E o fim do dia foi essa benção, na Notre Dame de Paris.
Regendo a noite...
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terça-feira, 27 de maio de 2008

FILA D'ORSEY

Uma hora e meia na fila. Na chuva. Tempestade. Tudo encharcado. Eu, sob o guarda-chuva, comecei a ler Comer, Rezar, Amar, pra me distrair e tentar não me irritar naquele - literalmente - MAR de gente na fila pra entrar no Musee d'Orsay. O livro funcionou. Me distraí e nem me chateei com os pés molhadérrimos. Não desisti. E eis que uma mexicana engraçadérrima que estava atrás de mim resolve dançar e cantar na chuva... rain drops keep falling on my head... não dava pra ficar de cara feia de jeito nenhum. Ainda mais quando ela, uma russa e três japonesas começaram a tentar conversar em inglês. Foi muito engraçado. Cada uma falava uma coisa, durante uns 20 minutos, até chegarmos à bilheteria do museu, quando todos se entenderam na comemoração em qualquer língua. Valeu a espera.

POMPOM
O museu é maravilhoso, mas nada pra mim foi mais fascinante do que as crianças pequenas tendo aula lá dentro. Deve ser a coisa mais comum do mundo pra quem mora na Europa, mas pra mim foi uma visão nova e mágica. Aqueles tocos de gente sentadinhos diante de obras imensas, olhando e reagindo ao que a professora falava. Lindo demais.

O último grupinho, por uma incrível ironia, estava diante do Urso Branco, de um escultor aluno do Rodin chamado não-sei-o-quê POMPON... Não é MUITO legal? O cara chamar Pompon, esculpir um urso branco quase de pelúcia, e as crianças estarem no museu diante dele? Ai, eu achei. E é isso que importa afinal era eu mesma que estava lá. Grata.

O CÉU, O INFERNO E AS HISTÓRIAS DE AMOR
Entre todos os quadros do museu, um. Este (Mort de Francesca de Rimini et de Paolo Malatesta). Porque de repente me deparo com esses personagens, esses amantes, e essa história que eu nem conhecia até um dia conhecer... e me faz pensar em todos os casos de amor, os lindos, os eternos, os felizes depois tristes, os "fracassados", os terminados ou os tragicamente interrompidos. Os esquecidos. Os eternnizados na memória. E me faz pensar em todas as histórias proibidas e atrapalhadas. E em toda a censura, em toda a falta de amor, em toda a incompreensão. E me traz a Divina Comédia de Dante, que um dia eu ganhei de alguém que amei acima de tudo, e que me amou acima de tudo, e que hoje não faz mais parte de nada de mim, nem disso, nem desta viagem, nem deste quadro, nem desta emoção... embora faça parte da minha lembrança. E então, mais uma vez, eu me pergunto se vale a pena. E eu mesma respondo: vale - porque não fossem as histórias de amor que vivi, esse quadro não teria o menor significado pra mim, e não seria tão lindo. Tão lindo quanto o livro caído da mão morta que lia para ao amado ao morrer...
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segunda-feira, 26 de maio de 2008

CORTANDO O CORDÃO COM FLORES ANTIGAS

E então estou (quase) sozinha daqui pra frente.
É estranho, confesso. Um pouco triste, talvez.
Mas é também interessante.

O primeiro lugar onde me sento para comer sozinha é o Café de Flore, na Saint Germand, onde Beauvoir e Sartre costumavam tomar café e se reunir com amigos para discutir o existencialismo, idéia que nasceu aqui, neste café.

Claro que é porque eu quero, mas o lugar tem então aquela magia de histórias velhas escritas num livro antigo e de intelectuais, filósofos e gente interessante e ousada sentada num café de Paris divagando sobre a vida e procurando respostas, ou pelo menos razões. E é isto: por um momento cá estou, tomando café com Simone e Jean Paul em uma calçada parisiense de chapéus e idéias.

A salada que eu pedi, bem - voltando a 2008 e perdendo por um instante a fumaça dos cigarros franceses – não é linda. Pra falar a verdade não é nem bonita. Mas então, existencialmente, eu me pergunto se a beleza que importa é a da salada ou a do instante. Importa mais o gosto da comida ou do sonho (não aquele, este)? Não sei responder. Certeza: nenhuma. Mas escolho as segundas opções. E fico feliz. Ainda que as pessoas ao meu redor insistam em ser turistas e não escritores.

Pelo menos, senta-se ao meu lado direito neste momento uma senhora bem francesa, com sua neta bem francesa de casaco Burberry, e tiram da bolsa um livro sobre o qual conversam: Durell. (?) Só para compensar a americana bem americana, do lado esquerdo, que conta para as amigas bem americanas também, em detalhes, o sonho que teve essa noite com o Harison Ford.
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NUNCA SEM MINHA MÃE...

...but now. Daysi se fue. De volta ao mundo real. Quase um mês depois, a primeira fase da viagem – de carro avec ma mére - c’est finit.

Portugal: Lisboa, Cascais, Estoril, Evora . Espanha: Merida, Toledo, Alcañiz, Tarragona, Barcelona, Montserrat, Cadaques . França: Carcassone, St Remy de Provence, Beaux de Provence, Avignon, Aix en Provence, Cannes, Nice, Paris - Monaco . Itália: Rapallo, Santa Marguerita, Portofino, Lucca, Pisa, Firenze, Siena, Roma

Não foi pouco, não. E a Dona Daysi aguentou firme as minhas longas caminhadas por cada lugarzinho por onde passamos. Bem, de vez em quando ela se enchia, mas piano piano foi a lontano. E ninguém nunca acreditou quando ela pedia o desconto para os mais velhos.

Brigamos um pouquinho, mas rimos MUITO. Por causa da coisa, do coiso. Ela se protegeu da chuva com casaco, blusa, papel, papelão, guarda-chuva fechado, aberto, quebrado. Conversamos bastante com a Maria e mandamus ela não encher quando disse: há quarént klómetrosh, prrúbléma. Mas também choramos de rir com as rrrutundash e os se pssível faça a inversão d’márcha. Ah, e siga o itinerário actuall, quando ela não fazia a menor idéia de onde estávamos. Vimos muita, mas muita, mas muita gente parecida com nossas gentes, com a coisa e com o coiso.

A mamãe se sentiu a vovó quando eu disse que ia ali e já voltava e ela quis ir, mas eu disse não porque você anda devagar, fica aqui sentada que eu jå volto. E também rimos da turma que chegava sempre um pouquinho antes da gente, ou depois, e das guias com seus coisos nas mãos. Xingamos os mal-educados, pagamos os cafés pra fazer xixi, e xingamos mais ainda o italiano estúpido que nos mandou na chuva se não íamos consumir e o hotel Madison com aquele quarto japonês horroroso com estrelas no teto. Na última noite, a mamãe ficou contando estrelas, assistindo mudar de cor, narrando tudo pra mim e coisa.

Ah, e também ficamos de papo e perdemos a estação do metrô e quase pegamos o ônibus pro lado errado. E ela saía com a sacolinha pra carregar coisa e entrava nas lojas, saía, dava graças a Deus que não tinha comprado coisa e depois se arrependia. E também errava os caminhos um pouco, mas fingia que tava tudo bem. E parava pra olhar umas coisas que até agora não entendo, como por exemplo a placa de proibido andar em frente, que é vermelha com uma faixa branca no meio – e você não tem muito o que ficar vendo nela. Enfim.

Também lembramos muito do papai. Mais ou menos todos os dias. Comemos mariscos e camarões, comemoramos algumas comidas maravilhosas e resmungamos depois das porcarias que comemos nas praças onde as turmas também comiam. Descobrimos que tem gente que come pescoço de frango em restaurante chique e gostamos do menino que veio falar o cardápio sentadinho na mesa conosco. E a Daysi deitou pra dormir no 5 estrelas e deu um suspiro – ai, finalmente tô em casa. Eu dormi rindo vários dias por essas e outras. E porque ela dormia e quando se virava fazia ai ai ai – afinal andou tanto que o corpo tinha que doer um pouquinho mesmo.

Rimos também nas ruas apertadas de Lucca e com ela lembrando do papai dirigindo em Roma e dos caminhos errados que ele pegou com o tio Charles e tia Lilian na Provence. Jogaram o mapa pela janela de raiva. E voltaram pra pegar porque só tinha aquele. A Maria e seus óbliq a eshquerda não existiam ainda.

Mas, o top da risada – ao lado de todos os momentos coisa – foi quando ela olhou bem pro desenho com as linhas do metrô, colocou o dedo firme numa estação, e disse pra mim, categorical É PRA CÁ. Eu, só pra garantir, perguntei despretenciosamente, tem certeza? E ela, categórica de novo: NENHUMA! Na sequéncia me joguei no chão do metró e fiquei rindo ali por uma semana.

Enfim, e milhões de outros momentos que vamos lembrar cá e lá, pela vida. Mas agora as risadas viajam aqui comigo, só comigo, comigo só. Às vezes vão se misturar com lágrimas de saudade – que eu já estou sentindo desde a hora em que ela partiu – depois de andarmos pelo aeroporto inteiro pra pegar o tax free. Desgraçados dificultam esse refund ao máximo que podem, que é pra você desistir. Mas nós, turcas fomos firmes e fortes, de trenzinho de terminal em terminal, e brigando um pouquinho só pra despedir com dignidade. E pegamos o dinheirão.

Eu tenho manias e ela reclama. Mas somos nós, assim, e sempre juntas.

Mãe, obrigada por tudo. Atutelér!
(lágrimas e riso no ponto final)
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domingo, 25 de maio de 2008

CLARICE, DAYSI E HELOISA

Nem Torre Eiffel, nem Louvre, nem Champs Elisee: hoje a maior beleza e a maior alegria que Paris me trouxe foi encontrar a tia Clarice, que eu adoro muito nem sei bem por quê. Ela e o tio Abdo estão aqui e nós quatro nos divertimos bastante juntos. Fomos à feira, ao jardim, ao restaurante, às histórias do tio-Abdo-rei-na-China, ao céu.

E descobri que a minha mãe e ela, Clarice (que de Lispector tem qualquer coisa), estudaram com a Heloisa Buarque de Holanda no Des Oiesaux. Engraçado descobrir isso em Paris, já que a Heloisa eu descobri em um café literário. Segundo minha mãe, a "Helô" tocava violão, fazia jornalzinho, era meio bicho-grilo e desenhava as bailarinas mais lindas do mundo! Vai, que a gente nunca podia imaginar que o passatempo dela no recreio da escola era desenhar bailarinas! Bom, e ela certamente escrevia poemas e também vinha muito a Paris - essa última informação é um puro palpite meu, mas bastante provável.

Enfim, foi tudo poético.
O encontro e a descoberta.

NEGÓCIO DA CHINA
Sabia que um cara loiro, gordo e braquelo na China de antigamente fazia o povo parar na rua e ficar olhando boquiaberto? Eu fiquei sabendo depois que o tio Abdo contou que ia pra lá, há uns 20 anos, fazer negócio e as pessoas tratavam ele como rei. Tia Clarice contou que na tradição chinesa quanto mais gordo, mais rico. Então, imagina um cara deveras acima do peso e ainda por cima muito loiro e de olho azul-piscina passeando entre os Tchin Djin Lin... Só faltou o papamóvel. A tia Clarice queria se esconder e o tio Adbo pensava em coisa triste pra não rir, cada vez que a multidão de chineses ficava paralisada com aqueles olhinhos que riem olhando pra ele. De vez em quando, ele dava um sorrisinho de retribuição só pra desafogar a risada.

E veja a globalização: as histórias da China foram contadas por brasileiros num restaurante japonês em Paris.
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sexta-feira, 23 de maio de 2008

MON PAYS EST PARIS

Foi uma experiência incrível ver a torre eiffel pela primeira vez sozinha.
Mas não foi uma experiência incrível ver a torre eiffel pela primeira vez sozinha. Foi uma emoção estranha e francesa.
Lindamente francesa.
Tristemente francesa.

Sob
Escrevo sob o sol sobre a torre sozinha. Sob suspeita.
Sob o efeito do anonimato e de alguma ausência.
Penso sobre tudo sob a torre, sob a vida.
Escrevo e penso sobre a vida.
Parada sob alguma hipótese.
Vestida de ferro, peso.
Sobre tudo. Sob a torre.
Sob o peso de tudo, peso a vida.
E a torre sozinha.
E a torre, sozinha.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

AS ÁGUAS DI ROMA

Alguém me disse que só pelas fontes já valeria a pena ir a Roma. E é verdade. Mas as águas de que eu falo neste título veramente são outras... Chiove, chiove, chiove in Roma. É certo que mesmo assim é tudo lindo e a cada praça a que você chega, e cada ruela que você vê e, sim, cada fonte grandiosa, vale os pés encharcados e as barras das calças que pingam. Até por que, eu só vi mesmo praça e fonte. Entrar no Vaticano, impossível. Im-pos-sível. Entrar no Coliseu, entrar em qualquer lugar, impossível. A Disney é aqui também. Brinquedos lotados. Filas de, pelo menos duas horas. Na chuva. A Sistina ficou pra próxima. A Pietá também, infelizmente, embora ela viva dentro de mim. Adesso, va bene.

NONA ANAMARIA E O RECADO
A chuva trouxe um ar um pouco triste aos dias em Roma. Mas, hoje, um lembrete veio bater na minha testa. Entrei em muitas igrejas e parece que Deus mandou um recadinho. No meio da tarde sentei num café e estava lá, pensando em qualquer coisa não muito feliz, me perguntando outras coisas também não muito promissoras, e eis que uma senhora na mesa ao lado começa a falar comigo. Mas começa a falar mesmo, como se fosse minha melhor amiga há anos, e como se eu entendesse italiano perfeitamente. O fato é que eu comecei a ouvir, e a participar muito do monólogo, embora não entendesse quase nada. No começo. Porque de repente comecei a entender... uns 50%. E ri com ela, gargalhei, lamentei, quase chorei... tudo entendendo só metade. Mas quem via tinha certeza de que eu entendia absolutamente tudo e tinha opiniões incríveis sobre cada história. Mas responder, eu só conseguia "va bene", "que belo", "é tchérto" e, depois de um tempo, "que bela vita la de lei, un exemplo!" ha questa parole - exemplo - in italiano?, perguntei, pazza. Si, si, ela disse. E fez aquela cara de modéstia, e aquele gesto com a mão que italiano faz pra 'va bene, que cosa fatchamo!...'.

Mas ela falou, e falou, e falou, e falou - quase sem respiro - e me contou a vida inteira. E eu ouvi. Contou do marido, de onde mora atrás da igreja São Pedro, que vale milhøes mas não vai vender porque vai deixar pros filhos. E falou dos filhos, claro, que não querem mais que ela more sozinha. E falou dos netos, que a amam - la nona la nona la nona! Me contou que conheceu o marido em 47, casou em 53, ele morreu não entendi em que ano. Chamava-se Maurizio, por causa do Mussolini, mas também não entendi por quê. Me mostrou foto antiga dos dois, 50 anos atrás, na mesma praça onde estávamos (claro que tirei uma foto dela com a foto!). Contou que eles tiveram, ou ainda tem, não sei, uma cantina, ou um frigorífico, ou alguma coisa onde se faz ou vende comida. Disse que faz pão em casa. E também sabão. Bem, pode ser que eu tenha entendido mal porque é estranho ela dizer que faz pão e sabão...

Em dado momento ela perguntou se eu era italiana - acho que porque eu só dizia "va bene" e "belo". Eu disse que era brasileira. Ela perguntou se eu capische o que ela dizia. Bastou eu dizer que sim que ela voltou a falar sem parar. Disse que vai fazer 80 anos, mas que está cheia de vida. Que sempre trabalhou muito, e que agora o importante é continuar contente. Então que ela está assim, sempre contente. Chova ou faça sol. Dia bom, dia ruim, dia mais ou menos, ela pensa na vida e fica contente. E disse que eu, assim, bela ragazza, certamente era sempre contente, por isso ela estava feliz em conversar comigo. (Acho que mesmo se soubesse que eu só estava entendendo metade). As últimas histórias que ela contou não entendi nada, mas morri de rir com ela, que estava adorando lembrar daquelas coisas... e o mais engraçado era que quando ela não lembrava a palavra que queria dizer, me perguntava... "que cosa chiama... cosa cosa cosa..." Aí que eu ria mesmo. Mas foi ótimo, afinal me lembrei que o importante é estar contente.

E o resto do meu dia foi bem mais alegre. Mesmo na chuva.
E ao pé do rio Tevere e só ao pé dele.

terça-feira, 20 de maio de 2008

NUOVI FOTI ORGANIZATTI

Itália - FIRENZE . tudo . LUCCA e PISA . ruazinhas, paisagem, praças, sol, bici, tudo . Itália Costa - PORTOFINO . deslumbrante, tudo, mar . STA MARGUERITA . praia de pedrinhas, mar . RAPALLO. ruas, praça, patinhos, mar
França Cote d'Azur -
MONACO . o principado, monte carlo, cassino, grand prix, pedras, mar . CANNES . festival de cinema, gente, ruas . NICE . mar azulíssimo e degradê . França - Provence . SAINT REMY . carros antigos, ruas lindas, pão embaixo do braço . AVIGNON . palácio, ruazinhas, teatro, estátua fajuta . BEAUX DE PROVENCE . van gogh na catedral de imagens, chateau, moinho, vista . AIX EN PROVENCE . cave, ruas, coisas

segunda-feira, 19 de maio de 2008

DOLCE VITA?

Já estamos em Roma.
Eu já joguei moeda na Fontana de Trevi.

E aí, Netunão, vai rolar?
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sexta-feira, 16 de maio de 2008

COLOSSAL


Eu vi.
O Davi.
Não dá pra falar.
Realmente não dá.

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o corpo só
ele não olha
eu não olho também
mas nos vemos assim.
na praça
na academia
no museu.
ele sou eu

quinta-feira, 15 de maio de 2008

PARLA!

Estou muda.

Chegamos a Firenze há algumas horas. Noite. Mas luz! Saímos do hotel andando por uma ruazinha silenciosa, desavisadas sobre o que estava por vir. De repente, o maior deslumbre que já tive na vida: demos de cara com a Piazza della Signoria. O Palazzo Vecchio com a replica do Davi na porta, uma série de estátuas de mármore gigantes ao lado e… a Galleria degli Uffizi! Um esplendor. Coisas de um tamanho que eu nunca vi. Fiquei parada, boquiaberta por alguns minutos. E ainda não consigo parlar muito sobre o que vi. (E a noite ainda prometia, sem que eu soubesse).

Caminhamos… e lá estava ela: DUOMO, a Catedrale di Santa Maria del Fiori. Você acredita naquilo? Nem eu. Ainda não consigo saber o que pensar, nem sei exatamente o que eu senti diante daquela coisa monumental. Absolutamente estarrecedor.

E tudo isso porque acabamos de chegar. E ainda é noite.
Depois, e depois, e depois, e depois… certamente vou experimentar emoções do tamanho do Davi – o original – que verei.

E vou continuar sem parlar.
Este lugar é inimaginável.
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HÁ UM DE VOCÊ POR TODA A PARTE

É muito engraçado. Tem feito a gente gargalhar. A mamãe e eu achamos, todos os dias e em todo lugar, pessoas parecidas – algumas idênticas – a um monte de gente que a gente conhece. Olha como aquela parece fulana! E olha aquele, é A CARA de não-se-quem! E olha a Dona Beltrana ali! Igualzinha!

Outro dia ela me matou de rir com esta: Só de Nicole, eu já vi três!

A mãe do Tio Zuzu, a Dona Ciba, estava jantando lá no Parador de Alcañiz. Tiramos até foto. O Rodrigo primo, filho da tia Malú, estava no restaurante do Port Olimpic, em Barcelona. Restaurante cujo dono, aliás, andando de costas era o papai escrito. A Guta, irmã da minha avó, tomou café no mesmo lugar que a gente lá em Cannes. Mas a recordista é minha outra tia-avó, a tia Nazira: ela passeia pela Europa inteirinha e onde a gente vai ela vai atrás. Fora a tia Odila, que às vezes se disfarça, mas sempre acabo achando ela lá e cá. Em Lucca, o Zezinho Abs comeu na mesa do nosso lado, embora a mamãe achasse que não era ele. E lá em Portofino, foi incrível, a mesma mulher conseguiu ser a Gaby, do L`Officiel, e a Tia Lilián perfeita! Por um triz a gente não foi atrás dela dar oi.

Mui-to-en-gra-ça-do.
Não tem um dia que passa sem que alguém conhecido passe.
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DI BICI IN LUCCA

Primeiro pensei em pedalar ouvindo música, mas logo me dei conta de que, além de ver, uma das coisas mais legais de andar de bicicleta por Lucca seria ouvir os sons da cidade dentro do muro.

Lucca é murada duas vezes: uma pelo muro de pedra, outra, por árvores lindas ao redor de um gramado lindo ao redor do muro de pedra. E a gente vai “sobre” o muro, que é largo o suficiente pra ter virado uma pista por onde se caminha, corre, passeia com o cachorro, pedala, e passa até de carro em casos especiais. E a gente vê a cidade de cima. As duas cidades. A murada e a de fora, a moderna. De um lado, a Lucca pîcola, antiga, linda, plena de biciletas, italianos e turistas bacanas,, e construções originais de lá-pra-trás. Do outro lado do muro, a cidade “normal”, que eu nem conheci, à margem da magia da Lucca de dentro.

Os sons no meio das ruazinhas às vezes pequeníssimas, as vezes nem tanto, são misturados e deliciosos de ouvir: vozes, música, passos, campainhas de bicicletas e de portas, motocas, conversas pelas janelas, até caminhões – que não dá pra acreditar como passaram por algumas daquelas ruícas. São quase os sons de qualquer cidade, mas é Lucca, e eu estou de bicicleta, na Itália, e apaixonada pelo lugar. E tem ainda os sons das línguas e dos sotaques nos Ciaos e nos Excuzis. E os guias em todos os idiomas, falando alto, com gentes de todas as idades e de todos os tipos. E há risos, e crianças. E tudo. Tutti. Lucca é tudo. Bem ali dentro daquele muro de 4 quilômetros dentro de mim. De bici.

AREIA MOVEDIÇA
Pisa, por onde passamos a caminho de Firenze, é só uma torre torta. Impressionante, é vero. MUITO impressionante. Mas só. E va bene – porque também já virou Disneylândia.
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quarta-feira, 14 de maio de 2008

ESTRADA KINDER

O caminho pela auto-estrada da Cote d’Azur francesa para a costa italiana, indo de Nice para Portofino, é incrível… para quem adora tunnel. Se você detesta, esquece, vai de outro jeito – porque são mais de 150 túneis. Sério. Cento e cinquenta no mínimo. É surreal. Túneis e pontes. Grandes, pequenos, médios, minúsculos, enormes. Um atrás do outro, o caminho todo. Lá no alto. Mais de 200 quilômetros de pontes e túneis. E todos batizados, com nome e às vezes sobrenome. Quando a gente pensava que tinha acabado, olha lá, mais um e outro e outro e outro, até chegar na cidade seguinte. Túnel Redondo, túnel quadrado, túnel com teto vazado, tem pra todos os gostos.

Mas o mais legal é que, a cada saída de túnel, vem uma surpresa. Você entra vendo verde e sai vendo milhares de casinhas coloridas e amontoadas, num vale enorme, quase à beira do mar, mas mais alto. Se entra vendo mar, poder sair vendo montanha com neves eterrnas no topo, lá longe. É bem louco. E bem gostoso e divertido! Como Kinder ovo!

PS: O Kinder na Itália custa 1 Euro! Pô.

AQUI É O MEU PAÍS

Tá, Portugal tem o Tejo, a Espanha é demais, a França é lindíssima e tem a melhor comida do mundo, mas entre esses, a Itália é o meu país. Definitivamente.

Driving Miss Daysi
Em Portofino, aquele charme de cidade italiana na costa, com aqueles barcos, aquelas casinhas, aquele sol, aquela luz nas cores das casinhas à beira dos portos e das cidades vizinhas – Santa Marguerita e Rapallo – e aquela água-deslumbre, conheci quarto americanas fofas! Elas não conseguiam estacionar o carro na garagem apertada – garagem apertadas, alias, é o que não falta pela Itália. Sofri. Bom, mas por isso ficamos amigas. New best friends. E elas fizeram com que eu me desse conta do título deste parágrafo, o título desta viagem. Não é adorável?

Eu disse: This is my mother. Her name is Daysi. She is a flower, isn’t she? –Yes, elas disseram. And who is driving the car? - I am, eu disse. E veio: So you are DRIVING MISS DAYSI!! Morremos de rir. Da série “é besta, mas eu amo”. Va bene.
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terça-feira, 13 de maio de 2008

A PRINCESA NA CURVA

Coitado do Rainier. Teve que viver seus ultimos 20 anos sem a Gratia Patricia. A Grace Kelly morreu em 1982, num acidente de carro nas ruas por onde passamos pra chegar ao Principado de Monaco. O Príncipe Raineir só foi morrer 2005. Coitado, vai. Foi a primeira coisa que pensei quando vi os túmulos dos dois na igreja da Ville Monaco, o lugar onde fica o palácio e que eles conservam como uma cidade de conto de fadas – pelo menos eu achei. Mas, coitado. Que posso fazer se foi isso que me veio à cabeça? Porque, pensa, não deve ter sido fácil perder a Grace Kelly.

Anyway, a vila é muito legal e o lugar é lindo de morrer. De filme (da Grace Kelly). É no alto alto alto. De lá se vé toda a cidade, o porto e a pista do Grand Prix – por onde, alias, passamos de carro porque o percurso faz parte da cidade, ali onde está o Cassino de Monte Carlo, beirando a costa do Mediterrâneo, lá embaixo e azulérrimo.

Mas voltando ao Principado, olha, em vidas passadas eu devo ter sido uma súdita devota de alguma monarquia, porque eu simplesmente a-do-ro esse clima real. Ou então é por causa da Elena, minha amiga-princesa que virou consagrada. Não sei. O fato é que eu adoro. (Pode ser também que eu tenha sangue azul, né…! :).

O Palácio é o má-xi-mo! Cada sala! Cada coisa! Cada coleção de coisas! Cada detalhe! A cadeira de não-sei-quem, o armário do século xis, a escrivaninha da dinastia tal, o luster de Luiz XIII, as cores, os estilos, as camas, o trono! Senhor Deus! E o quadro pintado com o retrato da família, com a Grace, o Rainier e os três filhos beirando os 18… coisa mais divina! Todos olham para o horizontem sorridentes. Só a Caroline olha pro pintor. Não descobri por quê… Deve ser porque ela era a mais nova e podia fazer diferente do resto. (risos)

Enfim.

Minha mãe diz – ela sempre diz – que eu ainda não vi nada, que os castelos da Sissi, em Viena, dão de dez! Tá, eu acredito. Mas como ainda não fui visitar a Sissi, fico com a Grace no topo até lá. Tadinha da Grace – e do Rainier – num reino muito, muito distante…
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segunda-feira, 12 de maio de 2008

UM CERTO OLHAR

Monte Carlo, em Monaco, e Nice e Cannes. Tudo lindo demais!












O caminho de Nice para Monte Carlo, pela estradinha que vê o mar, é um deslumbre. De um lado a montanha de pedra com paredões altíssimos, até meio inclinados em alguns pontos... cê não acredita como aquilo não despenca! E do outro lado aquele mar de tons inacreditavelmente azuis de algum céu, e uns iates, umas músicas na cabeça, uma coisa!

E ler nas placas dos carros "Principado de Monaco", juro, faz a gente pensar que tá dentro de um conto de fadas. Por pouco não passa correndo do lado do carro o príncipe no cavalo branco. E ainda cheguei andando pela pista do Grand Prix de Monaco. Não, demais. Umas coisas bobas mas que, quando cê tá dentro, é muito legal.

UN CERTAIN REGARD

Cannes!
Simplesmente o luxo do mundo estar no meio dos preparativos desse Festival!

A rua da praia só tem Cartier, Channel, Ferragano, Gucci, Dolce&Gabanna e mais as outras todas de que não me lembro o nome e que dá até medo de olhar a vitrine.

Mas isso é só o cenário porque o mais legal são (sempre) as pessoas! Pra lá e pra cá, ouve-se de todas as línguas que vocé pode imaginar, e há roupas e estilos e olhares. Essa gente elegante que faz cinema... óculos e cabelos e casacos e cachecóis e ternos e gravatas e cores e andares... e pares! E cineastas puxando malas e câmeras e luzes... olha, fascinante. Depois que eu saio e olho de fora, vejo que é tudo bobagem, penso que este já é o 61º Festival de Cannes e que eu nunca nem tinha olhado direito - ah, mas a verdade é que estar no meio disso tem uma magia que torna tudo diferente. É de ficar boba mesmo, barata tonta olhando pra todo lado. Eu devia ter nascido em Hollywood. Não sei pra quê, mas devia. Teria, talvez, um outro olhar.


FOTOS DE CANNES
FOTOS DE MONTE CARLO - MONACO
FOTOS DE NICE


PS: No fim de hoje fui brincar no cassino.
Escolhi uma máquina. Uma só. A única.
O nome dela: nanuk.
O cenário: gelo.
O saldo: 54 moedas de ouro.
E?





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domingo, 11 de maio de 2008

CÔTE D'AZUR

Chegamos em Nice, passando por Cannes - e voltando pra Cannes amanhã... Porque a cidade FERVE de FESTIVAL! Começa na quarta, mas o ar já é de pipoca!

Vento gelado na noite agitada. Jantamos em Nice.
Gente na rua, vendedores de bolsas aos milhares, restaurantes cheios.
Mas aqui não é tão charmoso quanto Cannes em dias de Festival.

As vistas são todas lindas, de todos os caminhos, não me canso.
Simplesmente não me canso de ver cada coisa e tudo. Devagar.
E os sorvetes são todos deliciosamente bons, mesmo no vento frio.

PS:
o rio que eu vejo agora é um mar
ao qual quero voltar e re-conhecer
eu estou ao pé dele
e estou só ao pé dele
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sábado, 10 de maio de 2008

LUGAR LINDO, GENTE CHATÉRRIMA


A França é realmente deslumbrante. Essas estradinhas da Provence são de enlouquecer qualquer cidadão do mundo. E nunca comi tão bem na minha vida!
Mas ô gente chata...
E ô língua insuportável.
Deus me perdoe...
Tinha que ser linda mesmo, senão seria insuportável.


MANEQUIM
A moda das estátuas vivas parece que não passa. Em Barcelone tinha fadinhas, soldados, ronaldinhos e até Edward-mãos-de-tesoura. Pois em Avignon, na Provence francesa, um engraçadinho teve uma idéia-pega-trouxa e é muito engraçado. Ele se veste de branco, com aquelas roupas de estátua romana, pinta a cara, põe lá seu pedestal e fica... de papo com amigos. Ao seu lado, quem trabalha é a outra estátua. As pessoas páram, olham, ficam esperando ela se mexer, e nada: é perfeita. Então vão lá e dão a moedinha. E a linda continua imóvel. Quem agradece é o cara, de-pau. Porque a estátua perfeita é um manequim, hahaha. É muito engraçado. Você demora pra sacar. Só lendo as matérias de jornal que ele deixa ali ao pé da "moça", que é pra ninguém dizer que ele agiu de má fé. Mas a idéia é boa demais. E nem foi coisa de brasileiro porque o cidadão espertinho é bem francês. Ele chega a ir se sentar na mesa do bar com os amigos e deixa o manequim lá ganhando moedinha. É hilário. Até pra quem dá o dinheiro... todos caem na gargalhada quando se tocam.

ESPETÁCULO
Fora isso, Avignon nos deu a noite mais linda da viagem até agora. Um céu azul-mais-lindo-da-terra sobre o espetáculo de Teatro da Ópera da cidade. E com uma ópera em cena, e os elegantes avignoenses desfilando no terraço durante o intervalo. Assim é a Europa que eu vi por aí.

DESFILE ÉPOQUÊS
E,em Saint Remy, bem no domingo em que a gente estava lá, começou de repente um tal de carro passando roncando na rua, e gente gritando e coisa e tal, e fuscas aos milhares, e kombis e infinitos carros antigos e lindos! Fui ver, estacionaram todos no parking da praça e ficaram lá, em exposiçNao. Coisa mais linda. Os antigos. Os fuscas e kombis não sei pra onde foram. Acho que era só desfile pra eles, pra tirar a velharia da garagem de vez em quando. Mas eles cuidam, viu, porque tinha cada um! E fusca é legal, né. Mas, kombi, na boa, alguém me explica POR QUE RAIOS o sujeito cultiva uma kombi. Sacanagem. Ainda por cima, kombi (e brasília, e variant) bate na gente. Vrum.
Fotos:

sexta-feira, 9 de maio de 2008

BANHEIROS DE PROVENCE

Não, ninguém nunca tinha me contado que na França há banheiros sem privada. Pois eu descobri sozinha no primeiro banheiro em que fui – apertadíssima – fazer xixi, na primeira cidade em que passei na França: Arles, na Provence.

Você não pode só pedir pra ir ao banheiro num restaurante, hotel ou coisa que o valha. Se pedir, eles dizem que não tem ou te mandam embora depois de te insultar com alguma palavra que você não conhece. Então, como sempre, sentados em qualquer lugar e pedimos um café. No meu limite, lá fui eu – animada – ao toilete. Ou est? C’est ça. Merci.

Corro, entro, fecho a porta, me viro e… voilá! C’est pas de privada. Tudo o que vejo é uma pia e um buraco no chão. Gente, fala sério. Não é aqui. Entrei na porta errada. Abri. Olhei. Tava lá a menininha de vestidinho na plaquinha pregada na porta. É aqui mesmo, meu Deus. Fechei a porta. Dei umas risadas e, tá, né. Se é isso, vamos lá. Fiz xixi de pé gargalhando e me achando uma louca – eu ainda tinha certeza de que alguma coisa estava errada.

Voltei pra mesa correndo pra contra pra minha mãe, coitada, que era a próxima no xixi. E adivinha! – Ai, Juliana, como você é caipira, filha. Vai me dizer que não sabia que na França muitos banheiros não tem privada!... Não, eu não tinha a menor idéia. Mas como Deus me ajuda, aquele foi o único da espécie que encontrei pelo meu caminho francês.

COLEÇÃO DE PINICOS
Por falar em banheiro, eu devia ter feito uma coleção de fotos de banheiros de restaurantes na França. For a esse sem privada, que seria o abre-alas da collection, os outros eram todos um tanto inusitados. A maioria ficava em lugares onde parece que “encaixaram” um banheirinho, como se não existisse no projeto inicial da casa. E sempre me aparecia algum detalhe curioso ou interessante. Meus dois favoritos, só pra citar alguns: em Saint Remy estavam desenhados na parede do banheirinho minusculo os rostos de Gandhi e de Martin Luther King, com frases deles em francês escritas em letras quase indecifráveis. Era bonito. Em Avignon, no Brigadeiro del Teatro, tinha prateleiras atrás da privada com uma coleção incrível de pinicos!! Juro. Tinha uns 11, 15 ou 17. Haha. E, na parede, uma foto PB bem antiga, com 7 crianças. Seis meio que sorriam, a do meio, que me deu dor de barriga de rir, estava agachada, com aquela cara de que vai começar a chorar, segurando um pinico vazio. Certamente ela fez cocô na calçola. Eu ri muito. No banheiro e depois na mesa, com a minha mãe, que tinha reparado na mesma criança cagona.

DIAS À PROVENÇAL
Na Provence, passei pelas estradinhas mais lindas que já vi. Dirigir ali é um presente de Deus. St. Remy, Beaux de Provence, Avignon, muitas villes por onde só passamos e Aix en Provence. Tudo por aquelas alamedas margeadas por árvores verdíssimas e começando a ficar cheias e cheíssimas de folhas. Quase-túneis de árvores, sabe? Eu ia passando e pensando naqueles filmes antigos em que casais sempre aparecem viajando por estradinhas como essas. Mas é cenário porque no final, o filme é de suspense e alguém mata alguém em alguma casinha isolada no meio das årvores provencianas. A beleza do lugar é só um golpe de direção. (“Golpe de direção”… pegou? Hahaha.)
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quinta-feira, 8 de maio de 2008

COMER, COMER, VIVER

Estou em Carcassone, uma cidade medieval murada, na França. Escrevo enquanto assisto a um documentário sobre Jean-Paul Sartre jornalista, num quarto maravilhoso, sem querer dormir para não perder nenhum minuto neste lugar magìque. Me sinto num filme francês. Algumas coisas incríveis acontecem de repente.

Hoje viajamos da Espanha para a França no meio de uma paisagem que me presenteou com os Pirineus, o Mediterrâneo, videiras e um sol lindo. No caminho entre Barcelona e Carcassone, subimos e descemos a montanha para conhecer Cadaquès, para saber a cara da Costa Brava. Um charme. (Mas as curvas para chegar lá são realmente BRAVAS!).

Foi o dia de comer bem.
Maravilhosamente bem.

Almoçamos na Espanha.

Jantamos na França.
Desculpe. (rs)

E acertamos todas as vezes, na mosca - e no peixe, na carne, no cordeiro, na salada, no vinho, no caminho.


No almoço comi um menu-degustação no El Rovel, na rua principal do Le Born em Barcelona, a Argenteria. Eu não sabia o que ia comer, o menu muda todo dia porque o chef prepara o que tem de mais fresco. Era exatamente o que eu queria: surpresa. E que surpresa! Cada pratinho, um deslumbre de sabores, e odores, e belezas. Nem vale a pena eu tentar descrever porque seria pouco. Di-vi-no. Anchova com ovas e um molho sensacional (achei que eu não ia gostar, amei). Gaspacho com espuma de parmesão, raspas de salame e torrada finíssima. Risoto de bacalhau com alcaparras (nunca gostei de bacalhau, este comi chorando de alegria). Bonito com uma salsa deliciosa, tostadinho por fora e cru por dentro (como aquele atum), indescritível.

E, pra terminar, um filé mignon no ponto perfeito de mal passado por dentro, com cogumelos daqueles sem-igual enrrugadinhos (não sei o nome) e raspas de trufa (fiquei sentindo o cheiro uns 10 minutos antes de ter coragem de comer). Me joguei no chåo de tão bom. A sobremesa foi boa, mas como sou mais de sais que de açúcares, deixo o gusto do salgado, que me fez sorrir por horas a fio.


No jantar, há pouco, em Carcassone, no bistrô Saint Jean, pratos lindos, lindos, lindos. A Daysi comeu Carré de Cordeiro e eu uma salada coloridíssima (!). Tudo delicioso. E um vinho tinto, ui, igualmente maravieux. Até o café foi especial.

Enfim, tá demais de lindo.
E eu “não sei onde isso vai parar”!

Merci beaucoup!
(escrevi certo? odeio essa língua!)


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quarta-feira, 7 de maio de 2008

BORN TO BE ALIVE IN BARCELONA

Resolvi fazer uma caminhada que o guia sugeria. Foi a minha melhor idéia nos últimos dez dias. SEN-SA-CIO-NAL! Finalmente descobri o charme atual de Barcelona: EL BORN, uma dezena de quarteirões recheados de surpresas dentro do Bairro Gótico. Tá super na moda, mas isso não estraga nada. Pelo contrário, faz com que apareçam cada vez mais lugares bacanas por lá. Tem de tudo: as lojinhas mais legais da cidade, bares e restaurantes super bonitos e modernos, chocolates, sorvetes, café moído na hora, fachadas de 1800 originais, museus em cosntruções enormes com páteos lindo – inclusive o museu do Picasso, a igreja mais linda!, a de Santa Maria, e bistrôs, mercadinhos, coisinhas… demais. Tudo que eu adoro no mesmo lugar. Ruelas cheias de colorido e segredos. Pracinhas, becos, pessoas interessantes. Born Born Born.


O MONTSERRAT E AS CRIANÇAS
É impressionante o Montserrat. Quando a gente avista o monte, já baba; quando começa a subir, morre. Não sei o que vai me acontecer em Paris, em Roma, em Praga… porque a cada coisa que eu vejo, penso que mais bonito não vai ter. E eu sei que vai. Mas a vista do Montserrat é absurda. O monte parece formado por pessoas de pedra, monges, magos, seres que nos observam e protegem… sei lá. Alguma coisa além de nós. E especial.

Chegamos para ver a cantoria antes da missa. A igreja estava abarrotada. Eu não consegui ver nada, nem dava pra entrar. Então me sentei ali, no chão mesmo – minha måe não viu, claro (rs) -, num cantinho perto da porta, e escutei. O canto foi bonito. Mas bonito mesmo, pra mim, foi que, de repente, uma fila com umas cinquenta crianças começou a entrar, passando pelo meio das gentes, e sumindo na multidão, guiados pelos professores guerreiros que os foram conduzindo pelos muros de pessoas. Antes disso, porém, a parte que me toca: todos, e cada um, eram obrigados a passar quase por cima de mim e, sabe Deus por quê, as crianças fofas resolveram me dar oi. A primeira menina da fila me olhou e disse “hola”. Pronto. Foi start para que um atrás do outro imitassem o da frente, e assim recebi um sorriso, sorriso, sorriso, “hola”, “hola”, “hola” durante a passagem da fila… que delicia! Uma bobagem deliciosa. E abençoada pela Nossa Senhora (preta) de Montserrat.

Depois que saíram da igreja, a turminha se sentou ali na frente, no páteo da basilica, e eles tomaram lanche e brincaram. Coisa mais singela. E eu estava lá, e vi, e escrevo pra guardar a memória dos instantes de benção no mosteiro da Catalunha.

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terça-feira, 6 de maio de 2008

GAUDí, O REI

Tá, eu confesso. Minha cultura geral não atinge todas as artes e eu não sabia lá muita coisa sobre o Gaudí. Muito menos que as construções mais legais de Barcelona foram criadas por ele e que ele é o rei da cidade. Quase tudo aqui remete a Gaudí – o resto, ao "Barça", o time de futebol. Em cada esquina, alguém desfila com a camiseta listrada do Ronaldinho.

Achei Gaudí o máximo. Louco e genial.
E virei fã do Barcelona porque essa coisa contagia…

A igreja e as casas-esqueleto
Começamos a ver o Gaudí pela Sagrada Família, pra cair o queixo de cara. É absolutamente inacreditável. E aquela gente trabalhando parece A História Sem Fim. Alguma hora aquilo vai ficar pronto ainda nesta vida? Yo no se.

Fiquei lá parada por alguns instantes, olhando pra cima, e tentando imaginar como o cara criou uma coisa daquelas e como eles começaram a levantar aquilo. Se hoje, em 2008, eles usam uma parafernalha desgraçada pra tirar o projeto do papel, como eles conseguiam construir aquelas coisas antes? Daquela altura? Com aqueles detalhes? Sabe Deus! Deslumbrante.

Mas aí, depois, fomos ver a Casa Batló e, vou dizer, achei imbatível. Cada imagem, cada coisa maravilhosa, cada vista surpreendente. Eu amei. Parecia uma criança em cada sala que entrava, boquiaberta, chocada de alegria, me divertindo muito. E fui ouvindo o guia, que vai explicando cada inspiração da natureza para cada lugar e cada pedacinho da casa. O corredor de esqueleto de animal é genial. E as ondas, o fundo do mar, o lagarto. Tudo de gênio. Ge-ni-al.

Terminamos a overdose de Gaudí na Casa Milá, a Pedreira (não fomos ao Parc Guel, infelizmente). Também é demais. E aquele terraço maluco?! É absurdo de único. Não sei se achei muito bonito, acho que não, mas é uma coisa bárbara. Não acho o que quero dizer. Tem que ver. Mas o mais legal na Pedreira foi ver montado um apartamento da época. Era tudo tão legal! Será que eles, que moravam daquele jeito, sabiam como era legal? Que TV de plasma, que nada. O legal era ter ferro de passar de ferro mesmo e pena para escrever. Pra que computador, meu Deus? Comprei um bico de pena simplesmente de arrasar. Estou passada de felicidade (Tha, me amarrota que eu tô passada!). Eu me alegro muito com pouca coisa e isso é bom demais. Meu bico-de-pena-é-tudo-de-bom. Deviam inventar um computador onde a gente escrevesse com bico de pena. Magnífico.

Ah, Barcelona me encheu de adjetivos.

As Ramblas, sinceramente, eu não entendi muito qual a Gracia. Hahaha. Sou øtima de trocadilhos. O Paseo de Gracia é bonito e gostoso, principalmente pra quem tem dinheiro sobrando e pode gastar naquelas lojas revoltantemente caras. Um belo insulto.
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segunda-feira, 5 de maio de 2008

EL GRANDE TEATRO DEL MONDO

As luzes do teatro se apagam quando começa o espetáculo graças a uma opera de Verdi. Sabia? Eu também não sabia. Apendi durante a visita ao GRAND TEATRE DEL LICEU, em Barcelona. As pessoas iam às operas para ver e serem vistas e para ficar conversando. E então havia essa opera do Verdi que dizia que o importante estava no palco e não na platéia, e que por isso as luzes da platéia deviam baixar quando o espetáculo começava. Isso foi dando tão certo no sentido de fazer as pessoas assistirem em vez de conversar, que foi-se diminuindo a luz cada vez mais, até apagar de vez, como se faz até hoje. Bem, isso foi o que me contaram, e mesmo que não seja bem assim, vou continuar acreditando nisso porque a história é muito boa e eu adoro histórias boas – verdadeiras ou nem tanto.

Outra coisa que apre